Mapa de questões · 2º dia
Questão 131 — ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia
BONS DIAS!
14 de junho de 1889
Ó doce, ó longa, ó inexprimível melancolia dos jornais velhos! Conhece-se um homem diante de um deles. Pessoa que não sentir alguma coisa ao ler folhas de meio século, bem pode crer que não terá nunca uma das mais profundas sensações da vida, – igual ou quase igual à que dá a vista das ruínas de uma civilização. Não é a saudade piegas, mas a recomposição do extinto, a revivescência do passado.
ASSIS, M. Bons dias! (Crônicas 1888-1889). Campinas: Editora da Unicamp; São Paulo: Hucitec, 1990.
O jornal impresso é parte integrante do que hoje se compreende por tecnologias de informação e comunicação. Nesse texto, o jornal é reconhecido como
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de texto literário (crônica machadiana)
- ⚡ Nível: Médio — exige perceber que o texto nega explicitamente uma leitura óbvia ("saudade piegas") antes de afirmar a leitura correta, o que confunde quem lê rápido demais.
- 🎯 Tema/Habilidade: Compreensão da função atribuída a um veículo de comunicação dentro de um texto literário; competência de linguagens que relaciona literatura e tecnologias de informação e comunicação.
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo a crônica de Machado de Assis, que papel o jornal antigo desempenha para quem o lê hoje?"
- Palavras-chave decisivas: melancolia dos jornais velhos, recomposição do extinto, revivescência do passado
- Armadilha típica: parar de ler na primeira frase, cheia de emoção ("Ó doce, ó longa, ó inexprimível melancolia..."), e concluir que a resposta é sobre afeto pessoal ou saudosismo — exatamente o que o próprio texto descarta duas linhas depois.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar o trecho em que o narrador define, com precisão, o que a leitura de jornais velhos provoca — não uma emoção vaga, mas um processo de reconstituição de um tempo que já se foi.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Crônica machadiana: gênero híbrido entre jornalismo e literatura, publicado originalmente em periódicos; Machado de Assis usa o cotidiano (aqui, a própria leitura de jornais antigos) como ponto de partida para uma reflexão mais ampla sobre tempo, memória e civilização.
- Jornal como tecnologia de informação e comunicação (TIC): o comando da questão situa o jornal impresso como um meio que registra, armazena e transmite informação através do tempo — não apenas do presente, mas também como arquivo do passado.
- Memória e reconstrução do extinto: conceito central do texto — a leitura de um registro antigo (jornal, ruína, documento) permite reconstituir mentalmente um contexto que deixou de existir; é isso que Machado chama de "recomposição do extinto, a revivescência do passado".
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Ó doce, ó longa, ó inexprimível melancolia dos jornais velhos!" → o narrador atribui uma forte carga emotiva à experiência, mas essa frase por si só não explica o que causa a melancolia — é apenas a reação, não a função do jornal.
- Evidência 2: "igual ou quase igual à que dá a vista das ruínas de uma civilização" → comparação-chave: o jornal velho é posto ao lado das ruínas arqueológicas, ou seja, um vestígio material que permite reconstruir algo desaparecido. Ruínas não são objeto de devoção nem de investigação científica do ser humano em si — são pistas para reconstituir um mundo extinto.
- Evidência 3: "Não é a saudade piegas, mas a recomposição do extinto, a revivescência do passado." → esta é a frase que resolve a questão. O narrador nega explicitamente a leitura sentimental ("saudade piegas") e afirma, com dois termos quase sinônimos ("recomposição", "revivescência"), que a função do jornal velho é reconstruir/reavivar o passado.
- Síntese: as três evidências convergem para o mesmo ponto: o jornal, no texto, não é celebrado por afeto pessoal, por valor cultural abstrato ou por investigar a natureza humana — ele é reconhecido porque permite reconstituir um tempo que já não existe, isto é, funciona como instrumento de reconstrução da memória.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar o efeito central descrito pelo narrador
O texto abre com uma exclamação emotiva sobre a "melancolia dos jornais velhos" e, em seguida, afirma que "conhece-se um homem" pela forma como reage a essa leitura. Essa reação é comparada à sensação de contemplar "as ruínas de uma civilização" — uma imagem que evoca vestígios materiais de um tempo extinto, não um objeto de afeto cotidiano.
