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Mapa de questões · 2º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 133ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia

Lições de motim

DONA COTINHA – É claro! Só gosta de solidão quem nasceu pra ser solitário. Só o solitário gosta de solidão. Quem vive só e não gosta da solidão não é um solitário, é só um desacompanhado. (A reflexão escorrega lá pro fundo da alma.) Solidão é vocação, besta de quem pensa que é sina. Por isso, tem de ser valorizada. E não é qualquer um que pode ser solitário, não. Ah, mas não é mesmo! É preciso ter competência pra isso. (De súbito, pedagógica, volta-se para o homem.) É como poesia, sabe, moço? Tem de ser recitada em voz alta, que é pra gente sentir o gosto. (FAZ UMA PAUSA.) Você gosta de poesia? (O HOMEM TORNA A SE DEBATER. A VELHA INTERROMPE O DISCURSO E VOLTA A LHE DAR AS COSTAS, COMO SEMPRE, IMPASSÍVEL. O HOMEM, MAIS UMA VEZ, CANSADO, DESISTE.) Bem, como eu ia dizendo, pra viver bem com a solidão temos de ser proprietários dela e não inquilinos, me entende? Quem é inquilino da solidão não passa de um abandonado. É isso aí.

ZORZETTI, H. Lições de motim. Goiânia: Kelps, 2010 (adaptado).

Nesse trecho, o que caracteriza Lições de motim como texto teatral?

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Gênero dramático (texto teatral) e seus elementos constitutivos
  • ⚡ Nível: Médio — a dificuldade não está em ler o trecho, mas em resistir à tentação de escolher recursos de conteúdo (tom, analogias, perguntas) no lugar do elemento formal que define o gênero
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento dos elementos estruturais do texto dramático (rubricas/didascálias) — Competência de leitura de gêneros textuais e recursos expressivos da linguagem verbal
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual traço, presente neste trecho específico, é responsável por identificá-lo como pertencente ao gênero teatral (e não a um conto, uma crônica ou um poema)?"
  • Palavras-chave decisivas: caracteriza, texto teatral, nesse trecho
  • Armadilha típica: confundir o conteúdo do que Dona Cotinha diz (o tom melancólico, as analogias sobre solidão, a pergunta sobre poesia) com o elemento estrutural que faz do texto uma peça de teatro. Todo esse conteúdo poderia estar num conto ou numa crônica sem que o texto deixasse de ser prosa narrativa.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de separar "o que a personagem fala" de "como o dramaturgo constrói a cena por fora da fala" — e reconhecer que só o segundo aspecto é exclusivo do teatro.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Texto dramático (teatral): gênero escrito para ser encenado, organizado em dois planos simultâneos: o texto principal (as falas dos personagens) e o texto secundário (as rubricas).
  • Rubricas (ou didascálias): indicações do dramaturgo — normalmente entre parênteses, em itálico ou em letras maiúsculas — que orientam gestos, movimentação, tom de voz, expressões e elementos de cenário. Não são ditas em voz alta pelos atores; existem apenas para guiar a encenação e, na leitura, para o leitor "visualizar" a cena.
  • Ausência de narrador: diferentemente do conto, do romance ou da crônica, o texto teatral não possui uma voz narrativa que medeia os fatos para o leitor. Tudo o que se sabe da cena vem das falas dos personagens ou das rubricas — nunca de um narrador contando a história.
  • Recursos expressivos gerais (tom, analogia, pergunta retórica): são estratégias de linguagem que podem aparecer em qualquer gênero — poema, crônica, discurso, teatro. Por isso, sozinhos, não servem para provar que um texto é teatral.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "(A reflexão escorrega lá pro fundo da alma.)" → rubrica poética que indica um estado interior da personagem, orientando o tom que o ator deve assumir na fala seguinte.
  • Evidência 2: "(De súbito, pedagógica, volta-se para o homem.)" → rubrica que descreve movimento físico (virar-se) e atitude ("pedagógica") de Dona Cotinha, informação que só existe fora da fala.
  • Evidência 3: "(O HOMEM TORNA A SE DEBATER. A VELHA INTERROMPE O DISCURSO E VOLTA A LHE DAR AS COSTAS, COMO SEMPRE, IMPASSÍVEL. O HOMEM, MAIS UMA VEZ, CANSADO, DESISTE.)" → rubrica extensa, em caixa alta, que narra uma sequência inteira de ações físicas — o Homem se debate (sugerindo estar contido ou amordaçado), a velha o ignora e vira as costas, ele desiste — sem que uma única palavra seja pronunciada por ninguém.
  • Síntese: é justamente esse conjunto de trechos entre parênteses/em maiúsculas que constrói o conflito físico entre o Homem e Dona Cotinha e dá dinamismo à cena. Retire as rubricas e sobra apenas um monólogo estático; é por meio delas que a ação dramática se movimenta diante do leitor.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Separar os dois planos textuais

No trecho, é preciso isolar (1) a fala de Dona Cotinha, reproduzida em discurso direto contínuo, e (2) os comentários entre parênteses, alguns em minúsculas ("A reflexão escorrega...") e outros inteiramente em maiúsculas ("O HOMEM TORNA A SE DEBATER..."). Esse segundo plano é o das rubricas — a marca gráfica típica do gênero dramático, ausente em contos, crônicas ou poemas.

