Mapa de questões · 2º dia
Questão 100 — ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia
Soneto VII
Onde estou? Este sítio desconheço:
Quem fez tão diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
E em contemplá-lo tímido esmoreço.
Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
De estar a ela um dia reclinado:
Ali em vale um monte está mudado:
Quanto pode dos anos o progresso!
Árvores aqui vi tão florescentes,
Que faziam perpétua a primavera:
Nem troncos vejo agora decadentes.
Eu me engano: a região esta não era;
Mas que venho a estranhar, se estão presentes
Meus males, com que tudo degenera!
COSTA, C. M. Poemas. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br. Acesso em: 7 jul. 2012.
No soneto de Cláudio Manuel da Costa, a contemplação da paisagem permite ao eu lírico uma reflexão em que transparece uma
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da questão
- Matéria: Literatura → Arcadismo → Cláudio Manuel da Costa
- Habilidade: H16 — relacionar informações sobre concepções artísticas e uso de recursos expressivos dos diferentes gêneros
- Nível: Médio — os quartetos enganam, porque parecem tratar só da paisagem; a chave está no último terceto
- Gabarito: revelado no Passo 4
🔎 Passo 1 — Leitura estratégica do comando
- O comando, em uma linha: que reflexão a contemplação da paisagem provoca no eu lírico.
- Palavras-chave decisivas: a contemplação da paisagem permite, uma reflexão em que transparece.
- A armadilha: parar de ler no verso 11. Até ali, o soneto é sobre uma paisagem que mudou — a fonte que sumiu, o monte que virou vale, as árvores que não estão mais lá. Quem responde nesse ponto marca alguma alternativa sobre mudança do meio ou sobre espaço desconhecido. O soneto, porém, vira no último terceto, e é lá que a reflexão se completa.
- O que a resposta precisa mostrar: que você acompanha o movimento do soneto até o fecho e percebe que a paisagem devastada é espelho do estado do eu lírico.
📚 Passo 2 — Revisão do conteúdo
- Soneto: forma fixa de catorze versos, em dois quartetos e dois tercetos. A tradição concentra a virada de sentido nos tercetos, e sobretudo nos últimos versos — a chamada chave de ouro. Ler o soneto pela chave é procedimento, não truque.
- Cláudio Manuel da Costa: poeta árcade mineiro do século XVIII. Sua obra combina o repertório neoclássico — natureza, pastor, fonte, prado — com uma inquietação e um pessimismo que já apontam para o Romantismo. Nele a paisagem raramente é só cenário.
- Projeção do estado de espírito na paisagem: recurso em que o mundo exterior aparece contaminado pelo sentimento de quem observa. A terra não muda por si; ela se degrada porque quem olha está degradado. É o conceito que sustenta a resposta.
- Fugacidade do tempo: tema clássico. "Quanto pode dos anos o progresso!" registra o poder corrosivo do tempo sobre as coisas — que, no soneto, se soma ao sofrimento pessoal em vez de substituí-lo.
🧭 Passo 3 — Decodificação do enunciado
- Evidência 1: "Onde estou? Este sítio desconheço: / Quem fez tão diferente aquele prado?" → o soneto abre em desorientação. Duas perguntas, nenhuma resposta ainda.
- Evidência 2: "Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço / De estar a ela um dia reclinado" → há memória precisa do lugar. Ele não está perdido: está diante de um lugar conhecido que se tornou irreconhecível.
- Evidência 3: "Ali em vale um monte está mudado: / Quanto pode dos anos o progresso!" → a transformação é registrada como obra do tempo. Ainda estamos no plano da paisagem.
- Evidência 4: "Árvores aqui vi tão florescentes, / Que faziam perpétua a primavera: / Nem troncos vejo agora decadentes" → a perda é total. Não sobrou nem o resto morto do que havia. Note a oposição entre "perpétua a primavera" e o nada atual.
- Evidência 5: "Eu me engano: a região esta não era; / Mas que venho a estranhar, se estão presentes / Meus males, com que tudo degenera!" → a chave. Ele descarta a hipótese de ter errado de lugar e explica a devastação por outra via: os males dele estão ali, e é com eles que tudo degenera.
- Síntese: o soneto parte da paisagem, passa pela memória e termina atribuindo a ruína do lugar ao sofrimento de quem o contempla. Os dois estados são o mesmo estado.
