Mapa de questões · 2º dia
Questão 119 — ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia
A partida do trem
Marcava seis horas da manhã, Angela Prain pagou o táxi e pegou sua pequena valise, Dona Maria Rita de Alvarenga Chagas Souza Melo desceu do Opala da filha e encaminharam-se para os trilhos. A velha bem vestida e com joias. Das rugas que a disfarçavam saía a forma pura de um nariz perdido na idade, e de uma boca que outrora devia ter sido cheia e sensível. Mas que importa? Chega-se a um certo ponto — e o que foi não importa. Começa uma nova raça. Uma velha não pode comunicar-se. Recebeu o beijo gelado de sua filha que foi embora antes do trem partir. Ajudara-a antes a subir no vagão. Sem que neste houvesse um centro, ela se colocara do lado. Quando a locomotiva se pôs em movimento, surpreendeu-se um pouco: não esperava que o trem seguisse nessa direção e sentara-se de costas para o caminho.
Angela Pralini percebeu-lhe o movimento e perguntou:
— A senhora deseja trocar de lugar comigo?
Dona Maria Rita se espantou com a delicadeza, disse que não, obrigada, para ela dava no mesmo, Mas parecia ter-se perturbado. Passou a mão sobre o camafeu filligranado de ouro espetado no peito, passou a mão pelo broche. Seca. Ofendida? Perguntou afinal a Angela Pralini:
— É por causa de mim que a senhorita deseja trocar de lugar?
A descoberta de experiências emocionais com base no Cotidiano é recorrente na obra de Clarice Lispector. No fragmento, o narrador enfatiza o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Interpretação de prosa de ficção (conto de Clarice Lispector)
- ⚡ Nível: Médio — exige superar a leitura literal (roupas, joias, diálogo cordial) para captar o sentimento psicológico por trás dos gestos das personagens
- 🎯 Tema/Habilidade: Construção de sentido em texto literário a partir de indícios narrativos (competência de leitura e interpretação — reconhecimento de recursos expressivos da linguagem)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual sentimento ou ideia o narrador destaca com mais força ao longo do fragmento sobre o encontro das duas mulheres no trem?"
- Palavras-chave decisivas: recorrente, Cotidiano, enfatiza
- Armadilha típica: confundir os elementos de status social (joias, carro Opala, camafeu de ouro) com o foco temático do texto, quando eles são apenas moldura descritiva; ou achar que a tensão está entre as duas mulheres, quando na verdade o conflito é interno, dentro da personagem idosa.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de conectar pequenos gestos e falas isolados (o beijo frio da filha, a mão que toca o camafeu, a pergunta insegura final) a um único fio emocional que os une.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Epifania do cotidiano em Clarice Lispector: a autora constrói revelações emocionais profundas a partir de cenas banais — aqui, o simples embarque em um trem —, deslocando o foco do enredo para o interior psicológico das personagens.
- Narrador onisciente seletivo: o narrador entra na consciência da personagem idosa, revelando percepções e inseguranças que o diálogo, sozinho, não mostraria (como a frase categórica "Uma velha não pode comunicar-se").
- Gesto como símbolo: movimentos repetitivos e aparentemente banais (tocar o camafeu, tocar o broche) funcionam como tradução física de um estado emocional que a personagem não verbaliza.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Uma velha não pode comunicar-se." → afirmação direta do narrador que liga a velhice a uma barreira de comunicação, isto é, a um isolamento existencial.
- Evidência 2: "Recebeu o beijo gelado de sua filha que foi embora antes do trem partir." → o adjetivo "gelado" e a pressa da filha em ir embora sinalizam desafeto familiar, reforçando a solidão da personagem logo na abertura do conto.
- Evidência 3: "Passou a mão sobre o camafeu filigranado de ouro espetado no peito, passou a mão pelo broche. Seca. Ofendida?" → os gestos repetidos e a dúvida do narrador ("Ofendida?") expõem a insegurança e o fechamento emocional de Dona Maria Rita diante de um gesto de gentileza.
- Síntese: todas as evidências apontam na mesma direção — a fragilidade afetiva de uma mulher idosa que se sente isolada, desconfiada e pouco compreendida, e não para diferenças sociais, choque de gerações ou constrangimento genérico entre estranhos.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Situar o núcleo temático da narrativa
"A partida do trem" narra o encontro casual de duas mulheres — Ângela Pralini, mais jovem, e Dona Maria Rita, uma senhora idosa — em uma viagem de trem. Desde as primeiras linhas, o narrador estabelece um contraste sutil entre as duas: enquanto Ângela se movimenta com desenvoltura, Dona Maria Rita chega "bem vestida e com joias", mas carregando um corpo marcado pelo tempo — "das rugas que a disfarçavam saía a forma pura de um nariz perdido na idade". O texto já sinaliza, de saída, que o assunto central não é a viagem em si, mas o que a velhice representa para quem a vive.
