Mapa de questões · 2º dia
Questão 92 — ENEM 2016Caderno azul · 2º Dia
Preámbulo a las instrucciones para dar cuerda al reloj Piensa en esto: cuando te regalan un reloj te regalan un pequeño infierno florido, una cadena de rosas, un calabozo de aire. No te dan solamente el reloj, que los cumplas muy felices y esperamos que te dure porque es de buena marca, suizo con áncora de rubíes; no te regalan solamente ese menudo picapedrero que te atarás a la muñeca y pasearás contigo. Te regalan — no lo saben, lo terrible es que no lo saben —, te regalan un nuevo pedazo frágil y precario de ti mismo, algo que es tuyo pero no es tu cuerpo, que hay que atar a tu cuerpo con su correa como un bracito desesperado colgándose de tu muñeca. Te regalan la necesidad de darle cuerda todos los días, la obligación de darle cuerda para que siga siendo un reloj; te regalan la obsesión de atender a la hora exacta en las vitrinas de las joyerías, en el anuncio por la radio, en el servicio telefónico. Te regalan el miedo de perderlo, de que te lo roben, de que se te caiga al suelo y se rompa. Te regalan su marca, y la seguridad de que es una marca mejor que las otras, te regalan la tendencia de comparar tu reloj con los demás relojes. No te regalan un reloj, tú eres el regalado, a ti te ofrecen para el cumpleaños del reloj.
CORTÁZAR, J. Historias de cronopios y de famas. Buenos Aires: Sudamericana, 1963 (fragmento).
Nesse texto, Júlio Cortázar transforma pequenas ações cotidianas em criação literária,
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da questão
- Matéria: Espanhol → texto literário → crítica ao consumo e à rotina em Julio Cortázar
- Habilidade: H8 — reconhecer a produção literária em língua estrangeira como forma de representar e questionar a experiência cultural
- Nível: Médio — o vocabulário é acessível, mas duas alternativas descrevem leituras plausíveis do texto, e só a última frase decide entre elas
- Gabarito: revelado no Passo 4
🔎 Passo 1 — Leitura estratégica do comando
- O comando, em uma linha: o que Cortázar faz ao transformar o gesto banal de dar corda no relógio em literatura.
- Palavras-chave decisivas: pequenas ações cotidianas, criação literária, e os gerúndios das alternativas (denunciando, apresentando, convidando, desafiando, criticando), que definem a atitude do autor diante do leitor.
- A armadilha: ler o texto como se ele falasse sobre o tempo. Aparece relógio, hora, dia, aniversário — e o aluno conclui "efemeridade do tempo". Mas o texto não fala da passagem do tempo; fala da relação entre a pessoa e o objeto.
- O que a resposta precisa mostrar: que você acompanha a inversão construída ao longo do parágrafo e chega ao ponto em que o presenteado vira presente.
📚 Passo 2 — Revisão do conteúdo
- Coisificação: processo em que uma pessoa passa a ser tratada como objeto, perdendo a posição de sujeito. No texto, ela não é nomeada — é encenada: o relógio ganha vontade, marca, aniversário, e o dono é quem passa a ser oferecido.
- Dar cuerda: dar corda no relógio mecânico. A expressão organiza o texto todo: é o gesto diário e obrigatório que transforma o dono em funcionário do próprio objeto.
- Regalar: presentear. O verbo se repete de forma quase obsessiva — `te regalan` aparece nove vezes. Essa repetição (anáfora) é o motor do texto: a cada retomada, o "presente" vai ficando pior.
- Ser el regalado: particípio usado como substantivo, "o presenteado", mas com o sentido de "aquele que é dado de presente". O deslocamento de sentido dentro da mesma palavra é o fecho do raciocínio.
- Antifrase: dizer o contrário do que se quer significar. `un pequeño infierno florido`, `una cadena de rosas`, `un calabozo de aire` juntam sempre um termo de prisão a um termo de beleza. É a definição de presente envenenado, escrita três vezes seguidas.
🧭 Passo 3 — Decodificação do enunciado
- Evidência 1: "cuando te regalan un reloj te regalan un pequeño infierno florido, una cadena de rosas, un calabozo de aire" ("quando te dão um relógio te dão um pequeno inferno florido, uma corrente de rosas, um calabouço de ar") → três imagens de aprisionamento disfarçadas de beleza. O objeto prende.
- Evidência 2: "te regalan la necesidad de darle cuerda todos los días, la obligación de darle cuerda para que siga siendo un reloj" ("te dão a necessidade de dar corda todos os dias, a obrigação de dar corda para que ele continue sendo um relógio") → quem serve a quem se inverte aqui. O dono trabalha para manter o objeto funcionando.
- Evidência 3: "te regalan el miedo de perderlo, de que te lo roben, de que se te caiga al suelo y se rompa" ("te dão o medo de perdê-lo, de que o roubem, de que caia no chão e quebre") → o objeto passa a governar as emoções do dono.
- Evidência 4: "No te regalan un reloj, tú eres el regalado, a ti te ofrecen para el cumpleaños del reloj" ("Não te dão um relógio, você é que é o presente, é você que é oferecido no aniversário do relógio") → a inversão se completa. O relógio é o aniversariante; a pessoa é o pacote.