🧠 Passo 4 — Resolução passo a passo
4.1 — Acompanhar o movimento dos catorze versos
- Quartetos: estranhamento diante do lugar e comparação com a memória. A fonte não existe mais, o monte virou vale.
- Primeiro terceto: a perda das árvores, com a oposição entre a primavera perpétua de antes e o vazio de agora.
- Segundo terceto: a explicação. Não é outro lugar; é o mesmo lugar visto por alguém tomado por seus males.
4.2 — Ler a chave de ouro palavra por palavra
"Mas que venho a estranhar, se estão presentes / Meus males, com que tudo degenera!"
Traduzindo: por que me espanto, se meus sofrimentos estão aqui comigo, e é por causa deles que tudo se degrada? O verbo "degenera" tem por sujeito "tudo" e por causa "meus males". O eu lírico afirma, portanto, que a decadência do mundo à volta é efeito do que ele carrega.
4.3 — Nomear a relação
Não é comparação simples entre homem e natureza, nem lamento pela passagem do tempo isolado. É correspondência: a terra agoniza porque o eu sofre. Sofrimento interior e ruína exterior se identificam num mesmo processo.
4.4 — Verificação
Testando cada leitura possível contra o texto: solidão não é mencionada; resignação não existe, porque o eu esmorece e estranha; a dúvida sobre o lugar aparece, mas é desfeita no verso 12; recriar o passado não acontece, porque a memória só serve para medir a perda. Sobra a correspondência entre o sofrer do eu e o degenerar da terra. Gabarito: E.
✅❌ Passo 5 — Análise das alternativas
❌ (A) angústia provocada pela sensação de solidão — atribui ao soneto um tema que ele não tem. Em nenhum verso o eu lírico se queixa de ausência de companhia; o que o abala é o desaparecimento das formas do lugar. Angústia há, mas a causa é outra.
❌ (B) resignação diante das mudanças do meio ambiente — erra duas vezes. Primeiro, não há resignação: "em contemplá-lo tímido esmoreço" descreve alguém abalado, não conformado. Segundo, "meio ambiente" traz para o século XVIII uma preocupação ecológica que não está no poema — a transformação ali é obra dos anos e dos males do eu, não de degradação ambiental.
❌ (C) dúvida existencial em face do espaço desconhecido — distrator mais forte, porque o soneto realmente começa com uma pergunta e com um espaço irreconhecível. Mas essa dúvida é de percurso, não de chegada: o verso "Eu me engano: a região esta não era" formula a hipótese, e o verso seguinte a descarta. Confundir o ponto de partida com a conclusão é o erro.
❌ (D) intenção de recriar o passado por meio da paisagem — inverte a função da memória no poema. O eu lírico lembra ("eu não me esqueço / De estar a ela um dia reclinado") para medir o tamanho da perda, não para reconstruir o que havia. Não há nenhum gesto de restauração no texto.
✅ (E) empatia entre os sofrimentos do eu e a agonia da terra — é o que a chave de ouro afirma explicitamente. "Se estão presentes / Meus males, com que tudo degenera" liga a devastação do lugar ao sofrimento de quem o contempla: a fonte sumida, o monte desfeito e as árvores ausentes são a mesma ruína que ele traz consigo. Interior e exterior se correspondem, e é dessa correspondência que a reflexão se faz.
Gabarito: E — o último terceto atribui a degeneração de tudo aos males do eu lírico, identificando a agonia da paisagem com o próprio sofrimento.
🏁 Passo 6 — Generalização e dica de prova
- Por que só E se sustenta: as outras quatro se apoiam nos quartetos e param antes da virada. O soneto só se resolve no verso 14, e é ele que nomeia a relação entre o eu e a terra.
- Como o ENEM cobra isso: com soneto, a prova aposta que o candidato responderá pelos quartetos. A pergunta quase sempre exige o terceto final. Leia o poema inteiro antes de olhar as alternativas.
- A regra geral: quando o eu lírico explica a paisagem por um estado seu — "meus males", "minha dor", "meu peito" —, o item é de projeção do sentimento sobre o mundo, não de descrição do mundo.
- Eliminação em 30 segundos: procure no último terceto um possessivo de primeira pessoa. Achou "Meus males" ligado a "tudo degenera", a resposta é a que une eu e natureza, e as alternativas puramente paisagísticas caem juntas.
- Temas que costumam vir junto: Arcadismo e seus lugares-comuns (fugere urbem, locus amoenus, carpe diem), a transição para o Romantismo, o soneto como forma fixa e a Inconfidência Mineira.
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