Mapa de questões · 2º dia
Questão 102 — ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia
Mandinga – Era a denominação que, no período das grandes navegações, os portugueses davam à costa ocidental da África. A palavra se tornou sinônimo de feitiçaria porque os exploradores lusitanos consideravam bruxos os africanos que ali habitavam – é que eles davam indicações sobre a existência de ouro na região. Em idioma nativo, manding designava terra de feiticeiros. A palavra acabou virando sinônimo de feitiço, de sortilégio.
COTRIM, M. O pulo do gato 3. São Paulo: Geração Editorial, 2009 (fragmento).
No texto, evidencia-se que a construção do significado da palavra mandinga resulta de um(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Língua Portuguesa → Semântica e leitura crítica de texto
- ⚡ Nível: Médio — a questão exige distinguir conceitos próximos (histórico-social, geográfico, étnico, religioso e cultural) a partir de indícios implícitos no texto
- 🎯 Tema/Habilidade: Construção de sentido das palavras a partir do contexto de produção e das relações sociais de uma época
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que explica, segundo o texto, a origem do sentido atual da palavra mandinga?"
- Palavras-chave decisivas: grandes navegações, consideravam bruxos, indicações sobre a existência de ouro
- Armadilha típica: confundir o cenário da história (viagens marítimas rumo à África) com a verdadeira causa da ressignificação da palavra, que está no modo como portugueses interpretaram o saber dos africanos naquele momento específico
- O que a resposta precisa demonstrar: que o sentido de uma palavra pode nascer do cruzamento entre um período histórico concreto e as relações sociais de poder e interpretação vividas nesse período — não de um fato isolado, geográfico ou étnico
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Semântica histórica: o significado das palavras não é fixo; ele se transforma conforme os eventos e as práticas sociais que atravessam seu uso ao longo do tempo.
- Contexto sócio-histórico: conjunto de circunstâncias sociais, econômicas e políticas de uma época que molda comportamentos, discursos e, por consequência, a própria língua.
- Etnocentrismo colonial: tendência dos exploradores europeus de julgar os costumes e saberes de outros povos a partir de seus próprios valores, rotulando o desconhecido — nesse caso, o conhecimento geológico dos africanos — como algo negativo ou sobrenatural.
- Ressemantização: processo pelo qual uma palavra (muitas vezes emprestada de outro idioma, como "manding") ganha um novo significado ao ser incorporada a uma nova situação de uso.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "no período das grandes navegações, os portugueses davam [esse nome] à costa ocidental da África" → situa o fenômeno num momento histórico preciso: a expansão marítima portuguesa dos séculos XV e XVI, com seus interesses econômicos e coloniais.
- Evidência 2: "os exploradores lusitanos consideravam bruxos os africanos... porque eles davam indicações sobre a existência de ouro" → revela que o rótulo de "feitiçaria" nasce de uma relação social concreta entre colonizador e colonizado: os portugueses, movidos pelo interesse no ouro e incapazes (ou pouco dispostos) a reconhecer o saber africano como conhecimento legítimo, o interpretam como magia.
- Síntese: o sentido de mandinga não decorre de um único fato isolado — não é apenas "chegar a um novo lugar", nem "haver povos diferentes", nem "copiar uma religião" —, mas da combinação entre um momento histórico específico (as grandes navegações) e as relações sociais de dominação e interpretação que os portugueses estabeleceram com os africanos nesse período. Ou seja, um contexto sócio-histórico.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Reconstruir a narrativa do texto
Organize a sequência de fatos apresentada: (1) portugueses chegam à costa ocidental da África durante as grandes navegações; (2) os habitantes locais indicam a existência de ouro na região; (3) por não compartilharem os mesmos códigos culturais e movidos pelo interesse econômico, os portugueses interpretam esse conhecimento como algo sobrenatural, chamando os africanos de "bruxos"; (4) o termo nativo "manding" (terra de feiticeiros) é incorporado à língua portuguesa e ressignificado como sinônimo de feitiço, sortilégio.
