Mapa de questões · 2º dia
Questão 101 — ENEM 2015Caderno azul · 2º Dia
Carta ao Tom 74
Rua Nascimento Silva, cento e sete
Você ensinando pra Elizete
As canções de canção do amor demais
Lembra que tempo feliz
Ah, que saudade,
Ipanema era só felicidade
Era como se o amor doesse em paz
Nossa famosa garota nem sabia
A que ponto a cidade turvaria
Esse Rio de amor que se perdeu
Mesmo a tristeza da gente era mais bela
E além disso se via da janela
Um cantinho de céu e o Redentor
É, meu amigo, só resta uma certeza,
É preciso acabar com essa tristeza
É preciso inventar de novo o amor
MORAES, V.; TOQUINHO. Bossa Nova, sua história, sua gente. São Paulo: Universal; Philips,1975 (fragmento).
O trecho da canção de Toquinho e Vinícius de Moraes apresenta marcas do gênero textual carta, possibilitando que o eu poético e o interlocutor
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Gêneros textuais (a carta) e interpretação de texto poético-musical
- ⚡ Nível: Médio — a leitura literal é simples, mas a escolha exige descartar alternativas com pequenas extrapolações não sustentadas pelo texto
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer marcas linguísticas e discursivas de um gênero textual (a carta) incorporado a outro gênero (a canção), identificando a função sociocomunicativa que essa hibridização cria entre eu lírico e interlocutor
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que efeito comunicativo as marcas do gênero carta produzem na relação entre o eu poético e a pessoa a quem ele se dirige?"
- Palavras-chave decisivas: marcas do gênero textual carta, eu poético e o interlocutor, possibilitando
- Armadilha típica: cair em alternativas que soam "poéticas" e plausíveis (A e D), mas que atribuem ao texto um tom que ele não tem, ou inferir informações que o texto não afirma (C, sobre distância física entre remetente e destinatário)
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a estrutura de carta serve, aqui, para atualizar um amigo distante sobre como a cidade mudou, sempre em tom de saudade — não para debater amor de forma prática, nem para "aceitar" passivamente as mudanças
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Gênero textual carta: texto marcado por endereçamento, tom de conversa direta e pessoal com um destinatário conhecido, atualização de acontecimentos ("notícias") e resgate de memórias compartilhadas entre remetente e destinatário.
- Eu lírico/eu poético: voz que enuncia a canção; aqui assume o papel de remetente de uma carta dirigida a "Tom" (Antônio Carlos Jobim, parceiro musical de Vinícius de Moraes).
- Hibridização de gêneros: quando um texto (a canção) incorpora as marcas de outro gênero (a carta) — título "Carta ao Tom 74", endereço específico, tom confessional — criando um efeito de intimidade e autenticidade.
- Tom nostálgico: evocação afetiva de um tempo passado idealizado, em contraste com a constatação de perdas no presente.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Rua Nascimento Silva, cento e sete" → endereço real e específico logo na abertura, marca clássica de carta que situa o remetente e reforça o caráter íntimo e verídico da comunicação (era, de fato, o endereço de Vinícius de Moraes em Ipanema).
- Evidência 2: "Lembra que tempo feliz / Ah, que saudade" → apelo direto à memória do interlocutor ("lembra"), típico de quem escreve para alguém que compartilhou aquela vivência — a carta funciona como reencontro por escrito.
- Evidência 3: "Nossa famosa garota nem sabia / A que ponto a cidade turvaria" → retomada de referência cultural comum aos dois (a "Garota de Ipanema", canção da dupla) para relatar, como notícia, como o Rio de Janeiro mudou desde então.
- Síntese: o texto usa a estrutura de carta justamente para que o eu lírico "informe" o amigo distante sobre o que aconteceu com a cidade que os dois amavam — sempre em tom saudosista, nunca informativo-frio nem conformado.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar as marcas do gênero carta no texto
O próprio título, "Carta ao Tom 74", já declara o gênero. Em seguida, a canção reproduz elementos típicos de uma carta pessoal: endereço do remetente ("Rua Nascimento Silva, cento e sete"), menção a um episódio biográfico compartilhado ("Você ensinando pra Elizete / As canções de canção do amor demais" — referência ao momento em que Elizete Cardoso aprendia as canções do disco "Chega de Saudade/Canção do Amor Demais", parceria de Tom e Vinícius) e o apelo direto ao destinatário por meio do verbo "lembra". Essas marcas constroem um diálogo íntimo entre quem escreve e quem recebe a carta.
