Mapa de questões · 2º dia
Questão 104 — ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia
Quem procura a essência de um conto no espaço que fica entre a obra e seu autor comete um erro: é muito melhor procurar não no terreno que fica entre o escritor e sua obra, mas justamente no terreno que fica entre o texto e seu leitor.
OZ, A. De amor e trevas. São Paulo: Cia. das Letras, 2005 (fragmento).
A progressão temática de um texto pode ser estruturada por meio de diferentes recursos coesivos, entre os quais se destaca a pontuação. Nesse texto, o emprego dos dois pontos caracteriza uma operação textual realizada com a finalidade de
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Língua Portuguesa → Coesão textual e pontuação (funções sintático-semânticas dos dois pontos)
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer, sem apoio de regra decorada, a relação lógica que os dois pontos estabelecem entre duas orações dentro de um período complexo.
- 🎯 Tema/Habilidade: Recursos coesivos e progressão temática — competência de leitura que avalia o domínio dos mecanismos linguísticos usados na construção da argumentação (Competência de Área 1/8 da matriz do ENEM para Linguagens).
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é a função textual exercida pelos dois pontos na frase de Amós Oz?"
- Palavras-chave decisivas: progressão temática, recursos coesivos, pontuação
- Armadilha típica: tratar os dois pontos como se introduzissem uma simples enumeração, uma citação ou uma consequência, quando na verdade eles articulam uma correção de percurso argumentativo — o autor nega um caminho de leitura e, em seguida, explica qual é o caminho certo.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o segmento após os dois pontos não é uma lista, nem uma oposição simples, nem uma hipótese, mas um esclarecimento que sustenta e desenvolve a afirmação anterior ("comete um erro").
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Coesão textual: conjunto de recursos linguísticos (conectivos, pronomes, pontuação, repetições) que amarram as partes de um texto, garantindo que ele seja interpretado como uma unidade de sentido, e não como frases soltas.
- Pontuação como recurso coesivo: sinais como vírgula, ponto e vírgula, travessão e dois pontos não são apenas pausas respiratórias; eles sinalizam relações lógicas entre orações — adição, oposição, causa, consequência, explicação, enumeração etc.
- Função dos dois pontos: entre as várias funções possíveis (anunciar citação, enumeração, fala em discurso direto), destaca-se a função de introduzir uma explicação, uma justificativa ou um esclarecimento que detalha ou fundamenta o que foi dito antes. É essa relação de "vou explicar por quê" que caracteriza o uso no trecho.
- Progressão temática: o modo como as ideias avançam no texto, cada nova informação retomando e ampliando a anterior. Os dois pontos, aqui, fazem essa progressão avançar ao encadear a afirmação (há um erro) com o esclarecimento (qual é o erro e qual é o caminho certo).
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Quem procura a essência de um conto no espaço que fica entre a obra e seu autor comete um erro:" → afirmação categórica que soa incompleta sozinha — o leitor fica esperando saber por que isso é um erro.
- Evidência 2: "é muito melhor procurar não [...] entre o escritor e sua obra, mas justamente [...] entre o texto e seu leitor." → o trecho após os dois pontos não apresenta uma nova ideia isolada, mas justifica e esclarece a afirmação anterior, mostrando exatamente onde está o erro e qual seria o procedimento correto.
- Síntese: os dois pontos funcionam como uma "dobradiça" entre uma tese (há um erro de abordagem) e sua explicação (o erro é buscar a essência do conto na relação autor-obra, quando deveria ser buscada na relação texto-leitor). Essa relação de causa/explicação é o núcleo que a questão pede para identificar.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar a oração antes dos dois pontos
A primeira parte do período — "Quem procura a essência de um conto no espaço que fica entre a obra e seu autor comete um erro" — é uma afirmação completa em si, mas deliberadamente vaga: ela diz que existe um erro, mas não diz qual é a natureza desse erro nem por que ele é um erro. Gramaticalmente, essa oração poderia terminar em ponto final, mas o autor escolhe os dois pontos porque quer imediatamente qualificar essa afirmação.
