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Mapa de questões · 2º dia
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Questão 99ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia

PINHÃO Sai ao mesmo tempo que BENONA entra.

BENONA: Eurico, Eudoro Vicente está lá fora e quer falar com você.

EURICÃO: Benona, minha irmã, eu sei que ele está lá fora, mas não quero falar com ele.

BENONA: Mas Eurico, nós lhe devemos certas atenções.

EURICÃO: Você, que foi noiva dele. Eu, não!

BENONA: Isso são coisas passadas.

EURICÃO: Passadas para você, mas o prejuízo foi meu. Esperava que Eudoro, com todo aquele dinheiro, se tornasse meu cunhado. Era uma boca a menos e um patrimônio a mais. E o peste me traiu. Agora, parece que ouviu dizer que eu tenho um tesouro. E vem louco atrás dele, sedento, atacado de verdadeira hidrofobia. Vive farejando ouro, como um cachorro da molest’a, como um urubu, atrás do sangue dos outros. Mas ele está enganado. Santo Antônio há de proteger minha pobreza e minha devoção.

SUASSUNA, A. O santo e a porca, Rio de Janeiro: José Olympio, 2013 (fragmento)

Nesse texto teatral, o emprego das expressões “o peste” e “cachorro da molest’a” contribui para

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Língua Portuguesa → Variação Linguística (sociolinguística) aplicada à leitura de texto teatral
  • ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer marcas de oralidade regional em falas de personagens sem confundi-las com outras funções da linguagem, como classe social ou tom emocional
  • 🎯 Tema/Habilidade: Variação linguística diatópica (regional) em texto dramático; reconhecimento da língua como fenômeno social, geográfico e cultural
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "O que o uso das expressões 'o peste' e 'cachorro da molest'a' revela sobre a fala da personagem Euricão?"
  • Palavras-chave decisivas: "o peste", "cachorro da molest'a", "contribui para"
  • Armadilha típica: associar automaticamente vocabulário rústico e xingamentos à classe social das personagens ou a um suposto tom autoritário, ignorando que o traço marcado no texto é geográfico/dialetal — não sociológico nem de temperamento.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar que as expressões destacadas são marcas de fala popular típicas de uma região específica, funcionando como recurso de caracterização linguística e ambientação da peça.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Variação linguística diatópica: variação da língua conforme a região geográfica do falante, manifestando-se em vocabulário, pronúncia e expressões idiomáticas próprias (ex.: modos de falar do sertão nordestino, do interior paulista, do sul do país).
  • Ariano Suassuna e o Movimento Armorial: dramaturgo paraibano que valorizou as raízes populares, ibéricas e nordestinas da cultura brasileira (cordel, romanceiro, teatro de mamulengos), incorporando à sua dramaturgia a fala coloquial e regional do interior do Nordeste como recurso estético central.
  • Função caracterizadora da linguagem no teatro: no gênero dramático, a fala de cada personagem (léxico, sintaxe, pronúncia registrada na escrita) constrói verossimilhança, identidade cultural e ambientação — é assim que o leitor/espectador "ouve" de onde vêm as personagens.
  • Redução fonética e elisão na escrita da oralidade: formas como "molest'a" (para "moléstia") representam graficamente, por meio do apóstrofo, a queda de sons característica da fala popular, recurso comum quando autores registram dialeto na literatura.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "o peste" → uso do artigo masculino "o" associado a um substantivo empregado como impropério, forma cristalizada na oralidade popular do interior nordestino para se referir a alguém com desprezo, independente da concordância de gênero da norma culta.
  • Evidência 2: "cachorro da molest'a" → expressão idiomática regional (equivalente a "cachorro da peste"), reforçada pela redução fonética "molest'a" (queda da vogal átona final de "moléstia"), típica do registro coloquial popular do sertão.
  • Síntese: As duas expressões não são erros gramaticais aleatórios nem indicam luxo/pobreza, parentesco, gênero ou autoritarismo: são marcas de oralidade que Suassuna reproduz deliberadamente na fala de Euricão para situar a personagem — e a peça — em uma variedade regional específica do português falado no Nordeste rural.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Contextualizando autor e obra

Ariano Suassuna (1927–2014) é o principal nome do Movimento Armorial, corrente artística que buscou nas raízes populares, medievais-ibéricas e nordestinas a matéria-prima de sua obra. "O Santo e a Porca" (1957) é uma comédia inspirada na Aulularia, de Plauto, mas inteiramente reambientada no sertão nordestino, com personagens que falam como gente do interior daquela região — essa transposição linguística é a marca registrada do autor.

