Mapa de questões · 2º dia
Questão 123 — ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia
TEXTO I
Entrevistadora – eu vou conversar aqui com a professora A. D. … o português então não é uma língua difícil?
Professora – olha se você parte do princípio… que a língua portuguesa não é só regras gramaticais… não se você se apaixona pela língua que você… já domina que você já fala ao chegar na escola se o teu professor cativa você a ler obras da literatura… obras da/ dos meios de comunicação… se você tem acesso a revistas… é… a livros didáticos… a… livros de literatura o mais formal o e/ o difícil é porque a escola transforma como eu já disse as aulas de língua portuguesa em análises gramaticais.
TEXTO II
Entrevistadora – Vou conversar com a professora A. D. O português é uma língua difícil?
Professora – Não, se você parte do princípio que a língua portuguesa não é só regras gramaticais. Ao chegar à escola, o aluno já domina e fala a língua. Se o professor motivá-lo a ler obras literárias, e se tem acesso a revistas, a livros didáticos, você se apaixona pela língua. O que torna difícil é que a escola transforma as aulas de língua portuguesa em análises gramaticais.
O Texto I é a transcrição de uma entrevista concedida por uma professora de português a um programa de rádio. O Texto II é a adaptação dessa entrevista para a modalidade escrita. Em comum, esses textos
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Sociolinguística (modalidades da língua: fala e escrita; norma culta urbana)
- ⚡ Nível: Médio — a dificuldade não está em entender o conteúdo dos textos, mas em não confundir "informalidade da fala" com "ausência de norma culta"
- 🎯 Tema/Habilidade: Variação linguística e relação fala/escrita — Competência 8 (compreender a língua portuguesa como geradora de significação) / Habilidade 26 (relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que a transcrição oral da entrevista (Texto I) e sua versão adaptada para a escrita (Texto II) têm em comum?"
- Palavras-chave decisivas: "Em comum", "transcrição", "adaptação... para a modalidade escrita"
- Armadilha típica: escolher uma alternativa que descreve algo verdadeiro só para o Texto I (como as hesitações), ignorando que o comando pede o que é compartilhado pelos dois textos, não uma marca exclusiva da fala espontânea.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato distingue modalidade (o canal: oral × escrito) de variedade/registro linguístico (o nível de formalidade e escolaridade do falante, como a norma culta) — só a segunda permanece constante quando o texto muda de canal.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Modalidade da língua (oral × escrita): é a forma de realização do texto — sonora ou gráfica. Cada modalidade tem convenções próprias: a fala admite hesitações, pausas, retomadas e marcadores conversacionais; a escrita exige pontuação, periodização e frases completas.
- Variedade/registro linguístico: conjunto de escolhas lexicais, sintáticas e discursivas ligadas ao grau de formalidade e à escolaridade do falante (norma culta, norma popular, gírias, jargões etc.), independente do canal em que o texto é veiculado.
- Norma culta urbana: variedade de prestígio empregada por falantes com escolaridade formal em contextos institucionais e públicos (entrevistas, rádio, universidade). É objeto de estudo de projetos como o NURC (Projeto da Norma Urbana Linguística Culta), que registra a fala espontânea de pessoas cultas nas grandes cidades brasileiras — inclusive com hesitações, porque a espontaneidade da fala não elimina a norma culta de quem fala.
- Planejamento textual: grau de elaboração prévia do discurso. A fala espontânea costuma ser pouco planejada (hesitações, reformulações); a escrita permite revisão e edição, tornando-se um texto planejado.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Texto I é a transcrição de uma entrevista concedida por uma professora de português a um programa de rádio" → revela uma fala espontânea, mas produzida por uma falante com alta escolaridade (professora), em contexto público e institucional — perfil típico de informante da norma culta.
- Evidência 2: mesmo hesitando ("é... a livros didáticos", "os/ dos meios de comunicação"), a professora usa vocabulário técnico e coeso — "regras gramaticais", "obras da literatura", "livros didáticos" — sinal de domínio do repertório formal da língua, que não desaparece com as hesitações superficiais da fala.
- Evidência 3: "Texto II é a adaptação dessa entrevista para a modalidade escrita" → confirma que o conteúdo, o vocabulário e a variedade linguística são os mesmos; o que muda é apenas o canal (oral → escrito) e a eliminação das marcas de não planejamento.
- Síntese: a diferença entre os dois textos está só na modalidade e no grau de planejamento; a variedade linguística de base — o português culto de uma falante urbana em contexto institucional — permanece idêntica nos dois.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Separar "modalidade" de "variedade linguística"
O primeiro passo é entender que existem duas variáveis independentes em jogo. A modalidade (oral × escrita) muda visivelmente do Texto I para o Texto II: sumem as hesitações, os cortes de frase e as retomadas, entram a pontuação e a concatenação sintática padrão. Como a questão pede o que é comum aos dois textos, a resposta correta não pode estar em nada ligado à modalidade — porque a modalidade é justamente o que foi alterado na adaptação. A resposta precisa estar no nível da variedade linguística, que é a camada que não se altera quando um texto muda de canal.
