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Mapa de questões · 2º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 104ENEM 2015Caderno azul · 2º Dia

da sua memória

mil
e
mui
tos
out
ros
ros
tos
sol
tos
pou
coa
pou
coa
pag
amo
meu

ANTUNES, A. 2 ou + corpos no mesmo espaço. São Paulo: Perspectiva, 1998.

Trabalhando com recursos formais inspirados no Concretismo, o poema atinge uma expressividade que se caracteriza pela

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → vanguardas poéticas do século XX (Concretismo) e leitura de poema visual
  • ⚡ Nível: Médio — exige relacionar um recurso gráfico (a quebra das palavras no papel) ao efeito de sentido que ele produz, e não apenas identificar o movimento literário
  • 🎯 Tema/Habilidade: Concretismo e poesia concreta; competência de reconhecer relações entre a construção formal do texto e seus efeitos de sentido
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual é o efeito de sentido produzido pela forma como as palavras estão organizadas e quebradas no poema?"
  • Palavras-chave decisivas: recursos formais, Concretismo, expressividade
  • Armadilha típica: confundir "quebra de palavras" com "estranhamento genérico" (alternativa B) ou com "questionamento do sentido" (alternativa C), ignorando que a questão pede o efeito específico ligado ao conteúdo do poema — a memória que se perde
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato enxerga a forma (palavras fragmentadas em sílabas soltas na página) não como enfeite gráfico gratuito, mas como um recurso que significa junto com o conteúdo — a ideia de lembranças que se apagam e se estreitam

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Concretismo: movimento de vanguarda brasileiro iniciado nos anos 1950 (Grupo Noigandres: Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Décio Pignatari) que trata o poema como objeto visual e sonoro, valorizando a disposição gráfica das palavras no espaço da página tanto quanto o significado verbal — o chamado poema "verbivocovisual".
  • Iconicidade formal: princípio segundo o qual a forma do texto imita ou reforça aquilo que ele diz — no Concretismo, a disposição espacial das palavras não é decorativa: ela encena visualmente o conteúdo do poema.
  • Fragmentação lexical: técnica de romper a palavra em sílabas ou fonemas isolados, distribuindo-os no espaço da página, criando pausas, ecos sonoros e ambiguidades de leitura que a palavra inteira não teria.
  • Arnaldo Antunes e "2 ou + corpos no mesmo espaço" (1998): obra que retoma e atualiza os procedimentos concretistas décadas depois, aplicando-os a temas subjetivos (memória, corpo, identidade), e não apenas ao experimentalismo formal puro dos anos 1950.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: o título "da sua memória" seguido da quebra "mil / e / mui / tos / out / ros / ros / tos / sol / tos" → reconstituindo a frase, lê-se "mil e muitos outros rostos soltos", isto é, inúmeros rostos armazenados na memória, mas já soltos, desconexos entre si.
  • Evidência 2: a sequência final "pou / coa / pou / coa / pag / amo / meu" → reconstitui "pouco a pouco apagam o meu" (rosto/lembrança). A repetição fragmentada de "pouco a" mimetiza no ritmo de leitura o próprio processo lento e gradual do esquecimento.
  • Síntese: o poema, se lido em prosa, diria algo como "da sua memória, mil e muitos outros rostos soltos, pouco a pouco, apagam o meu [rosto]". Ao quebrar cada palavra em pedaços e distribuí-los verticalmente, o texto faz a forma imitar o conteúdo: assim como os rostos na memória vão se desfazendo e se confundindo uns com os outros, as palavras também se desfazem em sílabas soltas na página, cada vez mais reduzidas, até sobrar só o fragmento final "meu".

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Reconstituir o texto por trás da forma visual

Antes de julgar as alternativas, é preciso "traduzir" o poema concreto para a sintaxe comum. Juntando as sílabas na ordem em que aparecem, obtém-se: "da sua memória, mil e muitos outros rostos soltos, pouco a pouco, apagam o meu." O sentido geral é o de uma memória povoada por inúmeros rostos alheios que, com o tempo, vão apagando o rosto (ou a lembrança) de quem fala — um esmaecimento progressivo da própria imagem em meio a tantas outras.

Subpasso 4.2 — Relacionar a quebra gráfica ao efeito de sentido

Repare que nenhuma palavra do poema aparece inteira: "muitos" vira "mui/tos", "outros" vira "out/ros", "rostos" vira "ros/tos", "soltos" vira "sol/tos", "pouco a" se repete duas vezes partido em "pou/coa", e o desfecho "apagam o meu" se comprime em "pag/amo/meu". Essa fragmentação sistemática não é um capricho gráfico: ela funciona como uma iconização do próprio tema — o poema fala de lembranças que se desfazem e, para dizer isso, desfaz as próprias palavras. Há ainda um detalhe fino: a sílaba "ros" aparece duas vezes seguidas (fim de "out-ros" e início de "ros-tos"), fazendo os "rostos" se fundirem uns aos outros na leitura, exatamente como se confundem na memória.

