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Mapa de questões · 2º dia
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Questão 112ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia

Galinha cega

O dono correu atrás de sua branquinha, agarrou-a, lhe examinou os olhos. Estavam direitinhos, graças a Deus, e muito pretos. Soltou-a no terreiro e lhe atirou mais milho. A galinha continuou a bicar o chão desorientada. Atirou ainda mais, com paciência, até que ela se fartasse. Mas não conseguiu com o gasto de milho, de que as outras se aproveitaram, atinar com a origem daquela desorientação. Que é que seria aquilo, meu Deus do céu? Se fosse efeito de uma pedrada na cabeça e se soubesse quem havia mandado a pedra, algum moleque da vizinhança, aí… Nem por sombra imaginou que era a cegueira irremediável que principiava.
Também a galinha, coitada, não compreendia nada, absolutamente nada daquilo. Por que não vinham mais os dias luminosos em que procurava a sombra das pitangueiras? Sentia ainda o calor do sol, mas tudo quase sempre tão escuro. Quase que já não sabia onde é que estava a luz, onde é que estava a sombra.

GUIMARAENS, J. A. Contos e novelas. Rio de Janeiro: Imago, 1976 (fragmento).

Ao apresentar uma cena em que um menino atira milho às galinhas e observa com atenção uma delas, o narrador explora um recurso que conduz a uma expressividade fundamentada na

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → foco narrativo, ponto de vista e discurso indireto livre
  • ⚡ Nível: Médio — exige perceber uma técnica narrativa sutil (alternância de consciências) sem que o texto a nomeie explicitamente
  • 🎯 Tema/Habilidade: Recursos expressivos do texto literário (H4/H8 da Matriz de Linguagens — reconhecer o efeito de sentido decorrente de escolhas do narrador)
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que recurso narrativo dá expressividade à cena em que o dono observa atentamente a galinha cega?"
  • Palavras-chave decisivas: observa com atenção, recurso, expressividade fundamentada
  • Armadilha típica: confundir "recurso de expressividade" com elementos de cenário (sítio, quintal, milharal) em vez de identificar a técnica narrativa que estrutura o texto — isso faz o candidato marcar A ou B, que descrevem apenas o pano de fundo rural.
  • O que a resposta precisa demonstrar: a alternativa correta precisa nomear o mecanismo narrativo (não o tema, não o cenário) responsável pelo efeito emocional do fragmento.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Foco narrativo: ângulo de onde a história é contada; aqui o narrador é onisciente em 3ª pessoa, mas "empresta" temporariamente sua voz à consciência das personagens.
  • Discurso indireto livre: técnica em que pensamentos e sensações da personagem invadem a fala do narrador sem verbos introdutórios ("disse", "pensou") nem aspas — perguntas e exclamações da personagem aparecem como se fossem do próprio narrador.
  • Personificação/subjetivação do animal: atribuir à galinha percepções e sentimentos humanos (medo, saudade, desnorteio), o que aproxima o leitor da experiência dela.
  • Efeito de sentido (expressividade): o resultado emocional que uma escolha de linguagem produz no leitor — neste caso, empatia simultânea pelo dono aflito e pela galinha confusa.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "O dono correu atrás de sua branquinha, agarrou-a, lhe examinou os olhos. [...] Que é que seria aquilo, meu Deus do céu?" → a exclamação final não tem verbo de elocução nem aspas: é o pensamento angustiado do dono infiltrado na voz do narrador — primeiro foco de consciência apresentado.
  • Evidência 2: "Também a galinha, coitada, não compreendia nada [...] Por que não vinham mais os dias luminosos em que procurava a sombra das pitangueiras? [...] Sentia ainda o calor do sol, mas tudo quase sempre tão escuro." → o narrador passa a habitar a consciência do animal, atribuindo-lhe interrogação, saudade e desorientação — segundo foco de consciência, agora não humano.
  • Síntese: o texto é construído em dois blocos que replicam a mesma cena (a observação da galinha) sob duas óticas distintas — a do dono e a da própria ave —, cada uma carregada de emoção. Essa alternância de "quem sente e vê" é exatamente o recurso que gera a expressividade do fragmento.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear a estrutura dos dois parágrafos

O primeiro parágrafo é centrado no dono: ele corre, agarra a galinha, examina seus olhos, solta-a, atira milho, observa com paciência e, sem entender a causa, questiona-se ("Que é que seria aquilo, meu Deus do céu?"). O segundo parágrafo muda de foco sem qualquer marcador formal de transição de discurso ("Também a galinha, coitada..."): agora é a ave que "não compreendia nada", que se pergunta "por que não vinham mais os dias luminosos" e que "sentia ainda o calor do sol". Repare que nenhuma dessas falas vem entre aspas nem é anunciada por "ela pensou" — são pensamentos incorporados diretamente à narração em 3ª pessoa, técnica conhecida como discurso indireto livre.