Subpasso 4.2 — Isolar a causa central da ressignificação
Pergunte: o que, exatamente, fez a palavra mudar de sentido? Não foi o simples ato de viajar ou "descobrir" uma costa (isso seria apenas geografia). Não foi a existência de etnias diferentes em si (isso seria apenas diversidade). Não houve incorporação de um culto ou prática religiosa africana pelos portugueses (isso seria apropriação religiosa). E "contraste cultural" é vago demais para capturar o que o texto narra com precisão. A causa real é o encontro entre um momento histórico determinado — o período colonial das navegações — e a relação social de poder e julgamento entre portugueses e africanos, marcada pelo preconceito e pelo interesse econômico.
Subpasso 4.3 — Verificação
Substitua a alternativa candidata na pergunta original: "o significado de mandinga resulta de um contexto sócio-histórico" → a expressão cobre simultaneamente o quando (grandes navegações) e o como (relação de poder e interpretação entre colonizadores e colonizados) narrados no texto. Nenhuma outra alternativa reúne esses dois elementos ao mesmo tempo — todas isolam apenas um fragmento da história contada por Cotrim.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) contexto sócio-histórico.
✅ Correta: reúne exatamente os dois elementos articulados pelo texto — o momento histórico específico (as grandes navegações) e a relação social entre colonizadores e colonizados (a interpretação preconceituosa do saber africano sobre o ouro como feitiçaria).
B) diversidade étnica.
❌ Incorreta: o texto não trata da pluralidade de etnias como fator gerador do sentido da palavra; o que produz o significado é a forma como uma etnia (a europeia) interpretou e rotulou o saber de outra (a africana), e não a simples existência de povos diferentes.
C) descoberta geográfica.
❌ Incorreta: a chegada à costa africana é apenas o pano de fundo da narrativa. O texto deixa claro que o sentido de mandinga vem da reação social e do julgamento dos portugueses diante do conhecimento dos africanos sobre o ouro, e não do simples fato de terem alcançado um novo território.
D) apropriação religiosa.
❌ Incorreta: não há, no texto, indício de que os portugueses tenham incorporado ou copiado práticas religiosas africanas. O que ocorre é justamente o oposto: a recusa e a rotulação negativa desse saber como bruxaria — um julgamento externo, não uma apropriação de culto.
E) contraste cultural.
❌ Incorreta: "contraste cultural" é impreciso e genérico demais; não nomeia o elemento histórico determinante (as grandes navegações) nem a assimetria de poder entre colonizador e colonizado, que são o cerne da explicação apresentada pelo texto de Cotrim.
🏆 Gabarito: A — o texto mostra, passo a passo, que "mandinga" tornou-se sinônimo de feitiçaria por causa de um episódio histórico concreto (as grandes navegações), somado à relação de poder e interpretação entre portugueses e africanos — ou seja, resultado de um contexto sócio-histórico específico.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A combina o "quando" (grandes navegações) e o "como" (relação de dominação e interpretação) exigidos pela leitura do texto; as demais isolam apenas um aspecto periférico — geografia, etnia, religião ou cultura — sem dar conta da causalidade histórico-social que o autor constrói.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos curtos de divulgação ou curiosidade linguística (etimologias, verbetes, crônicas) pedindo que o estudante explique por que uma palavra ganhou determinado sentido, testando leitura inferencial — e não memorização de regras gramaticais.
- Generalização: sempre que a questão pedir a "origem do significado de uma palavra" ou expressão, procure no texto o processo histórico e social narrado (quem, quando, por quê); a alternativa correta costuma nomear esse processo de forma ampla e precisa, nunca apenas um detalhe isolado da história contada.
- Dica de eliminação rápida: descarte primeiro as alternativas que citam um fato pontual e concreto do texto (geografia, religião) — elas são "pedaços" da narrativa, não a explicação completa; prefira sempre a opção que amarra tempo histórico + relação social.
- Conexões: o mesmo raciocínio se aplica a questões sobre empréstimos linguísticos, neologismos e variação linguística associada a fatores sociais, como classe, região ou época de uso.
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