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Mapa de questões · 2º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 116ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia

Primeira lição

Os gêneros de poesia são: lírico, satírico, didático, épico, ligeiro.

O gênero lírico compreende o lirismo.

Lirismo é a tradução de um sentimento subjetivo, sincero e pessoal.

É a linguagem do coração, do amor.

O lirismo é assim denominado porque em outros tempos os versos sentimentais eram declamados ao som da lira.

O lirismo pode ser:

a) Elegíaco, quando trata de assuntos tristes, quase sempre a morte.

b) Bucólico, quando versa sobre assuntos campestres.

c) Erótico, quando versa sobre o amor.

O lirismo elegíaco compreende a elegia, a nênia, a endecha, o epitáfio e o epicédio.

Elegia é uma poesia que trata de assuntos tristes. Nênia é uma poesia em homenagem a uma pessoa morta. Era declamada junto à fogueira onde o cadáver era incinerado.

Endecha é uma poesia que revela as dores do coração.

Epitáfio é um pequeno verso gravado em pedras tumulares. Epicédio é uma poesia onde o poeta relata a vida de uma pessoa morta.

CESAR, A. C. Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

No poema de Ana Cristina Cesar, a relação entre as definições apresentadas e o processo de construção do texto indica que o(a)

Alternativas

Resolução

📋 Ficha da questão

  • Matéria: Literatura → Poesia contemporânea brasileira → metalinguagem
  • Habilidade: H16 — relacionar informações sobre concepções artísticas e procedimentos de construção do texto literário
  • Nível: Difícil — o poema parece uma página de manual, e o item pede que você explique por que essa aparência é, ela mesma, o gesto poético
  • Gabarito: revelado no Passo 4

🔎 Passo 1 — Leitura estratégica do comando

  • O comando, em uma linha: o que a escolha de construir o poema com definições de manual revela sobre a concepção de poesia do texto.
  • Palavras-chave decisivas: a relação entre as definições apresentadas e o processo de construção do texto. O comando amarra duas coisas — o conteúdo (definições) e a forma (como o texto foi montado) — e pede a leitura do encontro entre elas.
  • A armadilha: julgar o poema por uma intenção que o texto não sinaliza. Ironia, pessimismo e adesão à tradição são atribuições possíveis a um poema metalinguístico em geral, mas nenhuma delas tem marca no texto de Ana Cristina Cesar. Quem responde pelo repertório de "poema sobre poesia" cai num desses três.
  • O que a resposta precisa mostrar: que você percebe que a contenção do tom não é ausência de poesia — é a forma que a poesia assumiu ali.

📚 Passo 2 — Revisão do conteúdo

  • Metalinguagem: uso da linguagem para falar da própria linguagem. Um poema que define o que é poesia é metalinguístico. Aqui a metalinguagem é radical: o poema não comenta a poesia, ele reproduz o discurso escolar que a classifica.
  • Lirismo: o próprio texto define — "tradução de um sentimento subjetivo, sincero e pessoal", "a linguagem do coração". Guarde essa definição: ela é o parâmetro contra o qual o poema será medido. O texto descreve a emoção sem exibi-la.
  • Ana Cristina Cesar e a poesia marginal: poeta ligada à geração de 1970, marcada pelo tom coloquial, pelo aproveitamento de materiais não literários — bilhete, diário, carta, anotação de aula — e pelo apagamento das fronteiras entre o que é e o que não é poema. "Primeira lição" incorpora uma apostila de teoria literária.
  • Apropriação e deslocamento: procedimento em que o poeta recolhe um texto pronto, de circulação não literária, e o transporta para o espaço do poema. O material não muda; muda o lugar de leitura. É o mecanismo central deste texto e o que o separa de uma simples aula.
  • Tom contido: ausência deliberada de exclamação, metáfora, imagem sensorial e primeira pessoa. Num poema, essa ausência não é falta: é escolha, e produz sentido por contraste com o que se espera de um texto lírico.