Subpasso 4.2 — Explicar o efeito de sentido dessa alternância

Ao construir a cena assim, o narrador não se limita a descrever de fora o episódio de um menino atirando milho a uma galinha; ele se desloca de um centro de consciência (o dono, humano, racional, tentando explicar o fenômeno) para outro (a galinha, animal, sensorial, apenas sentindo a perda progressiva da luz). Essa dupla incursão é feita com forte carga afetiva: a angústia impotente do dono ("meu Deus do céu") e o desnorteio triste do bicho ("coitada", "tudo quase sempre tão escuro") tocam o leitor emocionalmente, humanizando a galinha e aprofundando o drama banal do cotidiano rural. É essa apropriação alternada de pontos de vista — do humano e do animal —, incorporada com afeto, que sustenta a expressividade da passagem.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando a síntese com as cinco alternativas, apenas uma nomeia precisamente esse mecanismo: a que fala em "apropriação de diferentes pontos de vista, incorporados afetivamente". As demais descrevem cenário (sítio, quintal), tempo ou conflito — elementos presentes no texto, mas que não respondem à pergunta sobre o recurso que gera a expressividade da cena de observação. Isso confirma a alternativa D.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) captura de elementos da vida rural, de feições peculiares.

❌ Incorreta: o texto até contém elementos rurais (terreiro, milho, pitangueiras), mas eles funcionam apenas como cenário de fundo, não como o recurso responsável pela expressividade da cena descrita no comando. A questão pergunta pela técnica narrativa, não pelo ambiente retratado.

B) caracterização de um quintal de sítio, espaço de descobertas.

❌ Incorreta: também foca no espaço físico, e ainda erra ao chamar o cenário de "espaço de descobertas" — o fragmento trata de uma perda (a cegueira), não de uma descoberta. Confunde ambientação com procedimento narrativo.

C) confusão intencional da marcação do tempo, centrado na infância.

❌ Incorreta: não há indícios de embaralhamento proposital de tempo no fragmento (a sequência dono→galinha é cronologicamente clara) nem a infância é o eixo central da cena; o "moleque" aparece apenas como hipótese descartada pelo dono para a causa da cegueira, um detalhe secundário.

D) apropriação de diferentes pontos de vista, incorporados afetivamente.

✅ Correta: o narrador assume, em sequência, a perspectiva do dono e a da galinha, incorporando os sentimentos de cada um (a angústia de um, o desnorteio triste do outro) por meio do discurso indireto livre — exatamente o mecanismo identificado nos Passos 3 e 4.

E) fragmentação do conflito gerador, distendido como apoio à emotividade.

❌ Incorreta: o "conflito gerador" (a cegueira da galinha) não é fragmentado nem estilhaçado ao longo do texto — ele é apresentado de forma contínua, primeiro pela ótica do dono, depois pela da ave. A alternativa tenta soar sofisticada, mas descreve um procedimento (fragmentação) que não ocorre no fragmento.

🏆 Gabarito: D — o narrador constrói a expressividade da cena alternando as perspectivas do dono e da galinha, cada uma carregada de emoção própria, técnica de discurso indireto livre que aproxima o leitor de ambas as consciências.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa D nomeia o procedimento textual (mudança de foco narrativo com carga afetiva) e não apenas o conteúdo temático da cena.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra, em textos literários, o reconhecimento de recursos como discurso indireto livre, fluxo de consciência, foco narrativo e personificação — sempre pedindo o "efeito de sentido" gerado, não a mera identificação do tema.
  • Generalização: diante de perguntas sobre "recurso" ou "expressividade" em prosa literária, procure sempre por mudanças na voz que narra — quem fala, sente ou vê em cada trecho — antes de olhar para cenário, tempo ou enredo.
  • Dica de eliminação rápida: elimine de cara alternativas que descrevem apenas lugar/ambientação (aqui, A e B) — elas respondem "onde", não "como" o texto produz efeito; depois descarte as que inventam um procedimento não observável no trecho (aqui, C e E).
  • Conexões: compare com questões sobre fluxo de consciência (Clarice Lispector, Guimarães Rosa) e com textos que personificam animais ou objetos para gerar empatia — ambos exploram a mesma lógica de "emprestar" consciência a quem normalmente não fala.

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