Mapa de questões · 2º dia
Questão 111 — ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia
Querido diário
Hoje topei com alguns conhecidos meus
Me dão bom-dia, cheios de carinho
Dizem para eu ter muita luz, ficar com Deus
Eles têm pena de eu viver sozinho
[…]
Hoje o inimigo veio me espreitar
Armou tocaia lá na curva do rio
Trouxe um porrete a mó de me quebrar
Mas eu não quebro porque sou macio, viu
HOLANDA, C. B. Chico. Rio de Janeiro: Biscoito Fino, 2013 (fragmento).
Uma característica do gênero diário que aparece na letra da canção de Chico Buarque é o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Gêneros textuais e discursivos (o diário íntimo)
- ⚡ Nível: Médio — a dificuldade não está em entender a letra, mas em não se deixar seduzir por traços da canção (rima, tom poético) quando a pergunta é sobre o gênero diário
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento das marcas estruturais e discursivas de um gênero textual incorporado a outro (canção que simula um diário)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Dentre as opções, qual é uma característica típica do gênero diário — e não apenas um recurso da canção — presente na letra?"
- Palavras-chave decisivas: característica do gênero diário, letra da canção, elemento presente
- Armadilha típica: marcar "rimas" ou "tom poético" só porque o texto é, de fato, rimado e poético — só que esses traços pertencem à canção como forma, não ao diário como gênero.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de separar o veículo (a canção, com verso e rima) do gênero simulado dentro dele (o diário, com sua função e estrutura próprias).
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Gênero diário: registro pessoal e cotidiano, quase sempre datado (marcado por expressões como "hoje"), escrito em primeira pessoa, em que o autor narra fatos vividos e, a partir deles, reflete sobre si mesmo, seus sentimentos e sua identidade.
- Interlocução no diário: o diarista se dirige a um confidente fictício — o próprio caderno, tratado como "querido diário" — e não a pessoas reais e próximas; por isso o texto tem estrutura de monólogo, não de diálogo efetivo.
- Recursos de forma da canção (não exclusivos do diário): métrica, rima e tom poético são convenções do gênero canção/poema. Um diário, em sua forma "pura", costuma ser escrito em prosa livre, sem qualquer compromisso estético — por isso rima e "tom poético" não são traços que definem o gênero, mesmo aparecendo neste texto específico por ele ser uma letra musicada.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Querido diário" → apóstrofe de abertura clássica do gênero diário, em que o eu lírico se dirige ao caderno personificado como confidente, e não a um interlocutor humano próximo.
- Evidência 2: "Hoje topei com alguns conhecidos meus / Me dão bom-dia [...] / Eles têm pena de eu viver sozinho" → narra um episódio pontual do dia (o encontro) e, na sequência, insere uma reflexão sobre como é visto pelos outros e sobre sua própria condição ("viver sozinho").
- Evidência 3: "Hoje o inimigo veio me espreitar [...] / Mas eu não quebro porque sou macio" → narra outro episódio do dia (a ameaça) e conclui com uma afirmação introspectiva sobre o próprio caráter — não sobre o fato em si, mas sobre quem o eu lírico é.
- Síntese: as duas estrofes repetem o mesmo movimento: relato do que aconteceu + reflexão do eu lírico sobre si mesmo a partir do que aconteceu. Esse é exatamente o mecanismo estrutural do gênero diário — narrar o vivido e elaborar, sobre ele, uma introspecção pessoal.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar a matriz do gênero diário
Um diário íntimo tem duas camadas indissociáveis: (1) o registro do que aconteceu no dia — geralmente introduzido por marcadores temporais como "hoje" — e (2) a reflexão do autor sobre esse acontecimento, voltada para dentro de si (sentimentos, julgamentos, autoimagem). É esse duplo movimento — contar e refletir — que distingue o diário de um simples relato de fatos.
Subpasso 4.2 — Testar o padrão em cada estrofe do fragmento
- 1ª estrofe: fato → "topei com alguns conhecidos"; reflexão → percepção alheia sobre sua solidão, que o eu lírico registra e pondera.
- 2ª estrofe: fato → "o inimigo veio me espreitar", "armou tocaia", "trouxe um porrete"; reflexão → "mas eu não quebro porque sou macio" — uma conclusão sobre a própria natureza, não sobre o inimigo.
