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Mapa de questões · 2º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 98ENEM 2015Caderno azul · 2º Dia

Primeiro surgiu o homem nu de cabeça baixa. Deus veio num raio. Então apareceram os bichos que comiam os homens. E se fez o fogo, as especiarias, a roupa, a espada e o dever. Em seguida se criou a filosofia, que explicava como não fazer o que não devia ser feito. Então surgiram os números racionais e a História, organizando os eventos sem sentido. A fome desde sempre, das coisas e das pessoas. Foram inventados o calmante e o estimulante. E alguém apagou a luz. E cada um se vira como pode, arrancando as cascas das feridas que alcança.

BONASSI, F. 15 cenas do descobrimento de Brasis. In: MORICONI, Í. (Org.). Os cem melhores contos do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

A narrativa enxuta e dinâmica de Fernando Bonassi configura um painel evolutivo da história da humanidade. Nele, a projeção do olhar contemporâneo manifesta uma percepção que

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → interpretação de texto narrativo, figuras de linguagem (ironia e humor)
  • ⚡ Nível: Médio — exige distinguir tom irônico/humorístico de recortes temáticos parecidos (bíblico, filosófico, histórico, científico) que aparecem como armadilhas na narrativa
  • 🎯 Tema/Habilidade: Efeitos de sentido produzidos por ironia e humor em texto literário (Competência de Área 1/8 — Linguagens, reconhecimento de recursos expressivos)
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual percepção contemporânea o narrador manifesta ao contar, em tom condensado, toda a evolução da humanidade?"
  • Palavras-chave decisivas: painel evolutivo, projeção do olhar contemporâneo, percepção
  • Armadilha típica: prender-se a um único elemento do texto (a menção a "Deus", à "filosofia", aos "números racionais" ou ao "calmante/estimulante") e generalizar esse fragmento isolado como se fosse o tema central da crônica.
  • O que a resposta precisa demonstrar: a alternativa correta precisa dar conta do texto como um todo — do tom que perpassa a narrativa inteira, do início mítico ao desfecho sobre as "feridas" cotidianas — e não apenas de uma frase isolada.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Ironia: figura de linguagem em que se diz uma coisa esperando que o leitor perceba um sentido contrário ou distinto do literal, geralmente para expor um contraste crítico entre expectativa e realidade.
  • Humor: recurso que provoca o riso ou o sorriso ao aproximar, de forma inusitada, elementos sérios e elementos triviais, ou ao usar um tom leve para tratar de assuntos graves.
  • Crônica/conto minimalista: gênero que narra fatos (aqui, "toda" a história da humanidade) de forma extremamente condensada e telegráfica, criando um efeito de aceleração cômica e, ao mesmo tempo, de desencanto.
  • Paródia de discurso histórico-filosófico: o texto imita a linguagem grandiosa dos relatos de origem (mitos, tratados de filosofia, cronologias históricas) para, em seguida, esvaziá-la com definições circulares ou desconexas.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Deus veio num raio. Então apareceram os bichos que comiam os homens." → frases curtas e justapostas, sem transição lógica, que tratam eventos cósmicos e violentos com a mesma leveza sintática de uma lista de compras — efeito cômico pelo contraste entre a magnitude do fato e a economia da frase.
  • Evidência 2: "a filosofia, que explicava como não fazer o que não devia ser feito" → definição circular e sem sentido prático, que ironiza a pretensão explicativa da filosofia, reduzindo-a a uma tautologia risível.
  • Evidência 3: "a História, organizando os eventos sem sentido" → contradição proposital: a História deveria dar sentido aos fatos, mas o narrador afirma que ela apenas "organiza" o que continua sendo "sem sentido" — ironia sobre a própria pretensão de racionalidade humana.
  • Evidência 4: "E cada um se vira como pode, arrancando as cascas das feridas que alcança." → fecha o texto com uma imagem crua do cotidiano, mas ainda em tom coloquial e quase resignado-cômico ("se vira como pode"), reforçando que o caos da vida comum é tratado com humor ácido, não com lamento trágico.
  • Síntese: do início mítico ao fim doméstico, o narrador usa frases curtas, definições absurdas e justaposições inesperadas para tratar com leveza irônica os grandes marcos da civilização — é esse tom que sustenta a "percepção contemporânea" mencionada no comando.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o fio condutor do texto

O conto de Bonassi narra, em onze frases, toda a trajetória humana: da nudez primitiva ("o homem nu de cabeça baixa") à invenção da religião, da guerra, da moral ("o dever"), da filosofia, da ciência ("números racionais"), da História, até chegar aos remédios do presente ("calmante e o estimulante") e ao gesto cotidiano de "cada um se virar como pode". Não há um evento específico sendo denunciado, nem uma tradição sendo exaltada: há um panorama comprimido, quase uma "linha do tempo" cômica da civilização.