Subpasso 4.2 — Verificar a função dessas rubricas na cena

Ao ler apenas as rubricas em sequência, nota-se uma mini-trama paralela: o Homem tenta reagir/debater-se, é ignorado, a velha vira as costas com indiferença, ele desiste. Essa progressão — tensão, recusa, desistência — é a própria ação dramática da cena, e o leitor só tem acesso a ela porque o dramaturgo a registrou como rubrica. Não há um narrador contando "o homem se debatia, cansado"; há uma instrução cênica objetiva, em terceiro plano, para orientar a encenação.

Subpasso 4.3 — Verificação por eliminação estrutural

Ao confrontar esse mecanismo com as cinco alternativas, apenas uma nomeia com precisão esse recurso formal: o "uso de rubricas para construir a ação dramática". As demais alternativas apontam para conteúdo temático ou estilístico (tom, perguntas, analogias) ou para um elemento que o teatro, por definição, não possui (narrador). Isso confirma que a resposta correta é a alternativa D.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) O tom melancólico presente na cena.

❌ Incorreta: o tom melancólico é uma marca de conteúdo/atmosfera, presente na fala de Dona Cotinha, mas nada impede que esse mesmo tom apareça em um conto, numa crônica ou num poema. Tom não é um elemento estrutural exclusivo do gênero dramático.

B) As perguntas retóricas da personagem.

❌ Incorreta: "Você gosta de poesia?" nem funciona como pergunta estritamente retórica, já que Dona Cotinha aguarda (e não recebe) resposta do Homem. Além disso, perguntas — retóricas ou não — são recurso de linguagem comum a qualquer gênero textual, não uma marca do teatro.

C) A interferência do narrador no desfecho da cena.

❌ Incorreta: erro conceitual grave, pois o texto teatral, por definição, não possui narrador — essa é justamente a característica que o distingue da prosa narrativa (conto, romance, crônica). O que orienta a cena são as rubricas, escritas pelo dramaturgo como indicação cênica, e não uma voz narrativa que medeia ou interfere nos fatos. O trecho tampouco mostra qualquer desfecho sendo alterado.

D) O uso de rubricas para construir a ação dramática.

✅ Correta: os trechos entre parênteses e em letras maiúsculas — as rubricas — são o elemento formal que, de fato, só existe no texto teatral. É por meio delas que o leitor acompanha o conflito físico entre o Homem e Dona Cotinha (debater-se, virar as costas, desistir), construindo a ação dramática da cena sem depender de um narrador.

E) As analogias sobre a solidão feitas pela personagem.

❌ Incorreta: as analogias ("é como poesia", "proprietários... e não inquilinos" da solidão) são recursos argumentativos do discurso de Dona Cotinha — conteúdo temático e estilístico — que poderiam constar de um ensaio, uma crônica reflexiva ou um poema, sem nenhuma relação necessária com o gênero teatral.

🏆 Gabarito: D — as rubricas são o único elemento, entre as alternativas, que constitui uma marca formal exclusiva do gênero dramático, responsável por construir a ação da cena fora das falas.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a alternativa D é a única que aponta um recurso estrutural e exclusivo do texto teatral — as rubricas —, enquanto as demais tratam de conteúdo temático (tom, analogias) ou de um elemento inexistente no gênero (narrador).
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente testa o reconhecimento de gêneros textuais e literários a partir de seus elementos constitutivos formais: no poema, versos e estrofes; na HQ, balões e onomatopeias; na notícia, o lide; no teatro, falas de personagens combinadas a rubricas.
  • Generalização: quando a pergunta for "o que caracteriza este texto como pertencente ao gênero X?", busque sempre o elemento de forma/estrutura exclusivo daquele gênero — nunca o tema, o sentimento ou o recurso estilístico, que podem migrar livremente entre gêneros diferentes.
  • Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que citem apenas tom, sentimento ou tema (aqui, A e E) — são conteúdo, não forma; e desconfie sempre de alternativas com a palavra "narrador" em textos teatrais (aqui, C), pois teatro não tem narrador por definição.
  • Conexões: compare com questões sobre elementos de outros gêneros textuais no ENEM (crônica, HQ, poema, texto publicitário) e com questões de variação linguística nos diálogos de peças teatrais, tema recorrente nas provas de linguagens.

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