- Síntese: o texto avança em uma direção só, do primeiro período ao último — o objeto vai ganhando atributos de sujeito (marca, exigências, medo, aniversário) enquanto a pessoa vai perdendo os dela, até virar mercadoria.
🧠 Passo 4 — Resolução passo a passo
4.1 — Mapear a progressão do texto
Cortázar não afirma sua tese; ele a constrói por acúmulo. Em ordem:
- o relógio é descrito como prisão disfarçada de enfeite;
- vira um "pedaço frágil e precário de ti mesmo", amarrado ao corpo com uma correia;
- impõe uma tarefa diária, a corda;
- impõe uma vigilância, a hora exata em vitrines, rádio e telefone;
- impõe medos, perder, ser roubado, quebrar;
- impõe comparações, a marca do seu contra a dos outros;
- e, no fim, troca de lugar com o dono.
Cada etapa tira um pouco de autonomia da pessoa e dá um pouco de poder ao objeto.
4.2 — Ler a última frase como conclusão, não como efeito de estilo
"No te regalan un reloj, tú eres el regalado." A frase desmonta a situação inicial. O presente de aniversário deixa de ser o relógio e passa a ser a pessoa, oferecida "para o aniversário do relógio". Quem tem aniversário é sujeito; quem é oferecido é objeto. A troca de papéis está escrita com todas as letras.
4.3 — Separar "tempo" de "objeto"
O texto usa relógio, mas não discute duração, brevidade da vida ou passagem dos anos. Discute posse, marca, manutenção, medo e comparação — o vocabulário do consumo, não o da meditação sobre o tempo. Essa distinção é o que elimina a leitura mais tentadora.
4.4 — Verificação
A alternativa correta precisa dar conta da inversão sujeito/objeto e da atitude do autor, que expõe o mecanismo em segunda pessoa ("piensa en esto") em vez de acusar o leitor. Uma só faz as duas coisas. Gabarito: C.
✅❌ Passo 5 — Análise das alternativas
❌ (A) denunciando a má qualidade dos relógios modernos em relação aos antigos — Não há comparação temporal entre modelos no texto. Ao contrário: o relógio descrito é de boa qualidade, "de buena marca, suizo con áncora de rubíes". O problema apontado por Cortázar independe de o objeto ser bom ou ruim — um relógio excelente aprisiona igual.
❌ (B) apresentando possibilidades de sermos presenteados com um relógio — Confunde a estrutura de repetição com o conteúdo dela. O `te regalan` volta nove vezes, mas não para listar formas de ganhar um relógio: cada retomada acrescenta um ônus (necessidade, obrigação, medo, comparação). A anáfora é instrumento de argumentação, não catálogo de possibilidades.
✅ (C) convidando o leitor a refletir sobre a coisificação do ser humano — O texto abre com "Piensa en esto" ("pense nisto"), que é convite, e fecha com "tú eres el regalado", que é a coisificação enunciada. Entre os dois, o objeto acumula atributos de sujeito — exige rotina, provoca medo, tem marca e até aniversário — enquanto a pessoa é reduzida a algo que se oferece. Convite e coisificação: as duas partes da alternativa estão no texto.
❌ (D) desafiando o leitor a pensar sobre a efemeridade do tempo — O distrator mais forte, e por um motivo compreensível: relógio remete a tempo. Mas o texto não trata de o tempo passar depressa nem de a vida ser curta. Trata da submissão a um objeto. Repare que a única menção a prazo, "esperamos que te dure", é sobre a durabilidade do relógio, não da vida. Além disso, "desafiando" contraria o tom de "piensa en esto", que é convite.
❌ (E) criticando o leitor por ignorar os malefícios do relógio — Erra o alvo da crítica. Cortázar não responsabiliza quem recebe o relógio; a censura, quando aparece, recai sobre quem presenteia, e ainda assim com absolvição explícita: "no lo saben, lo terrible es que no lo saben" ("não sabem, o terrível é que não sabem"). Ninguém é acusado de ignorância culpada.
Gabarito: C — o texto conduz o leitor, passo a passo, até a inversão em que o relógio se torna sujeito e a pessoa se torna o presente, e faz isso convidando à reflexão, não acusando.
🏁 Passo 6 — Generalização e dica de prova
- Por que só C se sustenta: as outras quatro ou trocam o tema (qualidade do objeto, passagem do tempo), ou trocam a função do recurso (a anáfora vira lista), ou trocam o alvo (o leitor vira réu). C acerta tema, recurso e atitude ao mesmo tempo.
- Como o ENEM cobra isso: em texto literário, a última frase costuma ser o gabarito. Cortázar, Quiroga, Galeano e Benedetti aparecem na prova justamente porque constroem a tese no fecho. Leia o parágrafo inteiro antes de escolher.
- A regra geral: quando um objeto ganha verbos de sujeito (exigir, obrigar, ter aniversário) e a pessoa ganha verbos de objeto (ser oferecida, ser dada), o assunto é coisificação. Vale para propaganda, crônica e conto.
- Eliminação em 30 segundos: olhe só o gerúndio de cada alternativa. "Denunciando", "desafiando" e "criticando" supõem um tom agressivo que "Piensa en esto" não tem. Sobram duas, e a última frase resolve.
- Temas que costumam vir junto: anáfora e repetição como recurso argumentativo, antifrase e ironia, e a crítica ao consumo em textos hispano-americanos do século XX.
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