Subpasso 4.2 — Isolar a oração depois dos dois pontos e testar a relação lógica
A segunda parte — "é muito melhor procurar não no terreno que fica entre o escritor e sua obra, mas justamente no terreno que fica entre o texto e seu leitor" — não enumera itens, não apresenta uma consequência hipotética (não há condicional do tipo "se... então"), não compara dois elementos de forma neutra e não intensifica um problema conceitual (não há gradação de intensidade). O que ela faz é explicar, de forma argumentativa, por que a busca "entre a obra e seu autor" é um erro: porque o lugar certo de investigação é outro (o terreno entre o texto e o leitor). Trocando os dois pontos mentalmente por "isto é, porque, ou seja, a saber", a frase continua fazendo perfeito sentido — típico teste para reconhecer a função explicativa/argumentativa dos dois pontos.
Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas
Ao aplicar esse teste de substituição e observar a estrutura argumentativa (tese + esclarecimento que a sustenta), a única leitura compatível com as cinco alternativas é a de que os dois pontos introduzem um argumento esclarecedor: o segmento final explica, justifica e detalha por que a primeira afirmação ("comete um erro") é verdadeira, indicando o caminho de leitura que o autor considera correto.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) comparar elementos opostos.
❌ Incorreta: embora existam dois "terrenos" mencionados (autor-obra e texto-leitor), a função dos dois pontos não é estabelecer uma comparação neutra entre eles; o texto não pesa vantagens e desvantagens de cada terreno — ele afirma que um é errado e explica por que o outro é o caminho certo. A comparação, se existisse, seria feita por conectivos como "enquanto" ou "por outro lado", não por dois pontos.
B) relacionar informações gradativas.
❌ Incorreta: informações gradativas pressupõem uma escala crescente ou decrescente de intensidade (ex.: "primeiro... depois... por fim", ou "não só... mas também"). No trecho, não há gradação: há uma afirmação e sua explicação, sem escalonamento de intensidade entre as partes.
C) intensificar um problema conceitual.
❌ Incorreta: essa alternativa tenta confundir o candidato com o fato de o texto tratar de um "erro" (problema conceitual). Porém, os dois pontos não servem para reforçar ou dar ênfase a esse problema — eles servem para explicá-lo. Intensificação seria algo como repetir ou usar advérbios de grau ("é um erro gravíssimo, seríssimo"), o que não ocorre aqui.
D) introduzir um argumento esclarecedor.
✅ Correta: os dois pontos abrem espaço exatamente para o esclarecimento que sustenta a tese anterior — eles anunciam a explicação de por que buscar a essência do conto na relação autor-obra é um erro, apresentando o argumento (buscar entre texto e leitor) que fundamenta essa afirmação.
E) assinalar uma consequência hipotética.
❌ Incorreta: uma consequência hipotética exigiria uma estrutura condicional (se X, então Y) ou uma ideia de possibilidade futura condicionada a algo. O trecho após os dois pontos não é uma consequência que decorreria de uma condição, mas uma explicação direta e assertiva do raciocínio do autor, sem qualquer marca de hipótese.
🏆 Gabarito: D — os dois pontos articulam a afirmação inicial ("comete um erro") com sua justificativa, cumprindo a função coesiva de introduzir um argumento que esclarece e fundamenta o que foi dito antes.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a letra D é a única que descreve com precisão a relação lógico-semântica entre as duas orações do período: a segunda explica e justifica a primeira, função clássica dos dois pontos quando usados fora de contextos de enumeração ou citação.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra pontuação não como norma isolada de "onde colocar a vírgula", mas como recurso coesivo que revela relações de sentido (explicação, causa, consequência, enumeração, oposição). A prova espera que o candidato leia a pontuação como parte da argumentação do texto, não como ornamento gramatical.
- Generalização: sempre que os dois pontos aparecerem depois de uma afirmação que "pede explicação" (algo incompleto, vago ou que gera a pergunta "por quê?"), teste mentalmente a substituição por "isto é", "porque" ou "a saber" — se o sentido se mantiver coerente, a função é explicativa/esclarecedora.
- Dica de eliminação rápida: elimine de imediato alternativas que mencionem estruturas ausentes no trecho — "consequência hipotética" exige condicional (se... então); "informações gradativas" exige escala de intensidade; "intensificar" exige reforço enfático. Nenhuma dessas marcas está presente no fragmento, o que já reduz as opções a comparação ou esclarecimento — e a leitura atenta do conteúdo (explicação de um erro) resolve a dúvida final em favor do esclarecimento.
- Conexões: tema ligado a outras questões de coesão textual que exploram o uso de travessão, ponto e vírgula e conectivos argumentativos (mas, porém, portanto), além de questões sobre articulação de ideias em textos dissertativo-argumentativos.
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