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Mapa de questões · 2º dia
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Questão 125ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia

Receita
Tome-se um poeta não cansado,
Uma nuvem de sonho e uma flor,
Três gotas de tristeza, um tom dourado,
Uma veia sangrando de pavor.
Quando a massa já ferve e se retorce
Deita-se a luz dum corpo de mulher,
Duma pitada de morte se reforce,
Que um amor de poeta assim requer.

Os gêneros textuais caracterizam-se por serem relativamente estáveis e podem reconfigurar-se em função do propósito comunicativo. Esse texto constitui uma mescla de gêneros, pois

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Gêneros textuais e hibridismo de gêneros
  • ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer marcas formais de um gênero (receita) dentro de outro (poema), e não apenas identificar figuras de linguagem ou estrutura poética óbvias.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de gêneros textuais e seus propósitos comunicativos (competência de leitura e análise de linguagens, códigos e suas tecnologias)
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Explique por que o poema 'Receita' é uma mescla de dois gêneros textuais diferentes."
  • Palavras-chave decisivas: mescla de gêneros, relativamente estáveis, reconfigurar-se em função do propósito comunicativo
  • Armadilha típica: o candidato reconhece que o texto "é um poema com linguagem figurada" (alternativas D e E) e marca uma delas, porque isso é verdadeiro, mas não é o que causa a mescla de gêneros — é apenas a descrição de um poema comum, sem hibridismo nenhum.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar o elemento formal que não pertence ao gênero poema e que foi importado de outro gênero (a receita), gerando a hibridização textual.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Gêneros textuais (Bakhtin): formas relativamente estáveis de enunciado, ligadas a esferas sociais de comunicação e a um propósito comunicativo específico (ex.: a receita serve para instruir um preparo; o poema, para expressar subjetividade esteticamente).
  • Receita culinária como gênero: caracteriza-se por linguagem prescritiva e injuntiva — verbos no imperativo ou na forma de voz passiva sintética ("tome-se", "bata-se", "deite-se"), listagem de ingredientes com unidades de medida (colher, pitada, gota, xícara) e sequência procedimental de etapas.
  • Poema lírico como gênero: organiza-se em versos, estrofes, métrica e rima, e mobiliza subjetividade, imagens e linguagem figurada para expressar sentimentos — sem função instrucional.
  • Hibridismo/mescla de gêneros: ocorre quando um texto incorpora marcas formais e estruturais de um gênero dentro de outro, criando um efeito de sentido novo (aqui, tratar a criação poética/o amor como se fossem "preparados" seguindo um procedimento).

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Tome-se um poeta não cansado" → verbo na construção reflexiva-prescritiva típica de receitas ("tome-se", "junte-se"), e não um verbo comum de discurso lírico.
  • Evidência 2: "Três gotas de tristeza, um tom dourado" / "Uma pitada de morte se reforce" → substantivos abstratos (tristeza, morte) recebem unidades de medida próprias de ingredientes culinários (gota, pitada), fundindo o vocabulário técnico da receita ao universo emocional do poema.
  • Evidência 3: "Quando a massa já ferve e se retorce" → descrição de um processo de cozimento (a "massa" fervendo) como metáfora do processo de composição poética/do amor, reforçando a estrutura de "modo de preparo".
  • Síntese: o texto usa o vocabulário lírico (poeta, sonho, flor, amor) mas o organiza seguindo o roteiro formal de uma receita: ingredientes com medidas + instruções de preparo no imperativo/voz reflexiva. É essa importação de procedimentos prescritivos que gera a mescla de gêneros — não a rima, nem a métrica, nem a metáfora isoladamente.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear as marcas do gênero "receita" presentes no texto

Releia o poema procurando exclusivamente estruturas típicas de receita culinária: (1) verbos como "tome-se" e "deita-se", construídos na forma reflexiva-impessoal que qualquer receita de cozinha usa ("tempere-se", "junte-se"); (2) quantidades e unidades de medida — "três gotas", "uma pitada" — aplicadas a sentimentos abstratos (tristeza, morte); (3) o verbo "ferve e se retorce", associado ao preparo de uma massa. Esses três elementos não pertencem ao repertório formal do poema lírico tradicional: pertencem ao gênero instrucional/injuntivo da receita.

Subpasso 4.2 — Distinguir "ter estrutura de poema" de "ser uma mescla de gêneros"

O texto, de fato, também tem versos, rimas (ABAB) e linguagem figurada — características normais de qualquer poema. Mas isso, por si só, não caracteriza mescla de gêneros: um poema comum já tem essas marcas e ninguém diria que ele "mescla gêneros" só por ser um poema com metáforas. A mescla só se configura porque, além de ser um poema, o texto importa o procedimento prescritivo da receita (o "como fazer", passo a passo, com ingredientes e verbos de instrução) para organizar sua composição. É esse cruzamento formal — instrução de receita dentro da moldura do poema — que caracteriza o hibridismo genérico apontado no enunciado.

Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas

Ao confrontar essa conclusão com as opções, a única que nomeia exatamente esse fenômeno — a entrada de procedimentos prescritivos (próprios da receita) na composição de um poema — é a alternativa A. As demais descrevem ou o conteúdo temático (C), ou características que o texto não cumpre de fato (B — ele não ensina a preparar um prato real), ou traços que são apenas próprios do gênero poema isoladamente (D e E), sem explicar a mescla.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) introduz procedimentos prescritivos na composição do poema.

✅ Correta: é exatamente isso que gera a mescla de gêneros. O texto incorpora, na estrutura de um poema, verbos de instrução (imperativo/voz reflexiva), quantidades e unidades de medida — elementos formais que são a marca registrada do gênero receita (prescrever ações em sequência), agora usados para "compor" um poema de amor. É a fusão de uma função injuntiva (instruir/prescrever) dentro de uma função poética (expressar), e é justamente esse cruzamento de propósitos comunicativos que o comando da questão pede para identificar.

B) explicita as etapas essenciais à preparação de uma receita.

❌ Incorreta: o texto não ensina, de fato, a preparar nenhum prato culinário real — os "ingredientes" são abstrações poéticas (tristeza, pavor, morte, luz). Ele simula a forma de uma receita, mas não cumpre a função de uma receita de verdade (instruir um preparo culinário replicável). Confundir "imitar a forma" com "explicitar etapas reais" é o erro conceitual desta alternativa.

C) explora elementos temáticos presentes em uma receita.

❌ Incorreta: o texto não trata do tema "culinária" — não fala de comida, sabores ou nutrição. Ele usa apenas a estrutura formal (verbos, medidas, procedimento) da receita, aplicada a um tema completamente diferente (a criação poética e o amor). A mescla é estrutural/formal, não temática, o que invalida esta opção.

D) apresenta organização estrutural típica de um poema.

❌ Incorreta: essa afirmação é verdadeira, mas irrelevante para explicar a mescla de gêneros — dizer que o poema tem estrutura de poema é uma tautologia que não explica hibridismo nenhum. A mescla de gêneros exige a presença de um elemento estranho ao gênero poema (o procedimento de receita), e essa alternativa ignora justamente esse elemento.

E) utiliza linguagem figurada na construção do poema.

❌ Incorreta: linguagem figurada é um traço esperado e recorrente em qualquer poema lírico, não uma marca de mescla de gêneros. Se a linguagem figurada bastasse para caracterizar hibridismo, todo poema metafórico seria "mescla de gêneros", o que esvazia o conceito. O que torna este texto especial é a forma de receita, não a figuração em si.

🏆 Gabarito: A — a mescla de gêneros ocorre porque o poema incorpora, na sua composição, procedimentos prescritivos (verbos de instrução, quantidades, sequência de preparo) próprios do gênero receita, cruzando a função injuntiva desse gênero com a função poética do texto.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa A aponta o elemento formal estranho ao poema (o procedimento prescritivo da receita) que efetivamente causa a mescla de gêneros; as demais descrevem traços do poema em si (estrutura, figuração) ou erram a natureza da mescla (tema vs. forma).
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra, com frequência, textos que hibridizam gêneros (uma bula em forma de carta, um anúncio em forma de poema, uma receita em forma de crônica) para testar se o aluno reconhece marcas formais específicas de cada gênero, e não apenas o "clima" geral do texto.
  • Generalização: sempre que a questão perguntar "por que este texto é uma mescla de gêneros", procure o traço formal (vocabulário técnico, verbos de comando, listas, saudações, assinaturas etc.) importado de um gênero estranho ao gênero-base do texto — nunca a temática isolada nem características genéricas do próprio gênero-base.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa que apenas descreva o gênero-base "puro" (aqui, D e E descrevem só o poema) — elas nunca explicam mescla, só confirmam o óbvio. Em seguida, desconfie de alternativas que exijam que o texto "cumpra de fato" a função do outro gênero (aqui, B exige uma receita funcional de verdade), pois hibridismo é sobre forma emprestada, não sobre função cumprida.
  • Conexões: compare com outras questões ENEM sobre intertextualidade e gêneros digitais (memes que mesclam gênero jornalístico e humorístico) e com o conceito de paródia/estilização, que também recombina formas de gêneros distintos para gerar novos efeitos de sentido.

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