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Mapa de questões · 2º dia
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Questão 134ENEM 2015Caderno azul · 2º Dia

Em junho de 1913, embarquei para a Europa a fim de me tratar num sanatório suíço. Escolhi o de Clavadel, perto de Davos-Platz, porque a respeito dele me falara João Luso, que ali passara um inverno com a senhora. Mais tarde vim a saber que antes de existir no lugar um sanatório, lá estivera por algum tempo Antônio Nobre. “Ao cair das folhas”, um de seus mais belos sonetos, talvez o meu predileto, está datado de “Clavadel, outubro, 1895”. Fiquei na Suíça até outubro de 1914.

BANDEIRA, M. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1985.

No relato de memórias do autor, entre os recursos usados para organizar a sequência dos eventos narrados, destaca-se a

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Língua Portuguesa → Coesão textual e tempos verbais em texto narrativo
  • ⚡ Nível: Médio — exige distinguir a função do pretérito perfeito e do pretérito mais-que-perfeito na organização temporal do relato, e não apenas identificar tempos verbais
  • 🎯 Tema/Habilidade: Recursos linguísticos de coesão sequencial em texto memorialístico (competência de leitura e reconhecimento de mecanismos de organização textual)
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual recurso da língua o autor emprega para colocar em ordem, no tempo, os fatos que está narrando em suas memórias?"
  • Palavras-chave decisivas: relato de memórias, organizar a sequência, eventos narrados
  • Armadilha típica: confundir recurso de conteúdo (citar pessoas, mencionar lugares, opinar sobre um poema) com recurso gramatical de organização temporal. As bancas do ENEM adoram misturar alternativas "verdadeiras sobre o texto" com alternativas que respondem exatamente ao que foi perguntado.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar um mecanismo linguístico — não um tema ou uma informação — que estabeleça a ordem cronológica entre os fatos narrados.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Pretérito perfeito do indicativo: expressa uma ação passada concluída, vista como fato pontual e consumado ("embarquei", "escolhi", "fiquei"). Em narrativas, costuma marcar a linha principal dos acontecimentos, aquela que avança no tempo.
  • Pretérito mais-que-perfeito do indicativo: expressa uma ação passada anterior a outra ação passada — é o "passado do passado" ("falara" = tinha falado; "passara" = tinha passado; "estivera" = tinha estado). Serve para o narrador recuar no tempo e mencionar algo que já havia ocorrido antes do momento em que a história está sendo contada.
  • Texto memorialístico: gênero em que o narrador reconstrói fatos vividos, frequentemente intercalando a sequência principal de sua vida com digressões sobre acontecimentos anteriores — daí a necessidade de tempos verbais que sinalizem essas diferentes camadas temporais.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "embarquei para a Europa" / "Escolhi o de Clavadel" / "Fiquei na Suíça até outubro de 1914" → verbos no pretérito perfeito, que constroem a linha do tempo principal da narrativa: a viagem do autor, de 1913 a 1914.
  • Evidência 2: "a respeito dele me falara João Luso, que ali passara um inverno com a senhora" e "antes de existir no lugar um sanatório, lá estivera por algum tempo Antônio Nobre" → verbos no pretérito mais-que-perfeito, que recuam no tempo para situar fatos ocorridos antes daquele momento da narrativa (a informação de João Luso já era anterior à viagem; a estada de Antônio Nobre é ainda mais remota, anterior até à existência do sanatório).
  • Síntese: o texto não é uma sucessão única e linear de verbos no mesmo tempo; ele alterna dois tempos do pretérito para distinguir "o que aconteceu na viagem do narrador" (perfeito) de "o que já havia acontecido antes dela" (mais-que-perfeito). É exatamente essa alternância que ordena os acontecimentos na mente do leitor.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Levantar todos os verbos do trecho e seus tempos

  • embarquei → pretérito perfeito
  • escolhi → pretérito perfeito
  • falara → pretérito mais-que-perfeito (forma sintética)
  • passara → pretérito mais-que-perfeito
  • vim a saber → locução verbal no pretérito perfeito
  • estivera → pretérito mais-que-perfeito
  • está datado → presente do indicativo (refere-se ao poema, atemporal, fora da linha narrativa)
  • fiquei → pretérito perfeito