Subpasso 4.2 — Analisando as expressões destacadas

"O peste": na norma culta, "peste" é substantivo feminino ("a peste"); o uso de "o peste" como impropério, sem concordância de gênero convencional, é uma construção fossilizada na fala popular nordestina, empregada como xingamento afetuoso-jocoso ou de deboche.

"Cachorro da molest'a": expressão idiomática que usa nomes de doença ("peste", "moléstia") como pragas e xingamentos — recurso comum na fala popular do interior do Nordeste. A grafia "molest'a", com apóstrofo indicando a supressão da vogal final, reproduz visualmente a pronúncia coloquial e reduzida típica dessa região.

Subpasso 4.3 — Verificação

Ambas as expressões cumprem a mesma função: marcar, pelo léxico e pela fonética registrada na escrita, que a fala de Euricão pertence a uma variedade regional específica do português — não a uma classe social determinada, não a um traço de gênero, não a uma relação de parentesco e não, isoladamente, a um tom autoritário. Isso corresponde exatamente ao que descreve a alternativa B.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) marcar a classe social das personagens.

❌ Incorreta: o texto não fornece pistas de hierarquia econômica ou social por meio dessas expressões especificamente; a fala popular pode, em certos contextos, sugerir camada social, mas aqui o marcador central é geográfico (regional), não socioeconômico — aliás, é o próprio conteúdo da fala (menção a "tesouro" e "patrimônio"), e não as expressões destacadas, que trata de dinheiro.

B) caracterizar usos linguísticos de uma região.

✅ Correta: "o peste" e "cachorro da molest'a" são expressões e reduções fonéticas típicas da oralidade popular do sertão nordestino, usadas por Suassuna para caracterizar linguisticamente a fala regional de suas personagens — um traço central da estética armorial do autor.

C) enfatizar a relação familiar entre as personagens.

❌ Incorreta: o parentesco entre Euricão e Benona (irmãos) já é explicitado diretamente no diálogo ("Benona, minha irmã"), sem depender das expressões destacadas; além disso, essas expressões se referem a Eudoro, que não tem laço familiar com Euricão.

D) sinalizar a influência do gênero nas escolhas vocabulares.

❌ Incorreta: não há no trecho nenhuma indicação de que o uso das expressões varie conforme o gênero (masculino/feminino) do falante; a diferença marcada é regional, e não relacionada a identidade de gênero das personagens.

E) demonstrar o tom autoritário da fala de uma das personagens.

❌ Incorreta: a irritação de Euricão é transmitida pelo conteúdo geral de sua fala (recusa em falar com Eudoro, comparações a "cachorro" e "urubu", queixas sobre o dinheiro perdido), mas isso é efeito do discurso como um todo, não uma função específica das duas expressões apontadas pelo comando, que são, antes de tudo, marcas de fala regional.

🏆 Gabarito: B — as expressões "o peste" e "cachorro da molest'a" reproduzem, no plano do léxico e da fonética grafada, a oralidade popular do sertão nordestino, caracterizando linguisticamente a região em que a peça se ambienta.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que identifica corretamente a função sociolinguística (variação diatópica) das expressões, coerente com o projeto estético regionalista de Ariano Suassuna.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente variação linguística — regional, social, situacional ou geracional — a partir de trechos literários, letras de música ou transcrições de fala, pedindo que o candidato identifique a função de marcas de coloquialismo/oralidade no texto.
  • Generalização: sempre que o enunciado destacar expressões com desvios da norma culta (elisões, concordâncias não padrão, gírias, expressões idiomáticas) e perguntar "o que isso revela", investigue primeiro se há uma marca de variação regional — é a hipótese mais frequentemente cobrada — antes de cogitar classe social, gênero ou tom emocional.
  • Dica de eliminação rápida: busque pistas de contexto geográfico e autoral no próprio enunciado (aqui: ambientação no sertão, autor ligado ao regionalismo nordestino); se os termos destacados não têm relação direta com dinheiro/posição social, elimine "classe social"; se nada indica diferença de fala entre homens e mulheres, elimine "gênero"; se o tom emocional decorre do discurso inteiro e não das duas expressões isoladas, elimine "autoritarismo".
  • Conexões: variação linguística (diatópica, diastrática, diafásica) e o regionalismo nordestino na literatura brasileira — Ariano Suassuna, Guimarães Rosa, Jorge Amado — autores que transformam a fala popular regional em matéria literária.

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