Mapa de questões · 2º dia
Questão 130 — ENEM 2015Caderno azul · 2º Dia
Tudo era harmonioso, sólido, verdadeiro. No princípio. As mulheres, principalmente as mortas do álbum, eram maravilhosas. Os homens, mais maravilhosos ainda, ah, difícil encontrar família mais perfeita. A nossa família, dizia a bela voz de contralto da minha avó. Na nossa família, frisava, lançado em redor olhares complacentes, lamentando os que não faziam parte do nosso clã. […]
Quando Margarida resolveu contar os podres todos que sabia naquela noite negra da rebelião, fiquei furiosa. […]
É mentira, é mentira!, gritei tapando os ouvidos. Mas Margarida seguia em frente: tio Maximiliano se casou com a inglesa de cachos só por causa do dinheiro, não passava de um pilantra, a loirinha feiosa era riquíssima. Tia Consuelo? Ora, tia Consuelo chorava porque sentia falta de homem, ela queria homem e não Deus, ou o convento ou o sanatório. O dote era tão bom que o convento abriu-lhe as portas com loucura e tudo. “E tem mais coisas ainda, minha queridinha”, anunciou Margarida fazendo um agrado no meu queixo. Reagi com violência: uma agregada, uma cria e, ainda por cima, mestiça. Como ousava desmoralizar meus heróis?
TELLES, L. F. A estrutura da bolha de sabão. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
Representante da ficção contemporânea, a prosa de Lygia Fagundes Telles configura e desconstrói modelos sociais. No trecho, a percepção do núcleo familiar descortina um(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Interpretação de texto em prosa contemporânea brasileira
- ⚡ Nível: Médio — exige comparar várias evidências espalhadas no texto e identificar o padrão comum entre elas, não apenas um detalhe isolado
- 🎯 Tema/Habilidade: Crítica social na ficção contemporânea; competência de leitura que articula a construção do sentido global de um texto literário
- 🏆 Gabarito: C — revelado após a resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que visão sobre a família o trecho constrói, ao contrapor o discurso idealizado da avó com as revelações de Margarida?"
- Palavras-chave decisivas: descortina, configura e desconstrói, modelos sociais
- Armadilha típica: grudar em apenas um dos "podres" contados por Margarida (o casamento por dinheiro, ou a questão racial) e escolher uma alternativa que descreve só esse fragmento, perdendo o padrão que une todos os episódios.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de generalizar a partir de exemplos distintos (casamento interesseiro, vocação forçada, origem escondida) para chegar ao mecanismo comum que sustenta a imagem de "família perfeita".
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Ficção contemporânea e desconstrução de mitos sociais: parte da prosa brasileira recente — como a de Lygia Fagundes Telles — usa a memória familiar para expor, por trás da fachada de tradição e harmonia, os interesses e preconceitos que sustentam essa fachada.
- Contraponto de vozes narrativas: o texto organiza-se em dois discursos opostos — o da avó, que idealiza o clã, e o de Margarida, que "conta os podres". Esse choque de vozes é o recurso central para a crítica social.
- Ironia como estratégia de crítica: a repetição de adjetivos elogiosos ("harmonioso", "sólido", "verdadeiro", "maravilhosas") no início cria uma expectativa que o restante do texto desmonta, revelando o oposto do que fora afirmado.
- Hipocrisia como mecanismo de coesão social: um grupo pode permanecer unido não porque compartilha valores autênticos, mas porque todos concordam, tacitamente, em não expor certas verdades incômodas.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Tudo era harmonioso, sólido, verdadeiro. No princípio." → estabelece a imagem mítica e idealizada da família, quase como um relato de origem intocável — é o discurso oficial que será desmontado.
- Evidência 2: "tio Maximiliano se casou com a inglesa de cachos só por causa do dinheiro, não passava de um pilantra" → o casamento, apresentado publicamente como união respeitável, escondia interesse financeiro puro.
- Evidência 3: "tia Consuelo chorava porque sentia falta de homem, ela queria homem e não Deus, [...] o convento abriu-lhe as portas com loucura e tudo [por causa do dote]" → a vocação religiosa, vista de fora como devoção espiritual, era na verdade resignação forçada por convenção social e por dinheiro.
- Evidência 4: "uma agregada, uma cria e, ainda por cima, mestiça" → revela que a "família perfeita" também escondia preconceito de classe e de raça em relação a um de seus próprios membros.
- Síntese: as três revelações de Margarida não são fatos soltos: todas mostram a mesma engrenagem — uma fachada de virtude, amor ou devoção que na verdade mascara interesse, frustração ou preconceito. O texto não denuncia um único vício da família, mas o próprio hábito de esconder a verdade para manter a imagem de "família perfeita".
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar os dois planos discursivos em disputa
O trecho é construído sobre uma tensão entre dois discursos. De um lado, a "bela voz de contralto" da avó, que impõe a narrativa oficial da família — grandiosa, harmônica, superior às demais ("a nossa família", "na nossa família"). De outro, a voz de Margarida, que na "noite negra da rebelião" resolve contar "os podres todos que sabia". A reação da narradora — "É mentira, é mentira!, gritei tapando os ouvidos" — mostra o quanto ela estava emocionalmente investida no discurso idealizado, e reforça, por contraste, a força de verdade das revelações de Margarida.