🧭 Passo 3 — Decodificação do enunciado

  • Evidência 1: o título, "Primeira lição" → vocabulário de sala de aula. O texto se anuncia como aula, e é sob esse rótulo que o leitor entra nele. A palavra "lição" já instala o gênero didático dentro do gênero poema.
  • Evidência 2: "Os gêneros de poesia são: lírico, satírico, didático, épico, ligeiro." → abertura por classificação, sem sujeito lírico, sem verso livre, sem imagem. É a primeira linha de uma apostila.
  • Evidência 3: "Lirismo é a tradução de um sentimento subjetivo, sincero e pessoal. É a linguagem do coração, do amor." → o texto define a emoção em terceira pessoa, no presente atemporal das definições. Fala do coração sem nunca falar pelo coração.
  • Evidência 4: "a) Elegíaco... b) Bucólico... c) Erótico..." → alíneas com letras, estrutura de item de apostila. A forma gráfica do texto é a do manual escolar, não a do poema.
  • Evidência 5: "Nênia é uma poesia em homenagem a uma pessoa morta. Era declamada junto à fogueira onde o cadáver era incinerado." → o assunto é a morte, o luto, a dor — e o registro permanece o do verbete. Epitáfio, epicédio, endecha: os temas mais intensos do lirismo, tratados com a frieza de uma definição.
  • Síntese: entre o assunto (sentimento, amor, morte) e o modo de dizer (definição, classificação, alínea) há um desencontro sistemático. Esse desencontro é o texto. Não há sinal de deboche, nem de lamento, nem de reverência — há contenção.

🧠 Passo 4 — Resolução passo a passo

4.1 — Reconhecer o material de que o poema é feito

Retirado do livro, o texto seria indistinguível de uma página de manual de teoria literária: enunciado classificatório, definições encadeadas, alíneas, exemplos. Nenhuma linha isolada é "poética" no sentido corrente. O primeiro passo é aceitar isso em vez de procurar figuras de linguagem que não estão lá.

4.2 — Perguntar o que muda quando esse material vira poema

Um manual quer ensinar. Um poema intitulado "Primeira lição", assinado por uma poeta e publicado em livro de poesia, faz outra coisa: coloca o discurso sobre a poesia dentro da poesia. O leitor lê as definições e, ao mesmo tempo, lê o gesto de apresentá-las como poema.

O resultado é que o texto realiza o que descreve por um caminho invertido. Ele fala do lirismo — "linguagem do coração" — sem exercer nenhuma das marcas do lirismo. E é essa recusa, mantida do começo ao fim, que o torna expressivo.

4.3 — Descartar as intenções não marcadas no texto

Vale checar, uma a uma, se o texto autoriza os adjetivos das alternativas:

  • irônico exigiria exagero, contradição interna ou quebra de registro. Não há: as definições estão corretas e são apresentadas sem desvio.
  • pessimista exigiria juízo negativo sobre a criação artística. Não há juízo nenhum; há descrição.
  • adesão à tradição exigiria que o texto se filiasse ao modelo clássico. Ele cita o modelo, mas o converte em matéria de poema, o que é o oposto de aderir a ele.
  • impessoalidade de fato existe no tom, mas descrevê-la como o efeito produzido para de meio caminho: a impessoalidade é o instrumento, não o resultado.

4.4 — Verificação

Sobra a leitura que junta as duas pontas do comando: as definições (conteúdo) e o modo contido de apresentá-las (construção) formam, juntas, um jeito próprio de fazer poesia. Gabarito: B.

✅❌ Passo 5 — Análise das alternativas

(A) caráter descritivo dos versos assinala uma concepção irônica de lirismo — Acerta o diagnóstico do tom e erra a intenção. O texto é de fato descritivo, mas ironia pressupõe dizer uma coisa para significar outra, e o poema não dá nenhum sinal disso: as definições de elegia, nênia, endecha, epitáfio e epicédio estão tecnicamente corretas e são apresentadas sem exagero, sem contradição e sem quebra de registro. Atribuir ironia é acrescentar ao texto uma intenção que ele não marca.