Subpasso 4.2 — Analisar o perfil da entrevistada e o contexto de produção
A entrevistada é professora de português, falando em um programa de rádio — ou seja, uma falante com formação superior, em situação pública e relativamente formal. Mesmo com as hesitações típicas da fala espontânea, seu vocabulário ("regras gramaticais", "obras da literatura", "livros didáticos") e sua argumentação estruturada revelam domínio da norma culta. Quando o Texto I é adaptado para o Texto II, os editores apenas retiram as marcas de improviso (hesitações, repetições, cortes) — mas não precisam trocar o vocabulário nem simplificar o conteúdo, porque a variedade de base já era culta por trás das hesitações. Isso confirma que a norma culta urbana está presente tanto na fala transcrita quanto no texto editado.
Subpasso 4.3 — Verificação contra as alternativas
Cruzando essa conclusão com as cinco opções: qualquer alternativa que descreva uma marca exclusiva da fala espontânea (hesitação, reformulação, uso não planejado) só vale para o Texto I e é descartada. A única característica que permanece invariável entre os dois textos é a variedade linguística empregada — o português culto urbano da entrevistada. Isso aponta diretamente para a alternativa E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) apresentam ocorrências de hesitações e reformulações.
❌ Incorreta: hesitações e reformulações ("é/", "os/ dos meios de comunicação", "que você... já domina que você já fala") são marcas exclusivas da fala espontânea do Texto I. A adaptação escrita (Texto II) elimina justamente essas marcas para atender às convenções da escrita padrão — frases completas, sem repetições, sem marcadores de busca de palavra. Portanto, essa característica não é comum aos dois textos: é exatamente o que os diferencia.
B) são modelos de emprego de regras gramaticais.
❌ Incorreta: o Texto I traz estruturas típicas da oralidade que fogem da norma-padrão escrita (frases truncadas, retomadas, ausência de pontuação convencional), não podendo ser tomado como "modelo" de emprego de regras gramaticais. A correção gramatical plena aparece, no máximo, no texto já editado (Texto II) — não em ambos.
C) são exemplos de uso não planejado da língua.
❌ Incorreta: apenas o Texto I ilustra uso não planejado — fala espontânea, com hesitações e reformulações típicas de quem fala sem roteiro. O Texto II é resultado de um trabalho deliberado de edição (retirada de marcas de oralidade, reorganização sintática, pontuação), sendo, portanto, um texto planejado.
D) apresentam marcas da linguagem literária.
❌ Incorreta: nenhum dos dois textos usa recursos da linguagem literária (figuras de linguagem, construções poéticas, função estética da linguagem). Trata-se de um discurso informativo/opinativo sobre ensino de língua portuguesa, em registro de entrevista, sem qualquer intenção estética.
E) são amostras do português culto urbano.
✅ Correta: apesar da mudança de modalidade (fala transcrita → texto escrito editado) e da presença ou ausência de marcas de improviso, o conteúdo lexical, sintático e discursivo dos dois textos reflete a fala de uma professora com formação superior, em contexto urbano institucional (entrevista de rádio) — ou seja, a norma culta urbana. A variedade linguística permanece constante; o que se transforma é apenas o canal de realização e o grau de planejamento.
🏆 Gabarito: E — os dois textos, apesar de estarem em modalidades diferentes (oral e escrita), são amostras do português culto urbano, porque a variedade linguística da entrevistada — professora com formação superior falando em contexto institucional — não muda quando a fala é adaptada para a escrita; só desaparecem as marcas específicas da oralidade.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que descreve uma característica que resiste à mudança de modalidade — a variedade culta urbana da fala da entrevistada — enquanto A, B, C e D descrevem traços que valem para apenas um dos textos.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente questões que comparam a transcrição de uma fala com sua versão escrita, testando se o aluno confunde "informalidade da fala" (hesitações, pausas) com "ausência de norma culta". Fala espontânea de um falante culto continua sendo culta, mesmo com hesitações.
- Generalização: quando dois textos apresentam a mesma entrevista/depoimento em duas modalidades (oral × escrita), a variedade/registro do falante tende a permanecer igual, enquanto mudam apenas as marcas específicas de cada modalidade (hesitação, repetição e marcadores conversacionais no oral; pontuação e coesão explícita no escrito).
- Dica de eliminação rápida: sempre que o comando disser "em comum", elimine em segundos qualquer alternativa que descreva algo presente em só um dos textos — sobra apenas o que é invariante entre eles.
- Conexões: Projeto NURC (Norma Urbana Linguística Culta); preconceito linguístico e variação linguística (Marcos Bagno); relações entre fala e escrita como um contínuo de gêneros textuais (Luiz Antônio Marcuschi, Da fala para a escrita).
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