Mapa de questões · 2º dia
Questão 107 — ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia
Em casa, Hideo ainda podia seguir fiel ao imperador japonês e às tradições que trouxera no navio que aportara em Santos. […] Por isso Hideo exigia que, aos domingos, todos estivessem juntos durante o almoço. Ele se sentava à cabeceira da mesa; à direita ficava Hanashiro, que era o primeiro filho, e Hitoshi, o segundo, e à esquerda, Haruo, depois Hiroshi, que era o mais novo. […] A esposa, que também era mãe, e as filhas, que também eram irmãs, aguardavam de pé ao redor da mesa […]. Haruo reclamava, não se cansava de reclamar: que se sentassem também as mulheres à mesa, que era um absurdo aquele costume. Quando se casasse, se sentariam à mesa a esposa e o marido, um em frente ao outro, porque não era o homem melhor que a mulher para ser o primeiro […]. Elas seguiam de pé, a mãe um pouco cansada dos protestos do filho, pois o momento do almoço era sagrado, não era hora de levantar bandeiras inúteis […].
NAKASATO, O. Nihonjin. São Paulo: Benvirá, 2011 (fragmento).
Referindo-se a práticas culturais de origem nipônica, o narrador registra as reações que elas
provocam na família e mostra um contexto em que
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Interpretação de texto narrativo (romance) e leitura de recursos simbólicos
- ⚡ Nível: Médio — exige comparar cinco leituras plausíveis do mesmo trecho e descartar as que generalizam ou invertem o sentido do texto
- 🎯 Tema/Habilidade: Leitura crítica de texto literário; reconhecimento do símbolo/metáfora que estrutura a cena narrada
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que contexto o narrador constrói ao mostrar as reações da família diante das práticas culturais japonesas?"
- Palavras-chave decisivas: reações, práticas culturais de origem nipônica, contexto
- Armadilha típica: agarrar-se a um detalhe isolado do texto (o imperador, o almoço de domingo) e transformar esse detalhe em regra geral, sem checar se o restante do trecho sustenta essa leitura
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de perceber que a organização espacial descrita — quem senta, onde senta, quem fica em pé — funciona como signo de algo maior: a hierarquia de poder dentro da família.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Metáfora espacial: recurso narrativo em que a disposição física dos elementos (aqui, os lugares à mesa) representa uma relação abstrata — no caso, hierarquia e poder.
- Narrador e ponto de vista: o narrador descreve minuciosamente a ordem dos assentos e reproduz a fala de revolta de Haruo, deixando que o leitor perceba a crítica à tradição sem precisar de um julgamento explícito.
- Patriarcado e tradição nipônica: sistema cultural em que o homem-chefe ocupa a posição central de autoridade e a hierarquia entre os filhos segue a ordem de nascimento, com o primogênito recebendo o lugar de maior prestígio.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Ele se sentava à cabeceira da mesa; à direita ficava Hanashiro, que era o primeiro filho, e Hitoshi, o segundo, e à esquerda, Haruo, depois Hiroshi, que era o mais novo." → revela uma ordem rigorosamente hierárquica: o pai ocupa o centro do poder (cabeceira), os filhos se distribuem conforme a ordem de nascimento, e o lado direito é reservado a quem tem mais prestígio.
- Evidência 2: "A esposa [...] e as filhas [...] aguardavam de pé ao redor da mesa" → revela que as mulheres da família são excluídas até do direito básico de sentar-se: elas não têm lugar nenhum, o que expõe a desigualdade de gênero como parte constitutiva dessa mesma estrutura.
- Evidência 3 (fala de Haruo): "porque não era o homem melhor que a mulher para ser o primeiro" → confirma, pela crítica do próprio personagem, que a mesa era lida, dentro da ficção, como expressão de desigualdade — não como detalhe neutro de etiqueta.
- Síntese: as evidências convergem para mostrar a mesa como mapa da hierarquia familiar: posição equivale a poder. Não é o ato de comer que importa, mas onde e como cada um se posiciona nele.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar o que está de fato descrito no texto
O narrador não afirma que a obediência ao imperador traz prestígio, não descreve abandono de tradições e não mostra nenhum conflito sendo resolvido. O que ele detalha, com precisão quase geométrica, é ONDE cada um se posiciona: cabeceira (pai/chefe), direita (primogênito > segundo filho), esquerda (filhos mais novos) e "ao redor", em pé (mulheres, sem lugar fixo algum).
