Mapa de questões · 2º dia
Questão 134 — ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia
A obra de Túlio Piva poderia ser objeto de estudo nos bancos escolares, ao lado de Noel, Ataulfo e Lupicínio. Se o criador optou por permanecer em sua querência – Santiago, e depois Porto Alegre, a obra alçou voos mais altos, com passagens na Rússia, Estados Unidos e Venezuela. Tem que ter mulata, seu samba maior, é coisa de craque. Um retrato feito de ritmo e poesia, uma ode ao gênero que amou desde sempre. E o paradoxo: misto de gaúcho e italiano, nascido na fronteira com a Argentina, falando de samba, morro e mulata, com categoria. E que categoria! Uma batida de violão que fez história. O tango transmudado em samba.
RAMIREZ, H.; PIVA, R. (Org.). Túlio Piva: pra ser samba brasileiro.
Porto Alegre: Programa Petrobras Cultural, 2005 (adaptado).
O texto é um trecho da crítica musical sobre a obra de Túlio Piva. Para enfatizar a qualidade do artista, usou-se como recurso argumentativo o(a)
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da questão
- Matéria: Português → leitura de crítica musical → recursos argumentativos
- Habilidade: H23 — inferir, pela análise dos procedimentos argumentativos, qual é o objetivo do produtor do texto
- Nível: Médio — o texto entrega o recurso com a palavra "paradoxo", mas três alternativas oferecem leituras próximas e exigem conferência no trecho
- Gabarito: revelado no Passo 4
🔎 Passo 1 — Leitura estratégica do comando
- O comando, em uma linha: qual recurso o crítico usa para elogiar Túlio Piva.
- Palavras-chave decisivas: para enfatizar a qualidade do artista, recurso argumentativo.
- A armadilha: responder pelo tema do texto em vez de responder pelo recurso. O texto fala de samba, de gaúcho, de Argentina, de tango — e várias alternativas repetem esses assuntos. Mas a pergunta não é sobre o que o texto fala; é sobre como ele constrói o elogio.
- O que a resposta precisa mostrar: que você distingue o conteúdo mencionado do procedimento usado para valorizar o artista.
📚 Passo 2 — Revisão do conteúdo
- Recurso argumentativo: procedimento que o autor emprega para sustentar sua avaliação. Contraste, comparação, exemplificação, alusão, citação de autoridade e dado estatístico são recursos diferentes, e o ENEM cobra a distinção entre eles.
- Contraste: aproximação de dois elementos opostos para que a diferença entre eles produza sentido. No elogio, o contraste serve para medir mérito: quanto mais improvável a origem, maior o feito.
- Comparação: coloca dois elementos lado a lado em uma mesma escala, para dizer que um é maior, menor ou semelhante ao outro. Não é sinônimo de contraste — comparar exige um segundo termo do mesmo tipo, e o texto precisa dizer quem é melhor ou parecido com quem.
- Alusão: menção indireta e breve a algo que o leitor deve reconhecer. Citar Noel, Ataulfo e Lupicínio é alusão; mas ela aparece para situar Piva entre grandes nomes, não para explicar a qualidade dele.
- Paradoxo: afirmação que reúne elementos aparentemente incompatíveis. O texto usa a própria palavra, e é a sinalização mais explícita que uma crítica pode dar do recurso que está empregando.
- Querência: no vocabulário gaúcho, o lugar de origem, a terra a que se pertence. O termo reforça o enraizamento regional de Piva, que é justamente o polo que contrasta com o samba.
🧭 Passo 3 — Decodificação do enunciado
- Evidência 1: "E o paradoxo: misto de gaúcho e italiano, nascido na fronteira com a Argentina, falando de samba, morro e mulata, com categoria" → o crítico anuncia o recurso e o executa na mesma linha. De um lado a origem (Sul, fronteira, ascendência italiana); de outro a escolha estética (samba, morro, mulata, universo carioca).
- Evidência 2: "Se o criador optou por permanecer em sua querência – Santiago, e depois Porto Alegre, a obra alçou voos mais altos, com passagens na Rússia, Estados Unidos e Venezuela" → mesma estrutura de oposição, agora entre ficar e alcançar longe. O contraste é o padrão de construção do texto inteiro, não um detalhe.
- Evidência 3: "O tango transmudado em samba" → o fecho condensa a oposição em quatro palavras: o ritmo da região de origem convertido no gênero adotado.
- Evidência 4: "Tem que ter mulata, seu samba maior, é coisa de craque. (…) E que categoria!" → é aqui que está o elogio explícito, e ele vem sempre colado ao elemento improvável. O contraste não é decorativo: é o que dá tamanho ao mérito.
- Síntese: o texto elogia dizendo, três vezes e de três formas, que Piva fez samba de primeira vindo de onde não se esperaria samba nenhum.
