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Mapa de questões · 2º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 120ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia

Esses chopes dourados

[…]
quando a geração de meu pai
batia na minha
a minha achava que era normal
que a geração de cima
só podia educar a de baixo
batendo

quando a minha geração batia na de vocês
ainda não sabia que estava errado
mas a geração de vocês já sabia
e cresceu odiando a geração de cima

aí chegou esta hora
em que todas as gerações já sabem de tudo
e é péssimo
ter pertencido à geração do meio
tendo errado quando apanhou da de cima
e errado quando bateu na de baixo

e sabendo que apesar de amaldiçoados
éramos todos inocentes.

WANDERLEY, J. In: MORICONI, II (Org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século, Rio de Janeiro: Objetiva, 2001 (fragmento)

Ao expressar uma percepção de atitudes e valores situados na passagem do tempo, o eu lírico manifesta uma angústia sintetizada na

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → interpretação de poema contemporâneo, análise da voz lírica e de temas sociais
  • ⚡ Nível: Médio — a resposta correta exige abstrair, a partir de imagens concretas (a violência física entre gerações), um conceito mais amplo sobre como práticas equivocadas se sedimentam socialmente
  • 🎯 Tema/Habilidade: Percepção subjetiva da passagem do tempo e da mudança de valores entre gerações; competência de leitura e compreensão de textos literários (eixo de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias)
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual alternativa resume, de forma mais completa, a angústia do eu lírico ao perceber como atitudes e valores mudaram (ou não) ao longo de várias gerações?"
  • Palavras-chave decisivas: angústia, passagem do tempo, atitudes e valores
  • Armadilha típica: confundir a síntese GLOBAL do poema (o processo histórico e coletivo de aceitação de uma prática errada) com um recorte pontual — apenas a violência em si, apenas a reação da última geração, ou apenas uma dúvida sobre o futuro.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de enxergar o movimento completo do texto — da naturalização de um erro à tomada de consciência tardia sobre ele — e não apenas um detalhe isolado de uma estrofe.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Eu lírico coletivo: o "eu" do poema fala em nome de uma geração inteira ("a geração do meio"), não de um indivíduo isolado — é um fenômeno social, não uma experiência privada.
  • Senso comum: conjunto de crenças, valores e práticas aceitos socialmente sem exame crítico, repetidos por tradição até que a reflexão os revele como falhos ou injustos.
  • Ciclo geracional de violência naturalizada: a punição física como método educativo se repete de geração em geração, cada uma acreditando ser "normal" até tomar consciência do erro — e essa consciência sempre chega depois do ato.
  • Ambiguidade moral (culpa e inocência simultâneas): a "geração do meio" reconhece ter errado — tanto ao apanhar sem reagir quanto ao bater na geração seguinte —, mas também se sente inocente, pois agiu conforme aquilo que era aceito em sua época.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "a minha achava que era normal / que a geração de cima / só podia educar a de baixo / batendo" → revela que a violência era naturalizada, incorporada ao senso comum da época, sem qualquer questionamento.
  • Evidência 2: "quando a minha geração batia na de vocês / ainda não sabia que estava errado" → mostra que a consciência do erro chega sempre depois do ato, uma marca de como o senso comum se transforma lentamente e de forma desigual entre gerações.
  • Evidência 3: "aí chegou esta hora / em que todas as gerações já sabem de tudo / e é péssimo" seguida de "sabendo que apesar de amaldiçoados / éramos todos inocentes" → sintetiza o desconforto de, já consciente do erro, olhar retrospectivamente para uma prática que foi aceita e repetida durante gerações.
  • Síntese: o poema não narra um episódio único de violência, mas o processo histórico e coletivo pelo qual uma prática equivocada (bater para educar) foi aceita, repetida e só depois reconhecida como falha. Isso é, precisamente, a dinâmica de formação — e desconstrução — do senso comum.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o sujeito lírico e seu lugar de fala

O eu lírico se autodenomina "geração do meio": está entre a geração que o educou batendo e a geração que ele próprio educou da mesma forma. Essa posição intermediária é o centro do poema — o eu lírico não é vítima pura nem algoz puro, mas as duas coisas ao mesmo tempo, e é dessa dupla condição que nasce a angústia expressa nos versos finais.

Subpasso 4.2 — Rastrear a evolução da consciência ao longo do tempo

O texto segue uma sequência temporal clara: a geração de cima educa batendo, e isso é aceito como normal; a geração do meio apanha e, sem saber que aquilo era errado, repete o padrão e bate na geração de baixo; a geração de baixo, ao ser educada assim, já sabe que é errado e "cresce odiando a geração de cima". Percebe-se, então, uma defasagem constante entre a PRÁTICA (que se repete de forma automática) e a CONSCIÊNCIA CRÍTICA sobre ela (que surge sempre depois, e de modo desigual entre as gerações).