Subpasso 4.2 — Reconhecer o tom que atravessa todo o panorama

A cada nova "conquista" da humanidade (fogo, roupa, filosofia, matemática, história, farmacologia), o narrador aplica o mesmo procedimento: descreve o fato com objetividade quase burocrática, mas insere um detalhe absurdo ou contraditório que revela o vazio por trás da grandiosidade (a filosofia que "explica como não fazer o que não devia ser feito"; a História que "organiza eventos sem sentido"). Esse contraste entre a solenidade do assunto e a banalidade/absurdo da formulação é exatamente o mecanismo da ironia associada ao humor.

Subpasso 4.3 — Verificação: o desfecho confirma a leitura

O texto termina não em tom grave ou de denúncia, mas com uma imagem cotidiana e quase resignada: "alguém apagou a luz. E cada um se vira como pode, arrancando as cascas das feridas que alcança." Não é um protesto nem uma tragédia solene — é o retrato bem-humorado (ainda que agridoce) do caos ordinário da vida, coerente com o humor irônico que vinha sendo construído desde a primeira frase. Isso confirma que a alternativa correta deve falar em humor + ironia + caos cotidiano, o que aponta diretamente para a letra D.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) recorre à tradição bíblica como fonte de inspiração para a humanidade.

❌ Incorreta: a menção a "Deus veio num raio" é apenas um dos muitos flashes da narrativa, tratado com a mesma brevidade cômica que os "bichos" ou "as especiarias" — não há elogio nem uso da tradição bíblica como modelo inspirador; ela é apenas mais um item na sequência irônica, e não o eixo do texto.

B) desconstrói o discurso da filosofia a fim de questionar o conceito de dever.

❌ Incorreta: a frase sobre a filosofia é só um exemplo pontual do procedimento irônico geral do texto; a crônica não se concentra em "questionar o dever" como tema central — o dever aparece de passagem, ao lado do fogo, da roupa e da espada, sem receber tratamento privilegiado.

C) resgata a metodologia da história para denunciar as atitudes irracionais.

❌ Incorreta: o texto faz o oposto de "resgatar" o método histórico — ironiza justamente a incapacidade da História de dar sentido aos fatos ("organizando os eventos sem sentido"). Não há denúncia de irracionalidade alheia; há autoironia sobre a própria tentativa humana de racionalizar o caos.

D) transita entre o humor e a ironia para celebrar o caos da vida cotidiana.

✅ Correta: do início mítico ao desfecho sobre "as cascas das feridas", o narrador emprega frases curtas, definições absurdas e contrastes inesperados — recursos de humor e ironia — para retratar, sem solenidade, a desordem permanente da existência humana, da pré-história ao presente. É essa leitura que sustenta a "percepção contemporânea" indicada no comando.

E) satiriza a matemática e a medicina para desmistificar o saber científico.

❌ Incorreta: os "números racionais" e o "calmante e o estimulante" são apenas dois elementos entre muitos outros (fogo, filosofia, guerra, moral); reduzir o texto a uma crítica ao saber científico ignora o alcance muito mais amplo do panorama evolutivo construído por Bonassi.

🏆 Gabarito: D — o texto constrói, do começo ao fim, um panorama irônico e bem-humorado da história humana, culminando numa imagem cotidiana que celebra — sem tragédia, com humor ácido — o caos permanente da vida.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a letra D dá conta do texto inteiro, do mito de origem ao gesto doméstico final, reconhecendo o duplo recurso de humor e ironia como fio condutor — as demais alternativas recortam um único trecho e o transformam, erroneamente, em tema central.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra a identificação de ironia, humor, sátira e paródia em textos literários curtos (contos, crônicas, poemas), pedindo que o candidato capte o efeito de sentido global, não um detalhe isolado.
  • Generalização: em questões sobre "percepção" ou "visão de mundo" de um texto, a alternativa certa deve explicar o texto como totalidade coerente — se uma opção se apoia em uma única palavra ou frase pontual, desconfie: geralmente é armadilha.
  • Dica de eliminação rápida: risque de cara qualquer alternativa que cite um substantivo isolado do texto (Deus, filosofia, História, matemática/medicina) como se fosse "o assunto" da questão — são iscas lexicais; procure a opção que fale do tom ou do efeito geral da narrativa.
  • Conexões: compare com outras questões de ENEM sobre crônicas de Machado de Assis ou Luis Fernando Veríssimo, nas quais o humor também funciona como crítica leve dos costumes; revise também o conceito de "humor negro"/"ironia agridoce" em textos contemporâneos.

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