Subpasso 4.2 — Rastrear os indícios de solidão ligados ao envelhecimento
A frase "Mas que importa? Chega-se a um certo ponto — e o que foi não importa. Começa uma nova raça." é decisiva: ela trata a velhice como uma ruptura, o início de uma condição quase estrangeira em relação à vida anterior. Essa ideia culmina na sentença mais direta do fragmento: "Uma velha não pode comunicar-se." — um veredito do narrador sobre a incomunicabilidade que a idade impõe. Some-se a isso o "beijo gelado" da filha, que parte antes mesmo de o trem sair, e temos um quadro de abandono afetivo que precede e explica a fragilidade emocional da personagem durante toda a cena. Os elementos de riqueza (joias, o Opala, o camafeu de ouro) não desaparecem, mas funcionam como pano de fundo social — não como assunto da narrativa, que está voltada para o drama íntimo da idosa.
Subpasso 4.3 — Verificação
A cena final confirma a leitura: diante do simples gesto cortês de Ângela ("A senhora deseja trocar de lugar comigo?"), Dona Maria Rita reage com gestos nervosos (tocar o camafeu, tocar o broche) e conclui a cena perguntando, insegura, "É por causa de mim que a senhorita deseja trocar de lugar?". Ela interpreta gentileza como possível pena ou rejeição motivada por sua idade — prova de que a solidão e a insegurança geradas pelo envelhecimento comandam sua percepção de mundo. Esse fio emocional único, presente do início ao fim do fragmento, corresponde exatamente à alternativa E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) comportamento vaidoso de mulheres de condição social privilegiada.
❌ Incorreta: os elementos de status (joias, o carro Opala, o camafeu de ouro) compõem o retrato social das personagens, mas o narrador não os usa para criticar vaidade — eles são cenário, não o assunto emocional do texto, que está centrado na fragilidade interior da idosa, não na exibição de riqueza.
B) anulação das diferenças sociais no espaço público de uma estação.
❌ Incorreta: o texto faz o movimento oposto — reforça marcadores de classe (joias, veículo de luxo, acessórios de ouro) em vez de apagá-los. Não há qualquer indício de nivelamento social entre as personagens no vagão ou na estação.
C) incompatibilidade psicológica entre mulheres de gerações diferentes.
❌ Incorreta: não existe embate entre Ângela e Dona Maria Rita — pelo contrário, Ângela é gentil e cuidadosa o tempo todo (oferece trocar de lugar, ajuda-a a subir no vagão). A tensão psicológica do fragmento é interna à personagem idosa, e não um conflito entre as duas gerações representadas.
D) constrangimento da aproximação formal de pessoas desconhecidas.
❌ Incorreta: o diálogo entre as duas mulheres é cordial e não gera constrangimento mútuo evidente; o desconforto que aparece é específico de Dona Maria Rita e nasce de sua insegurança quanto à própria idade, não de uma formalidade genérica entre estranhos.
E) sentimento de solidão alimentado pelo processo de envelhecimento.
✅ Correta: a afirmação categórica "Uma velha não pode comunicar-se", somada ao abandono afetivo simbolizado pelo "beijo gelado" da filha, aos gestos nervosos sobre o camafeu e o broche e à pergunta insegura final, constrói um retrato coeso da solidão como consequência psicológica direta do envelhecimento — exatamente o que o comando da questão pede ao mencionar "experiências emocionais com base no Cotidiano".
🏆 Gabarito: E — o narrador tece, do início ao fim do fragmento, uma rede de indícios (incomunicabilidade, abandono afetivo, insegurança diante da gentileza alheia) que convergem para retratar a solidão como marca psicológica da velhice.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa E reúne todas as evidências textuais — a frase-síntese sobre a incomunicabilidade da velha, o gesto frio da filha e a pergunta insegura da protagonista — em uma única chave interpretativa coerente.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra textos de Clarice Lispector e de outros(as) autores(as) da prosa intimista brasileira pedindo que o candidato identifique o "tema central" ou "o que o narrador enfatiza", exigindo leitura inferencial e não apenas localização de informação explícita.
- Generalização: em questões desse tipo, a resposta certa costuma ser a que explica o maior número de detalhes do texto com uma única ideia; alternativas que citam apenas um detalhe isolado (como joias ou formalidade) tendem a ser distratores.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que apontam conflito explícito entre personagens (C e D) quando o diálogo do trecho é, na superfície, cordial — o verdadeiro drama de Clarice quase sempre é interior, não relacional.
- Conexões: compare com outras questões de interpretação de prosa poética (fluxo de consciência, foco narrativo em 3ª pessoa seletiva) e com o tema da solidão/velhice em outros textos literários cobrados no ENEM, como contos de Machado de Assis sobre isolamento social.
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