Subpasso 4.2 — Mapear as revelações e encontrar o padrão comum
Cada "podre" contado por Margarida segue a mesma lógica: existe uma versão pública, respeitável, e uma versão privada, vergonhosa, que a família prefere não expor.
- Casamento de tio Maximiliano → aparência de união estável; realidade: interesse financeiro ("pilantra").
- Vocação de tia Consuelo → aparência de escolha espiritual; realidade: imposição via dote, fuga de um destino social ("ou o convento ou o sanatório").
- Origem de outra parente → aparência de pertencimento à "família perfeita"; realidade: preconceito de classe e raça escondido ("agregada", "cria", "mestiça").
Em nenhum dos três casos o problema é isolado: o que se repete é o ocultamento sistemático de motivações e origens reais em nome de uma imagem coletiva de perfeição — ou seja, um acordo tácito (um "pacto") entre os membros da família de sustentar valores e atitudes publicamente, à custa de esconder o que os contradiz.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando esse padrão com as cinco alternativas, apenas uma descreve o mecanismo geral — e não um único episódio isolado — de manutenção de uma imagem familiar por meio de segredos e disfarces. Essa é a alternativa que sintetiza corretamente o sentido do trecho, confirmando o gabarito.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) convivência frágil ligando pessoas financeiramente dependentes.
❌ Incorreta: reduz o quadro a um único fator, a dependência financeira, presente apenas no caso de tia Consuelo (o dote) e, talvez, da parente "agregada". Não explica o casamento de Maximiliano (ele é quem busca o dinheiro da esposa, não o contrário) nem o preconceito racial. O texto não descreve dependência financeira mútua entre os membros, e sim segredos de naturezas distintas escondidos atrás de uma fachada comum.
B) tensa hierarquia familiar equilibrada graças à presença da matriarca.
❌ Incorreta: não há no trecho indício de "tensa hierarquia" resolvida pela avó; ao contrário, a avó é justamente quem sustenta o discurso idealizado e falso que impede o conflito de aparecer. Ela não equilibra tensões reais — ela as encobre. Não há disputa de poder entre os membros, mas sim disputa entre discurso oficial e verdade oculta.
C) pacto de atitudes e valores mantidos à custa de ocultações e hipocrisias.
✅ Correta: sintetiza exatamente o mecanismo revelado — a coesão da família depende de uma imagem compartilhada de virtude e harmonia, sustentada apenas porque motivações reais (interesse financeiro, frustração pessoal, preconceito de origem) são sistematicamente escondidas. É a única alternativa que generaliza corretamente os três episódios narrados por Margarida.
D) tradicional conflito de gerações protagonizado pela narradora e seus tios.
❌ Incorreta: o conflito central do trecho não é geracional. A narradora entra em confronto com Margarida — provavelmente da mesma geração dela —, não diretamente com os tios. O choque não é "jovem versus velho", mas "discurso idealizado versus verdade revelada".
E) velada discriminação racial refletida na procura de casamentos com europeus.
❌ Incorreta: a discriminação racial aparece de fato ("mestiça"), e há também menção a um casamento com uma estrangeira ("a inglesa"), mas isso é apenas um dos elementos citados por Margarida, não o eixo central da passagem. O texto trata de um padrão mais amplo de hipocrisia — financeira, afetiva, religiosa e racial —, e reduzir tudo à questão racial e aos casamentos europeus deixa de fora as revelações sobre Maximiliano e Consuelo.
🏆 Gabarito: C — o trecho mostra que a coesão da "família perfeita" só existia enquanto seus segredos permaneciam escondidos; assim que Margarida os revela, expõe-se que os valores públicos do clã eram sustentados por hipocrisia e ocultação, não por virtude autêntica.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente a alternativa C abrange, num único enunciado, os três episódios narrados (casamento interesseiro, vocação forçada, origem escondida), captando o padrão geral de ocultação que o texto denuncia.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz trechos de prosa brasileira contemporânea que desconstroem instituições sociais — família, casamento, religião, tradição — pedindo que o candidato identifique a tese ou visão geral do fragmento, não um detalhe secundário.
- Generalização: quando o comando pede o que um texto "descortina" ou "revela" sobre um grupo social, procure o traço comum a todos os exemplos apresentados — a resposta certa costuma ser a mais abrangente e conceitual, não a mais específica.
- Dica de eliminação rápida: descarte primeiro as alternativas que mencionam apenas um aspecto isolado do texto (só dinheiro, só raça, só geração) quando o trecho traz evidências de naturezas variadas — nesses casos, a alternativa vencedora quase sempre é a que nomeia o mecanismo geral (hipocrisia, ocultação, fachada) por trás dos exemplos.
- Conexões: compare com outras obras que desmistificam a família patriarcal brasileira (Nelson Rodrigues, Lygia Fagundes Telles, Clarice Lispector) e revise a técnica do contraponto de vozes narrativas (discurso direto x indireto) como recurso de crítica social na prosa contemporânea.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.