(B) tom explicativo e contido constitui uma forma peculiar de expressão poética — É a única alternativa que faz o que o comando pede: relaciona o material (as definições) ao procedimento (a contenção) e conclui pelo efeito poético. O poema fala do lirismo — "tradução de um sentimento subjetivo, sincero e pessoal" — sem praticar nenhuma das marcas do lirismo, e é justamente esse contraste sustentado que constitui a expressão. A palavra peculiar é decisiva: não se afirma que o texto é lírico no sentido tradicional, e sim que ele encontrou uma forma própria de ser poesia.

(C) seleção e o recorte do tema revelam uma visão pessimista da criação artística — Extrapola a partir do assunto. É verdade que o texto se detém no lirismo elegíaco e enumera morte, luto e túmulo. Mas isso é o conteúdo classificado, não uma avaliação da arte. Em nenhuma linha o poema julga a criação artística como decadente, insuficiente ou impossível. Confundir o tema tratado com a posição do texto sobre a poesia é o erro clássico de leitura de item metalinguístico.

(D) enumeração de distintas manifestações líricas produz um efeito de impessoalidade — O distrator mais forte, porque a primeira metade é verdadeira: a enumeração existe e o tom é mesmo impessoal. O problema é o ponto de chegada. A impessoalidade é o recurso empregado, não o efeito perseguido. Se o efeito fosse apenas apagar a pessoa, o texto seria só uma apostila — e não haveria por que publicá-lo como poema. A alternativa descreve corretamente o meio e para antes do resultado que o comando pede.

(E) referência a gêneros poéticos clássicos expressa a adesão do eu lírico às tradições literárias — Inverte a relação. O poema não se filia à tradição clássica: ele a desloca, tomando o discurso escolar que organiza essa tradição e transformando-o em matéria de poema. Reproduzir um repertório para fazer dele outra coisa é o contrário de aderir a ele. Some-se que não há eu lírico manifesto no texto — não aparece uma única marca de primeira pessoa —, de modo que a alternativa atribui adesão a uma instância que o poema justamente suprimiu.

Gabarito: B — o poema é feito de definições de manual e mantém o tom explicativo do começo ao fim; é a contenção sustentada diante de temas como o amor e a morte que se converte, no espaço do livro de poesia, numa forma própria de expressão.

🏁 Passo 6 — Generalização e dica de prova

  • Por que só B se sustenta: A, C e E atribuem ao poema intenções — ironia, pessimismo, reverência — sem apoio em nenhuma marca textual. D descreve o procedimento e não chega ao efeito. B é a única que liga forma e resultado, como o comando exige.
  • Como o ENEM cobra isso: a prova gosta de textos que não parecem poemas — receita, verbete, aula, bula, e-mail — e pergunta o que a escolha desse formato produz. A resposta correta quase sempre nomeia o formato e o efeito poético dele, sem qualificar a intenção do autor.
  • A regra geral: em item de metalinguagem, adjetivos de intenção — irônico, pessimista, nostálgico, engajado — só valem se houver marca no texto. Sem exagero, contradição ou juízo explícito, não há ironia nem pessimismo. Na dúvida, prefira a alternativa que descreve o que o texto faz à que descreve o que o poeta sente.
  • Eliminação em 30 segundos: procure no poema uma exclamação, uma metáfora, um "eu". Não há nenhum. Isso derruba E, que fala em adesão do eu lírico, e enfraquece A e C, que dependem de uma atitude expressa. Sobram B e D, decididas por uma pergunta só: a impessoalidade é o fim ou o meio?
  • Temas que costumam vir junto: poesia marginal dos anos 1970, hibridismo e apropriação de gêneros, função poética da linguagem, e a comparação com outros poemas metalinguísticos, como "Catar feijão", de João Cabral, e "Procura da poesia", de Drummond.

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