Subpasso 4.2 — Relacionar a disposição espacial ao conteúdo simbólico
Essa disposição não é arbitrária: reproduz, em escala reduzida, a estrutura de poder da família patriarcal japonesa tradicional. Quem senta e onde senta comunica quem manda, quem é valorizado e quem está subordinado. A fala de Haruo é a chave de leitura que o próprio texto oferece: ele nomeia essa mesa como símbolo de desigualdade ("não era o homem melhor que a mulher para ser o primeiro"), propondo uma mesa "invertida" — face a face, sem hierarquia.
Subpasso 4.3 — Verificação
Se a mesa fosse apenas um espaço comum de refeição, não haveria motivo para o narrador detalhar tão precisamente a ordem dos assentos, nem sentido na revolta de Haruo contra "aquele costume". A reação que essa organização espacial provoca — indignação do filho mais novo, resignação cansada da mãe — confirma que ali está codificada uma relação de poder, exatamente o que a alternativa E descreve.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) a obediência ao imperador leva ao prestígio pessoal.
❌ Incorreta: o texto menciona a fidelidade de Hideo ao imperador só para situar o pano de fundo cultural ("a tradição que trouxera no navio"), sem estabelecer relação de causa e efeito entre essa obediência e algum prestígio pessoal. É inferência que o texto não sustenta.
B) as novas gerações abandonam seus antigos hábitos.
❌ Incorreta: Haruo reclama e deseja mudar o costume no futuro, mas o hábito continua sendo praticado todos os domingos, por exigência de Hideo. Reclamar não é abandonar; além disso, só Haruo protesta — os irmãos mais velhos, favorecidos pela hierarquia, não rejeitam nada, o que impede generalizar para "as novas gerações".
C) a refeição é o que determina a agregação familiar.
❌ Incorreta: Hideo de fato reúne a família aos domingos, mas o texto não trata a comida como elemento que "determina" a união familiar — o foco é a ordem hierárquica de quem senta e quem fica em pé. A alternativa troca o essencial (a hierarquia simbolizada pelos lugares) pelo acessório (haver uma refeição comum).
D) os conflitos de gênero tendem a ser neutralizados.
❌ Incorreta: o texto mostra o oposto — o conflito de gênero segue ativo e sem solução. A mãe está "cansada dos protestos do filho", mas isso não é neutralização: as mulheres continuam de pé, e a frase final ("não era hora de levantar bandeiras inúteis") sugere silenciamento, não superação do conflito.
E) o lugar à mesa metaforiza uma estrutura de poder.
✅ Correta: a disposição dos assentos — cabeceira para o patriarca, direita para o primogênito, esquerda para os mais novos, mulheres de pé sem lugar algum — é uma metáfora espacial da hierarquia da família japonesa tradicional: poder patriarcal, hierarquia de gênero e de primogenitura entre os irmãos. É essa leitura simbólica que o narrador constrói, e a fala de Haruo a confirma.
🏆 Gabarito: E — o texto usa a organização física da mesa (quem senta, onde senta, quem permanece em pé) como metáfora da estrutura hierárquica e patriarcal da família, e é essa leitura simbólica — não um detalhe isolado como o imperador ou a refeição — que a questão cobra.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa E lê corretamente a função do espaço (a mesa) como signo de uma relação social mais ampla — poder e hierarquia —, sem inventar causas (A), generalizar indevidamente (B), trocar o essencial pelo acessório (C) ou inverter o sentido do conflito (D).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa fragmentos de romances brasileiros contemporâneos, muitos sobre imigração e identidade cultural, para testar a leitura de símbolos construídos por descrições aparentemente concretas de espaço, objetos e gestos.
- Generalização: sempre que um texto narrativo detalhar um espaço físico (mesa, casa, rua) associado ao comportamento dos personagens, desconfie de que esse espaço é metáfora de uma relação social — hierarquia, poder, exclusão ou pertencimento.
- Dica de eliminação rápida: descarte a alternativa apoiada em elemento citado apenas de passagem (aqui, o imperador) e a que afirma resolução de um conflito que o texto mostra em aberto (aqui, D) — essas duas armadilhas eliminam metade das opções em segundos.
- Conexões: compare com outras questões ENEM sobre literatura de imigração (japonesa, italiana, alemã) e com textos sobre papéis de gênero na tensão entre tradição e modernidade — temas recorrentes em Linguagens.
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