Mapa de questões · 2º dia
Questão 124 — ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia
De domingo
– Outrossim…
– O quê?
– O que o quê?
– O que você disse.
– Outrossim?
– É.
– O que é que tem?
– Nada. Só achei engraçado.
– Não vejo a graça.
– Você vai concordar que não é uma palavra de todos os dias.
– Ah, não é. Aliás, eu só uso domingo.
– Se bem que parece mais uma palavra de segunda-feira.
– Não. Palavra de segunda-feira é “óbice”.
– “Ônus”.
– “Ônus” também. “Desiderato”. “Resquício”.
– “Resquício” é de domingo.
– Não, não. Segunda. No máximo terça.
– Mas “outrossim”, francamente…
– Qual o problema?
– Retira o “outrossim”.
– Não retiro. É uma ótima palavra.
Aliás é uma palavra difícil de usar.
Não é qualquer um
que usa “outrossim”.
No texto, há uma discussão sobre o uso de algumas palavras da língua portuguesa. Esse uso promove o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Língua Portuguesa → Registro linguístico, variação linguística e efeitos de sentido (humor)
- ⚡ Nível: Médio — exige perceber o efeito de sentido gerado pelo contraste de registros, e não apenas notar palavras "difíceis"
- 🎯 Tema/Habilidade: Efeitos de humor construídos pela linguagem; reconhecimento da função da variação/registro linguístico em textos do cotidiano
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que efeito de sentido o uso daquelas palavras específicas produz no diálogo?"
- Palavras-chave decisivas: discussão sobre o uso de palavras, promove, algumas palavras da língua portuguesa
- Armadilha típica: prender-se às repetidas menções a "domingo", "segunda-feira" e "terça" e concluir, apressadamente, que o texto está fazendo marcação temporal (alternativa A) — quando essas referências são, na verdade, parte da própria piada sobre o grau de formalidade de cada palavra.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o efeito central do texto nasce do contraste entre o registro coloquial da conversa cotidiana e o registro culto/formal das palavras debatidas.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Registro linguístico: nível de formalidade da fala, adaptado à situação de comunicação (informal/coloquial × formal/culto/jurídico-burocrático).
- Adequação linguística: consiste em escolher o registro compatível com o contexto; quando há descompasso proposital entre registro e situação, gera-se estranhamento ou comicidade.
- Humor por contraste de registro: recurso estilístico em que se emprega vocabulário extremamente formal (muitas vezes jurídico ou cartorial) numa situação corriqueira, criando incongruência cômica.
- Crônica dialogada: gênero textual leve, quase sempre em tom de conversa cotidiana, que explora pequenas situações do dia a dia com viés bem-humorado — como é o caso deste texto.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Você vai concordar que não é uma palavra de todos os dias." → o próprio interlocutor reconhece que "outrossim" foge do vocabulário cotidiano — é marcada como formal e rara.
- Evidência 2: "'Óbice'... 'Ônus'... 'Desiderato'. 'Resquício'." → lista crescente de termos rebuscados, típicos de textos jurídicos ou burocráticos, usada de forma lúdica dentro de um bate-papo informal.
- Evidência 3: "Não é qualquer um que usa 'outrossim'." → fecha o texto reforçando, com orgulho irônico, o gosto por driblar o registro esperado — o efeito buscado é a graça, não o conflito ou o afastamento.
- Síntese: o diálogo é conduzido inteiramente em tom informal (perguntas curtas, cortes secos: "– O quê?", "– É.", "– Não vejo a graça."), mas o assunto tratado é o emprego de palavras extremamente formais. Esse choque entre a moldura (conversa descontraída de domingo) e o conteúdo (vocabulário cartorial) é o motor cômico do texto.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o gênero e o tom geral
O texto é uma crônica construída quase inteiramente em diálogo, com falas curtas e cotidianas ("– O quê?", "– É.", "– Não vejo a graça."). Esse formato constrói um cenário de informalidade e leveza, típico de conversas de fim de semana entre pessoas próximas.
Subpasso 4.2 — Isolar o "objeto" da discussão
Dentro dessa moldura informal, o que os interlocutores discutem são palavras como "outrossim", "óbice", "ônus", "desiderato" e "resquício". Todas pertencem a um registro formal, muitas vezes associado à linguagem jurídica, cartorial ou de documentos oficiais — bem distante do vocabulário usado em conversas do dia a dia.