Subpasso 4.2 — Traduzir a frase-chave para os termos da pergunta
A pergunta pede como "o jornal é reconhecido" no texto. A resposta está literalmente escrita: "Não é a saudade piegas, mas a recomposição do extinto, a revivescência do passado." Aqui Machado faz uma correção proposital de expectativa: descarta a leitura sentimental (que levaria a "devoção pessoal") e afirma que se trata de reconstituir ("recompor") e reavivar ("revivescer") algo que deixou de existir. Isso é, em outras palavras, reconstruir a memória de uma época através do registro escrito.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando essa síntese com as cinco alternativas, apenas a opção C — "instrumento de reconstrução da memória" — reproduz com precisão o sentido de "recomposição do extinto, a revivescência do passado". As demais alternativas introduzem ideias que o texto não sustenta (devoção, cultura, investigação do ser humano, produção de fatos), como será detalhado no Passo 5.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) objeto de devoção pessoal.
❌ Incorreta: "devoção" sugere um apego afetivo, quase religioso, a um objeto específico. O texto, porém, descarta justamente esse tipo de leitura ao dizer que "não é a saudade piegas" — ou seja, nega explicitamente que a experiência seja de afeição sentimental individual, e a desloca para um plano de reconstituição histórica e coletiva.
B) elemento de afirmação da cultura.
❌ Incorreta: o texto não discute o jornal como suporte de valores, tradições ou identidade cultural. A crônica está centrada na experiência de reencontrar um tempo passado por meio da leitura, não em afirmar ou defender uma cultura; "afirmação da cultura" é um conceito ausente do trecho.
C) instrumento de reconstrução da memória.
✅ Correta: é a transposição direta de "a recomposição do extinto, a revivescência do passado". O jornal velho funciona, no texto, como vestígio material — assim como as ruínas de uma civilização — que possibilita reconstituir mentalmente um período que já não existe. Essa é exatamente a definição de instrumento de reconstrução da memória.
D) ferramenta de investigação do ser humano.
❌ Incorreta: o narrador não propõe uma investigação analítica ou científica sobre a natureza humana a partir do jornal. A crônica é uma reflexão pessoal e literária sobre temporalidade e memória, não um estudo sobre o comportamento ou a essência do homem.
E) veículo de produção de fatos da realidade.
❌ Incorreta: "produção de fatos" sugeriria que o jornal cria ou constrói a realidade no momento presente. O texto trata do jornal como registro de fatos já ocorridos, cuja releitura décadas depois permite reconstituir o passado — função de testemunho e memória, não de produção da realidade.
🏆 Gabarito: C — o próprio texto define, com as palavras "recomposição do extinto" e "revivescência do passado", que a leitura de jornais antigos reconstrói um tempo extinto, caracterizando o jornal como instrumento de reconstrução da memória.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa C repete, em outras palavras, a definição que o próprio narrador dá para a experiência de ler jornais velhos — nenhuma outra alternativa é sustentada pelo trecho final do texto, que é onde a resposta é revelada de forma explícita.
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente traz crônicas machadianas ou de outros cronistas clássicos e pede que o candidato identifique a função ou o papel atribuído a um objeto, meio de comunicação ou prática social dentro do texto — a resposta quase sempre está numa frase de síntese, geralmente perto do fechamento do trecho.
- Generalização: em questões desse tipo, localize a frase que contém uma construção de oposição ("não é... mas", "não se trata de... e sim") — ela costuma eliminar diretamente a leitura mais óbvia (armadilha) e apontar a leitura correta de forma quase literal.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas com palavras de sentido afetivo ou subjetivo isolado ("devoção", "saudade") quando o texto expressamente rejeita esse viés; descarte também termos que sugerem criação ou análise ativa ("produção de fatos", "investigação") quando o texto fala de resgate de algo já existente no passado.
- Conexões: esse tipo de questão se conecta a outros textos machadianos sobre tempo e memória, além de temas contemporâneos como a digitalização de acervos jornalísticos e o papel de arquivos históricos na preservação da memória social.
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