Subpasso 4.2 — Rastrear o eixo temático central
Depois de resgatar a memória feliz de Ipanema, o eu lírico muda de assunto: relata como a cidade mudou e "turvou" ("Esse Rio de amor que se perdeu"), contrastando o passado ("mesmo a tristeza da gente era mais bela") com um presente de perda. A visão da janela ("um cantinho de céu e o Redentor") reforça a ambientação carioca e a ideia de testemunhar, dali, as transformações da cidade. Ou seja: o conteúdo da "carta" é justamente uma atualização — uma notícia — sobre o que mudou no Rio, contada com pesar e saudade.
Subpasso 4.3 — Verificação pelo fecho do poema
A estrofe final confirma essa leitura: "só resta uma certeza, / É preciso acabar com essa tristeza / É preciso inventar de novo o amor". O eu lírico não relata as mudanças com neutralidade nem as aceita — ele as lamenta e conclama uma reação. Isso descarta qualquer alternativa que fale em aceitação passiva ou tom pragmático, e confirma que a função da carta é justamente comunicar, com emoção, as mudanças ocorridas na cidade — exatamente o que descreve a alternativa B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) compartilhem uma visão realista sobre o amor em sintonia com o meio urbano.
❌ Incorreta: o texto não apresenta uma visão "realista" e muito menos uma relação de "sintonia" com o meio urbano — ao contrário, ele mostra estranhamento e dissonância entre o amor idealizado do passado e a cidade que "turvou" no presente. A tonalidade é lírica e saudosista, não descritiva/realista.
B) troquem notícias em tom nostálgico sobre as mudanças ocorridas na cidade.
✅ Correta: a estrutura de carta (endereçamento, memória compartilhada, apelo ao interlocutor) serve exatamente para que o eu lírico "atualize" o amigo sobre o que mudou no Rio de Janeiro/Ipanema, sempre em tom de saudade e lamento — é o núcleo comunicativo do texto.
C) façam confidências, uma vez que não se encontram mais no Rio de Janeiro.
❌ Incorreta: o texto não afirma, em nenhum momento, que o interlocutor deixou o Rio de Janeiro; essa é uma inferência sem base textual. Além disso, o conteúdo não é uma "confidência" íntima e secreta, mas um relato compartilhado sobre a cidade que os dois conheceram.
D) tratem pragmaticamente sobre os destinos do amor e da vida citadina.
❌ Incorreta: "pragmaticamente" contradiz o tom lírico, emotivo e subjetivo da canção; não há objetividade prática no texto, e sim linguagem conotativa e apelo sentimental típico da poesia cantada.
E) aceitem as transformações ocorridas em pontos turísticos específicos.
❌ Incorreta: o texto é justamente o oposto de uma aceitação — o eu lírico lamenta a perda ("Esse Rio de amor que se perdeu") e termina convocando uma mudança de atitude ("É preciso acabar com essa tristeza / É preciso inventar de novo o amor"), o que é uma postura de resistência, não de conformismo.
🏆 Gabarito: B — as marcas do gênero carta (endereçamento, memória partilhada, apelo direto ao destinatário) estruturam um relato nostálgico sobre as transformações do Rio de Janeiro, o que só a alternativa B descreve com precisão.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que respeita simultaneamente o gênero (troca de notícias, própria da carta) e o tom (nostalgia, não aceitação nem pragmatismo) presentes no texto.
- Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer canções e poemas como textos híbridos, que incorporam marcas de outros gêneros (carta, diário, bilhete), pedindo que o candidato reconheça essas marcas e a função comunicativa que elas geram entre os interlocutores do texto.
- Generalização: ao identificar um gênero textual incorporado a outro, sempre verifique qual efeito de sentido esse gênero produz (intimidade, atualização de fatos, prestação de contas etc.) e confirme esse efeito com trechos literais do texto.
- Dica de eliminação rápida: risque de imediato alternativas com adjetivos/verbos que contradizem o tom emocional dominante do texto — aqui, "realista" (A), "pragmaticamente" (D) e "aceitem" (E) chocam-se com a saudade e o inconformismo evidentes na letra.
- Conexões: interpretação de letras de música na prova de Linguagens; funções da linguagem (predomínio da função emotiva/expressiva); reconhecimento de gêneros textuais híbridos em textos literários.
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