Em ambos os casos, a canção reproduz a estrutura "evento do dia + reflexão sobre si" — ou seja, uma narrativa autorreflexiva.
Subpasso 4.3 — Verificação por eliminação
Ao confrontar essa estrutura com as cinco alternativas, apenas a que descreve o movimento de narrar-e-refletir sobre si mesmo corresponde ao que de fato define o gênero diário. As demais descrevem traços de forma poético-musical (rima, tom poético, verbo no infinitivo) ou uma relação de interlocução que sequer existe no texto (diálogo com pessoas próximas). O resultado aponta para a alternativa E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) diálogo com interlocutores próximos.
❌ Incorreta: não há diálogo com pessoas reais e próximas do eu lírico. O interlocutor invocado é o próprio diário, personificado ("Querido diário"), o que caracteriza monólogo reflexivo, não uma troca dialógica com conhecidos, familiares ou amigos.
B) recorrência de verbos no infinitivo.
❌ Incorreta: os poucos infinitivos do trecho ("ter" muita luz, "ficar" com Deus) aparecem dentro de uma fala relatada de terceiros ("dizem para eu..."), e não formam um padrão recorrente e estrutural do texto. O que predomina, de fato, são verbos conjugados na 1ª pessoa do presente e do pretérito ("topei", "dão", "dizem", "têm", "veio", "armou", "trouxe", "quebro"), que sustentam a narrativa pessoal — o oposto do que a alternativa afirma.
C) predominância de tom poético.
❌ Incorreta: o tom poético decorre do fato de o texto ser uma letra de canção — com imagens, metáforas ("sou macio") e construção rítmica —, não de uma exigência do gênero diário. Um diário pode (e costuma) ser escrito em prosa cotidiana, sem qualquer intenção estética; o tom poético é traço do veículo (canção), não do gênero incorporado (diário).
D) uso de rimas na composição.
❌ Incorreta: rima é recurso de versificação típico de canções e poemas ("meus"/"Deus", "espreitar"/"quebrar"), não uma característica do gênero diário. Diários íntimos, em sua forma convencional, são escritos em prosa livre e não têm compromisso algum com rima.
E) narrativa autorreflexiva.
✅ Correta: em cada estrofe, o eu lírico narra um acontecimento do próprio dia e, a partir dele, formula uma reflexão sobre si mesmo — sua condição de solitário, seu caráter diante da ameaça ("sou macio"). Esse movimento de narrar o vivido e refletir sobre a própria identidade é justamente o que estrutura e define o gênero diário, reproduzido aqui dentro da canção.
🏆 Gabarito: E — a letra reproduz, estrofe a estrofe, o mecanismo essencial do diário: relatar um episódio cotidiano e, em seguida, elaborar sobre ele uma reflexão íntima e autorreferente, o que configura uma narrativa autorreflexiva.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa E aponta o traço que de fato constitui o gênero diário — narrar o vivido e refletir sobre si —, presente nas duas estrofes do fragmento.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente pede o reconhecimento de um gênero textual "hospedado" dentro de outro — uma canção que simula uma carta, um diário, um bilhete, uma bula — testando se o aluno reconhece a função e a estrutura do gênero simulado, e não apenas a forma do texto que o veicula.
- Generalização: quando um texto de um gênero (canção, poema, propaganda) incorpora convenções de outro gênero (diário, carta, receita), busque sempre o que o texto faz — narrar e refletir, persuadir, instruir, informar — e não os elementos formais do veículo que o carrega (rima, métrica, verso).
- Dica de eliminação rápida: risque de cara qualquer alternativa que descreva um recurso formal de poesia/canção (rima, verso, tom poético) sempre que a pergunta pedir uma característica de um gênero "hospedado", como o diário — esses recursos pertencem ao veículo, não ao gênero em questão.
- Conexões: o mesmo raciocínio aparece em questões sobre cartas pessoais, bilhetes e crônicas disfarçados de letra de música ou poema; vale também revisar a diferença entre gêneros de esfera íntima (diário, carta) e gêneros de esfera pública (notícia, editorial, anúncio).
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