🧠 Passo 4 — Resolução passo a passo
4.1 — Separar os dois polos que o texto opõe
Polo da origem: gaúcho, italiano, Santiago, Porto Alegre, fronteira com a Argentina, tango, querência.
Polo da obra: samba, morro, mulata, Noel, Ataulfo, Lupicínio, batida de violão.
Nenhum elemento do primeiro grupo prepara o segundo. É essa distância que o crítico explora.
4.2 — Verificar se o texto compara ou contrasta
Comparar exigiria dizer que Piva é melhor, pior ou parecido com alguém. O texto não faz isso. Quando cita Noel, Ataulfo e Lupicínio, diz que a obra de Piva "poderia ser objeto de estudo nos bancos escolares, ao lado" deles — coloca junto, não mede um contra o outro. Já a oposição origem/obra aparece marcada, nomeada como "paradoxo" e repetida ao longo do texto. É contraste.
4.3 — Confirmar a função do recurso
O comando pergunta o recurso usado "para enfatizar a qualidade do artista". Teste: retire o contraste e o elogio encolhe. "Fez samba com categoria" é elogio comum. "Fez samba com categoria vindo da fronteira com a Argentina, sendo gaúcho e de família italiana" é elogio grande. O contraste é o que produz a ênfase pedida no comando.
4.4 — Verificação
A alternativa correta precisa nomear os dois polos corretos — origem geográfica e gênero escolhido — e apresentá-los como oposição. Uma só faz isso. Gabarito: A.
✅❌ Passo 5 — Análise das alternativas
✅ (A) contraste entre o local de nascimento e a escolha pelo gênero samba — Nomeia exatamente os dois polos que o texto opõe, e o próprio crítico assina o recurso ao escrever "E o paradoxo: misto de gaúcho e italiano, nascido na fronteira com a Argentina, falando de samba, morro e mulata, com categoria". A ênfase no mérito nasce dessa distância: quanto mais improvável a origem, maior o feito de fazer samba "de craque".
❌ (B) exemplo de temáticas gaúchas abordadas nas letras de sambas — Inverte o que o texto diz. As temáticas citadas nas letras de Piva são cariocas, não gaúchas: "samba, morro e mulata". O gaúcho está na biografia do compositor, não no assunto das canções. A alternativa mistura os dois polos que o texto mantém separados justamente para poder opô-los.
❌ (C) alusão a gêneros musicais brasileiros e argentinos — Identifica um elemento presente (tango e samba aparecem) mas erra a função. A menção ao tango não existe para apresentar gêneros ao leitor; existe para marcar mais uma vez a conversão de um polo no outro — "O tango transmudado em samba". Reconhecer o ingrediente não é o mesmo que reconhecer o recurso.
❌ (D) comparação entre sambistas de diferentes regiões — Não há comparação, e o texto é explícito nisso: Noel, Ataulfo e Lupicínio aparecem para que Piva seja estudado "ao lado" deles, em pé de igualdade. Comparar exigiria hierarquia ou medida entre os nomes, e nenhuma das duas está no trecho. Além disso, a origem regional dos outros sambistas nunca é mencionada.
❌ (E) aproximação entre a cultura brasileira e a argentina — Extrapola a partir de duas menções isoladas, a fronteira e o tango. O texto não sugere integração cultural entre os dois países; usa a Argentina como marcador de distância em relação ao universo do samba. Onde a alternativa lê aproximação, o texto constrói afastamento.
Gabarito: A — o crítico enfatiza a qualidade de Túlio Piva opondo sua origem gaúcha e fronteiriça à escolha pelo samba, oposição que ele mesmo chama de paradoxo.
🏁 Passo 6 — Generalização e dica de prova
- Por que só A se sustenta: B inverte os polos, C e E confundem menção com recurso, D atribui ao texto uma comparação que ele não faz. A é a única que descreve o procedimento e não o assunto.
- Como o ENEM cobra isso: questões de "recurso argumentativo" trazem alternativas todas verdadeiras no nível do conteúdo. Todas as cinco aqui mencionam algo que existe no texto. O que a prova mede é se você separa o que foi dito de como foi dito.
- A regra geral: quando o próprio texto nomeia o recurso — paradoxo, ironia, contraste, comparação —, essa palavra é o atalho mais confiável da questão. Procure-a antes de qualquer outra coisa.
- Eliminação em 30 segundos: localize "E o paradoxo". Paradoxo é oposição; só uma alternativa começa com uma palavra de oposição, e é "contraste". Confirme se os dois polos batem e siga adiante.
- Temas que costumam vir junto: contraste e comparação em crítica de arte, funções da linguagem, variedade linguística regional e a diferença entre alusão, citação e exemplificação.
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