Subpasso 4.3 — Verificação: qual conceito enquadra essa defasagem?

Essa defasagem entre prática aceita e consciência tardia do erro é exatamente o mecanismo de formação do senso comum: ideias e condutas que circulam e se sedimentam socialmente como "normais", sem exame crítico, até que a reflexão as desnude como imperfeitas. É esse processo — e não um evento isolado de crueldade, nem apenas a revolta da geração mais nova, nem uma dúvida sobre o futuro — que os versos finais sintetizam: "sabendo que apesar de amaldiçoados / éramos todos inocentes". Confrontando esse raciocínio com as cinco alternativas, apenas uma descreve com precisão esse movimento de consciência sobre um erro coletivamente aceito.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) compreensão da efemeridade das convicções antes vistas como sólidas.

❌ Incorreta: o poema não trata de convicções que se revelam passageiras ou efêmeras, e sim da persistência de uma prática — a violência educativa — que atravessa várias gerações antes de ser questionada. Não há "efemeridade": pelo contrário, a crença dura décadas antes de ser revista.

B) consciência das imperfeições aceitas na construção do senso comum.

✅ Correta: sintetiza exatamente o mecanismo do poema. A violência foi aceita como prática "normal" — naturalizada no senso comum de cada época —, e só com o passar do tempo cada geração toma consciência de que aquilo era um erro, uma imperfeição incorporada à forma como se pensava a educação. A angústia final ("amaldiçoados", mas "inocentes") nasce justamente dessa consciência tardia de ter vivido dentro de um senso comum falho.

C) revolta das novas gerações contra modelos tradicionais de educação.

❌ Incorreta: descreve apenas um trecho do poema — a geração "de baixo", que "cresceu odiando a geração de cima" — e não a síntese completa da angústia do eu lírico, que fala pela "geração do meio" e por todas as gerações envolvidas, não apenas pela revolta da mais jovem.

D) incerteza da expectativa de mudança por parte das futuras gerações.

❌ Incorreta: o poema afirma justamente o contrário — "todas as gerações já sabem de tudo" —, ou seja, não há incerteza sobre a consciência das gerações futuras. A angústia do texto recai sobre o passado já vivido e irreversível, não sobre uma expectativa incerta de mudança.

E) crueldade atribuída à forma de punição praticada pelos mais velhos.

❌ Incorreta: reduz o poema a um julgamento sobre a crueldade do ato de bater, ignorando o eixo central do texto — a reflexão sobre como essa prática foi coletivamente aceita e repetida ao longo de gerações, e não apenas condenada como cruel. O foco do poema é a naturalização social do erro, não o rótulo moral da punição.

🏆 Gabarito: B — porque o poema constrói, pela repetição do padrão de violência entre gerações, a ideia de que práticas equivocadas são absorvidas pelo senso comum de uma época e só desnudadas como erro mais tarde, gerando a angústia final de ter sido, ao mesmo tempo, vítima e algoz inocente.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a alternativa B é a única que capta o processo histórico-coletivo de formação e desconstrução do senso comum narrado no poema, em vez de um recorte pontual — violência isolada, revolta de um único grupo geracional ou incerteza sobre o futuro.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz poemas ou textos que tratam da mudança de valores e costumes ao longo do tempo (relações entre gerações, tradição versus modernidade), pedindo a síntese do sentimento do eu lírico ou narrador diante dessa transformação.
  • Generalização: em questões que pedem a síntese do sentimento ou da angústia do eu lírico, a alternativa correta costuma ser a que abrange o movimento geral do texto (o processo, a reflexão coletiva), enquanto as erradas recortam apenas um trecho, um evento pontual ou uma emoção isolada.
  • Dica de eliminação rápida: elimine alternativas que mencionem apenas uma geração ou um momento específico do poema — aqui, as alternativas C (só a geração de baixo) e E (só o ato de punir) caem por esse motivo. Como o comando fala em "passagem do tempo", a resposta certa precisa atravessar todas as gerações citadas no texto.
  • Conexões: tema semelhante aparece em poemas sobre memória e tradição familiar (por exemplo, de Carlos Drummond de Andrade) e dialoga com conceitos de Sociologia sobre "senso comum" e "habitus" (Pierre Bourdieu), frequentemente cobrados em questões de Ciências Humanas do ENEM.

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