Mapa de questões · 2º dia
Questão 119 — ENEM 2015Caderno azul · 2º Dia
À garrafa
Contigo adquiro a astúcia
de conter e de conter-me.
Teu estreito gargalo
é uma lição de angústia.
Por translúcida pões
o dentro fora e o fora dentro
para que a forma se cumpra
e o espaço ressoe.
Até que, farta da constante
prisão da forma, saltes
da mão para o chão
e te estilhaces, suicida,
numa explosão
de diamantes.
PAES, J. P. Prosas seguidas de odes mínimas. São Paulo: Cia. das Letras, 1992.
A reflexão acerca do fazer poético é um dos mais marcantes atributos da produção literária contemporânea, que, no poema de José Paulo Paes, se expressa por um(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → poema metalinguístico / metapoesia contemporânea
- ⚡ Nível: Difícil — o poema é curto mas hiperdenso em metáfora, e as cinco alternativas usam quase as mesmas palavras do texto, exigindo distinguir sentido conotativo de leitura literal.
- 🎯 Tema/Habilidade: Reflexão sobre o fazer poético (metalinguagem) — competência de leitura e análise de recursos expressivos em texto literário (H15/H16 da área de Linguagens).
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual alternativa explica corretamente como o poema de José Paulo Paes reflete sobre o próprio processo de criação poética?"
- Palavras-chave decisivas: fazer poético, produção literária contemporânea, se expressa por
- Armadilha típica: escolher a alternativa que apenas cita um verso do poema corretamente, mas atribui a ele um sentido oposto ao que o texto constrói (por exemplo, ler "estilhaçar-se" como fracasso ou desistência, quando o poema aponta para transformação).
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a garrafa é uma metáfora do próprio poema/verso, e que todo o movimento do texto — conter, comprimir, resistir e por fim se romper — representa o processo de amadurecimento da linguagem poética até sua forma final.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Metalinguagem (metapoesia): texto literário que toma a própria arte de fazer poesia como assunto — o poema fala sobre como se escreve poesia, usando outro objeto (a garrafa) como espelho do processo criativo.
- Metáfora estruturante: a garrafa não é apenas um objeto descrito; cada característica física dela (gargalo estreito, vidro translúcido, fragilidade) corresponde a uma etapa do trabalho com a palavra poética.
- Antítese conter/estilhaçar: o poema se organiza pela tensão entre dois movimentos opostos — a contenção rígida da forma e a explosão final — que juntos descrevem um processo, não um final trágico.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Contigo adquiro a astúcia / de conter e de conter-me" → o eu lírico associa a garrafa a uma habilidade de disciplina e autocontrole, isto é, ao trabalho de moldar a linguagem dentro de limites formais.
- Evidência 2: "farta da constante / prisão da forma, saltes [...] e te estilhaces [...] numa explosão / de diamantes" → depois de um tempo de contenção ("constante"), a forma se rompe, mas o resultado não é destruição vazia: é uma "explosão de diamantes", imagem de brilho, valor e multiplicidade.
- Síntese: o poema narra uma sequência temporal — conter, amadurecer sob pressão da forma, e finalmente transformar-se em algo precioso — que é exatamente a alegoria do processo de criação poética, da palavra bruta ao poema lapidado.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a garrafa como metáfora do poema
A garrafa é o objeto-símbolo escolhido pelo eu lírico para falar de si mesmo enquanto poeta. Ela "contém" líquido do mesmo modo que o verso "contém" sentido dentro de uma forma fixa (métrica, sintaxe, imagem). Por isso o primeiro movimento do poema é de contenção: "conter e de conter-me" e "estreito gargalo" (lição de angústia) descrevem a disciplina dolorosa de encaixar a linguagem em limites apertados.
Subpasso 4.2 — Acompanhar a passagem do tempo até a ruptura
O conectivo "Até que" marca a virada temporal do poema: não se trata de um estado permanente, mas de um processo com início, meio e fim. A garrafa, "farta da constante prisão da forma", salta da mão para o chão e se estilhaça. Aqui está o ponto central da questão: o verbo "estilhaçar-se" normalmente soa destrutivo, e a palavra "suicida" reforça esse tom sombrio à primeira vista — é exatamente essa a armadilha para quem lê rápido demais.