Subpasso 4.3 — Verificação

Ao final do poema, o que resta não é mais a frase completa, mas apenas o fragmento residual "meu" — o mínimo que ainda resiste ao apagamento. Esse afunilamento visual e sonoro (de uma memória cheia de "mil e muitos" rostos até restar só "meu") é justamente o que se entende por estreitamento das lembranças: a memória vai se estreitando, se reduzindo, à medida que os fragmentos de palavra também se reduzem na página. A forma (fragmentação lexical) e o conteúdo (encolhimento da lembrança) caminham juntos — é exatamente o que a alternativa D descreve.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) interrupção da fluência verbal, para testar os limites da lógica racional.

❌ Incorreta: o poema de fato interrompe a fluência normal da leitura, mas essa interrupção não tem como finalidade "testar a lógica racional" — não há um enigma lógico a ser resolvido, e sim uma imagem poética sobre a memória. A alternativa erra o propósito do recurso formal.

B) reestruturação formal da palavra, para provocar o estranhamento no leitor.

❌ Incorreta: é verdade que a palavra é reestruturada e que isso causa estranhamento à primeira vista, mas essa alternativa fica no nível do efeito imediato (o "susto" da leitura) sem explicar para que o poema faz isso. O estranhamento é consequência, não a finalidade — a questão pede o efeito de sentido ligado ao tema do poema, que a alternativa D nomeia com precisão (o estreitamento das lembranças).

C) dispersão das unidades verbais, para questionar o sentido das lembranças.

❌ Incorreta: as sílabas realmente ficam dispersas no espaço da página, mas o poema não coloca em dúvida ou "questiona" o sentido das lembranças — ele representa o processo de essas lembranças se apagarem e se estreitarem. Questionar implica problematizar a validade ou o significado da memória; o poema, na verdade, mostra esse significado se esvaindo, não sendo colocado em xeque.

D) fragmentação da palavra, para representar o estreitamento das lembranças.

✅ Correta: descreve com exatidão o recurso formal (palavras quebradas em sílabas soltas, sistematicamente fragmentadas ao longo de todo o poema) e articula esse recurso ao efeito de sentido pretendido — mostrar, de forma icônica, como a memória vai se estreitando, se reduzindo, até restar apenas o fragmento final "meu".

E) renovação das formas tradicionais, para propor uma nova vanguarda poética.

❌ Incorreta: o poema de Arnaldo Antunes retoma procedimentos já consolidados pelo Concretismo desde os anos 1950 — o próprio enunciado diz que ele é "inspirado no Concretismo", ou seja, dialoga com uma vanguarda já existente, não propõe uma vanguarda nova. Além disso, a alternativa é genérica demais e não menciona o efeito de sentido específico (a memória) pedido pela questão.

🏆 Gabarito: D — a fragmentação sistemática das palavras em sílabas soltas é o recurso formal concretista central do poema, e ele existe para representar, de modo icônico, o estreitamento progressivo das lembranças até restar apenas o fragmento "meu".

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa D une corretamente o recurso formal (fragmentação da palavra) ao efeito de sentido específico e coerente com o tema do poema (o estreitamento das lembranças), sem generalizar nem desviar o foco para lógica, estranhamento gratuito ou dúvida sobre o sentido.
  • Padrão de cobrança: o ENEM costuma trazer poemas visuais/concretos (Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, Décio Pignatari) pedindo que o aluno relacione a disposição gráfica do texto ao seu significado — nunca basta reconhecer "isso é Concretismo", é preciso explicar por que a forma escolhida reforça o conteúdo.
  • Generalização: em poesia concreta e visual, sempre pergunte "o que a forma (quebra, espaço, tamanho, disposição das letras) está imitando ou reforçando no conteúdo do poema?" — a resposta certa quase sempre liga o recurso gráfico a um efeito de sentido concreto do texto, não a uma ideia abstrata e genérica.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que descrevem apenas o efeito imediato de leitura sem ligá-lo ao tema (como "estranhamento" ou "testar a lógica") e as que fazem afirmações históricas genéricas demais (como "propor uma nova vanguarda") quando o enunciado já situa o poema como inspirado em um movimento anterior.
  • Conexões: vale revisar outros poemas visuais de Arnaldo Antunes e do Grupo Noigandres, além do conceito de "poema verbivocovisual" e da diferença entre Concretismo e outras vanguardas modernistas (Futurismo, Cubismo literário).

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