Subpasso 4.3 — Perceber o efeito gerado pelo contraste
O interlocutor já reage com estranhamento ao ouvir "outrossim" num domingo qualquer, reforçando que a palavra "não é de todos os dias". A brincadeira de atribuir cada palavra a um dia da semana (dizendo que "resquício" é palavra de segunda ou, no máximo, terça — nunca de domingo) não organiza uma cronologia real dos fatos: é uma metáfora lúdica para classificar o grau de formalidade e raridade de cada termo. O riso nasce exatamente desse descompasso proposital entre a situação (bate-papo descontraído) e o vocabulário empregado (extremamente formal).
Subpasso 4.4 — Verificação
Reunindo as evidências: (1) diálogo em registro coloquial; (2) discussão gira em torno de palavras de registro formal/jurídico; (3) o próprio texto marca essas palavras como incomuns ("não é uma palavra de todos os dias", "não é qualquer um que usa"). A conclusão só pode ser uma: o efeito produzido é o humor, gerado pelo emprego de palavras formais em um contexto — e um gênero — essencialmente informal. É exatamente o que descreve a alternativa B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) marcação temporal, evidenciada pela presença de palavras indicativas dos dias da semana.
❌ Incorreta: os dias da semana ("domingo", "segunda-feira", "terça") não organizam uma linha do tempo real na narrativa; funcionam como recurso figurado para classificar, de forma brincalhona, o "grau de formalidade" de cada palavra. É uma armadilha de leitura superficial — confundir a presença de palavras que remetem a tempo com a função que elas de fato exercem no texto.
B) tom humorístico, ocasionado pela ocorrência de palavras empregadas em contextos formais.
✅ Correta: o riso nasce do contraste entre a conversa cotidiana e informal e o vocabulário rebuscado, quase jurídico ("outrossim", "óbice", "ônus", "desiderato", "resquício"), que soa deslocado — e por isso engraçado — numa conversa de domingo entre pessoas próximas.
C) caracterização da identidade linguística dos interlocutores, percebida pela recorrência de palavras regionais.
❌ Incorreta: as palavras discutidas não são regionalismos, mas termos do registro culto/formal da língua padrão, usados em contextos jurídicos e burocráticos em qualquer região do país. Não há marca de variação regional no texto.
D) distanciamento entre os interlocutores, provocado pelo emprego de palavras com significados pouco conhecidos.
❌ Incorreta: o texto não sugere ruptura, briga ou afastamento entre os falantes; ao contrário, a discussão é bem-humorada e termina com uma defesa orgulhosa do uso da palavra ("Não retiro. É uma ótima palavra"). Também não há indício de que os significados sejam desconhecidos: os dois sabem exatamente o que cada termo quer dizer e discutem apenas seu grau de formalidade.
E) inadequação vocabular, demonstrada pela seleção de palavras desconhecidas por parte de um dos interlocutores do diálogo.
❌ Incorreta: não há desconhecimento de vocabulário no diálogo; ambos os interlocutores conhecem e empregam as palavras corretamente. O que se discute é a pertinência de usá-las numa conversa informal, e não um erro de vocabulário ou uma palavra desconhecida por alguém.
🏆 Gabarito: B — o humor do texto resulta precisamente do descompasso entre o registro coloquial do diálogo e o vocabulário formal/jurídico das palavras debatidas, um recurso clássico de comicidade por contraste de registro.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa B nomeia corretamente o efeito de sentido (humor) e sua causa real (palavras de registro formal em contexto informal); as demais descrevem uma função inexistente no texto (A e C), invertem o clima afetuoso do diálogo (D) ou confundem "usar palavra formal por graça" com "não saber usar a palavra" (E).
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente textos humorísticos (crônicas, tirinhas, anúncios, memes) cujo efeito cômico depende do contraste entre registros linguísticos — formal × informal, culto × coloquial, técnico × cotidiano.
- Generalização: sempre que um texto colocar vocabulário "de dicionário jurídico ou acadêmico" na boca de personagens em situação banal (ou, inversamente, gíria em situação solene), o efeito pretendido quase sempre é humorístico, por quebra da expectativa de registro.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que atribuem função "temática" literal a palavras citadas (aqui, "dias da semana" = marcação de tempo) sem checar se essa é de fato a função delas no texto; descarte também qualquer opção que sugira conflito ou afastamento quando o tom do diálogo é claramente afetuoso e brincalhão.
- Conexões: o mesmo raciocínio se aplica a questões sobre variação linguística, gírias, jargões técnicos e efeitos de ironia — sempre pergunte "que contraste de registro está em jogo e que efeito ele produz no leitor?"
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