Subpasso 4.2 — Interpretar a função de cada tempo verbal na sequência dos eventos

Os verbos no pretérito perfeito (embarquei, escolhi, fiquei) formam o "esqueleto" cronológico do relato: são os fatos vividos pelo próprio narrador, em ordem, de 1913 a 1914. Já os verbos no pretérito mais-que-perfeito (falara, passara, estivera) recuam no tempo para mencionar fatos anteriores ao momento narrado, funcionando como um "flashback gramatical". Essa alternância cria camadas temporais: o passado mais remoto (a estada de Antônio Nobre, antes mesmo de existir o sanatório), o passado intermediário (a informação dada por João Luso, antes da viagem) e o passado principal, mais próximo do presente da narração (a própria viagem do autor). Sem essa alternância verbal, o leitor não distinguiria o pano de fundo do fio condutor da história.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando essa análise com o comando da questão — "recursos usados para organizar a sequência dos eventos narrados" — conclui-se que o mecanismo responsável por essa organização é justamente a alternância entre os tempos do pretérito (perfeito × mais-que-perfeito). Essa conclusão corresponde literalmente à alternativa C.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) construção de frases curtas a fim de conferir dinamicidade ao texto.

❌ Incorreta: o trecho é formado por períodos longos e com subordinação ("porque a respeito dele me falara João Luso, que ali passara um inverno com a senhora"), não por frases curtas. Além disso, "dinamicidade" não é o efeito buscado num texto de memórias reflexivo e pausado como esse.

B) presença de advérbios de lugar para indicar a progressão dos fatos.

❌ Incorreta: há, sim, expressões de lugar ("para a Europa", "num sanatório suíço", "Clavadel", "na Suíça"), mas elas indicam onde os fatos ocorreram, não quando nem em que ordem — quem cumpre esse papel temporal são os verbos, não os advérbios de lugar.

C) alternância de tempos do pretérito para ordenar os acontecimentos.

✅ Correta: como demonstrado no Passo 4, é a alternância entre pretérito perfeito (linha principal dos fatos vividos pelo narrador) e pretérito mais-que-perfeito (fatos anteriores, retomados por digressão) que estrutura a ordem cronológica do relato.

D) inclusão de enunciados com comentários e avaliações pessoais.

❌ Incorreta: existe, de fato, um comentário pessoal — "um de seus mais belos sonetos, talvez o meu predileto" — mas trata-se de uma avaliação estética isolada sobre um poema, e não de um recurso que organize a sequência temporal dos eventos narrados.

E) alusão a pessoas marcantes na trajetória de vida do escritor.

❌ Incorreta: o texto realmente cita João Luso e Antônio Nobre, mas essas referências são de conteúdo (quem esteve no lugar), e não constituem, por si, um mecanismo de organização cronológica — a ordem dos fatos continua sendo estabelecida pelos tempos verbais, não pela simples menção a essas pessoas.

🏆 Gabarito: C — a alternância entre pretérito perfeito e pretérito mais-que-perfeito é o recurso gramatical que permite ao leitor distinguir a linha principal dos acontecimentos das digressões sobre fatos anteriores, organizando assim a sequência temporal do relato memorialístico.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que aponta um mecanismo verdadeiramente gramatical — o tempo verbal — como responsável por ordenar cronologicamente os eventos, respondendo com precisão ao que o comando pede.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra o reconhecimento da função coesiva dos tempos verbais em textos narrativos e memorialísticos, ligando gramática a efeitos de sentido — é um cruzamento clássico entre leitura e conhecimentos linguísticos.
  • Generalização: em qualquer narrativa, o pretérito mais-que-perfeito quase sempre sinaliza um recuo no tempo (anterioridade, flashback), enquanto o pretérito perfeito marca a sequência principal dos fatos — fique atento a essa alternância como pista de organização temporal do texto.
  • Dica de eliminação rápida: quando o comando pedir "recursos para organizar a sequência/os eventos", elimine de imediato alternativas que descrevem apenas conteúdo do texto (pessoas citadas, opiniões, lugares) e procure a opção que menciona um elemento gramatical ligado a tempo (verbos, conectivos temporais).
  • Conexões: coesão textual, tempos verbais compostos, discurso memorialístico, função do flashback na narrativa.

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