Subpasso 4.3 — Verificação: o que a imagem final realmente significa
Mas o poema fecha com "numa explosão / de diamantes" — e diamante é síntese de brilho, dureza, valor e multiplicidade de facetas. O estilhaçamento do vidro não é o fim niilista do poema, e sim sua transformação em algo mais precioso e multifacetado do que a forma original. Ou seja: contenção (disciplina formal) → amadurecimento (o tempo de pressão sob a "prisão da forma") → transformação (o poema pronto, brilhante como diamante). Essa leitura bate exatamente com a alternativa D, confirmando o gabarito.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) reconhecimento, pelo eu lírico, de suas limitações no processo criativo, manifesto na expressão "Por translúcida pões".
❌ Incorreta: essa expressão não fala de limitação, e sim do funcionamento da forma poética — por ser translúcida, a garrafa deixa "o dentro fora e o fora dentro", isto é, permite que conteúdo e forma se revelem mutuamente. É uma descrição do mecanismo criativo, não uma confissão de fraqueza do eu lírico.
B) subserviência aos princípios do rigor formal e dos cuidados com a precisão metafórica, como se observa em "prisão da forma".
❌ Incorreta: "subserviência" (submissão passiva) contradiz o próprio poema, que mostra o rompimento dessa prisão no final. O eu lírico não se curva ao rigor formal para sempre — ele o rompe deliberadamente, o que é o oposto de subserviência.
C) visão progressivamente pessimista, em face da impossibilidade da criação poética, conforme expressa o verso "e te estilhaces, suicida".
❌ Incorreta: o poema não é pessimista nem trata a criação como impossível. O verso citado é seguido imediatamente por "numa explosão / de diamantes" — uma imagem de valor e beleza, que reverte qualquer leitura de fracasso ou desistência da poesia.
D) processo de contenção, amadurecimento e transformação da palavra, representado pelos versos "numa explosão / de diamantes".
✅ Correta: é exatamente o arco do poema — conter (gargalo estreito, prisão da forma), amadurecer (o "até que" marca a duração do processo) e transformar (o estilhaçamento vira diamantes). Os versos citados fecham essa alegoria da lapidação da linguagem poética.
E) necessidade premente de libertação da prisão representada pela poesia, simbolicamente comparada à "garrafa" a ser "estilhaçada".
❌ Incorreta: essa leitura inverte o sentido do símbolo. A garrafa não representa "a poesia" como algo do qual o eu lírico quer se libertar; ela representa o próprio processo/veículo da criação poética. O poema fala sobre como se faz poesia, não sobre uma vontade de abandoná-la.
🏆 Gabarito: D — o poema constrói, do início ao fim, uma alegoria de contenção, amadurecimento e transformação da palavra poética, culminando nos versos "numa explosão / de diamantes", que simbolizam o resultado precioso desse processo criativo.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa D interpreta corretamente a imagem final do poema como o ápice positivo de um processo, e não como fracasso ou submissão — as demais invertem o sentido de trechos isolados do texto.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz poemas metalinguísticos (que falam sobre a própria poesia) e cobra a interpretação simbólica de um objeto-metáfora central — aqui, a garrafa.
- Generalização: em questões de metapoesia, sempre identifique primeiro "do que o objeto/imagem central é metáfora" antes de julgar as alternativas; o erro mais comum é interpretar palavras de tom negativo (como "prisão", "suicida", "estilhaçar") isoladamente, sem considerar a imagem que as sucede no poema.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que atribuem tom puramente negativo ou de renúncia (pessimismo, submissão, desejo de fuga) sempre que o poema terminar com uma imagem de valor, brilho ou conquista — o contraste sinaliza que a leitura correta é de transformação, não de derrota.
- Conexões: compare com outros poemas metalinguísticos cobrados no ENEM (como os de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade sobre o "fazer poético") e revise a diferença entre denotação e conotação em imagens de ruptura/transformação.
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