Mapa de questões · 2º dia
Questão 113 — ENEM 2015Caderno azul · 2º Dia
TEXTO I
Um ato de criatividade pode contudo gerar um modelo produtivo. Foi o que ocorreu com a palavra sambódromo, criativamente formada com a terminação -(ó)dromo (= corrida), que figura em hipódromo, autódromo, cartódromo, formas que designam itens culturais da alta burguesia. Não demoraram a circular, a partir de então, formas populares como rangódromo, beijódromo, camelódromo.
AZEREDO, J. C. Gramática Houaiss da língua portuguesa. São Paulo: Publifolha, 2008.
TEXTO II
Existe coisa mais descabida do que chamar de sambódromo uma passarelo para desfile de escolas de samba? Em grego, -dromo quer dizer “ação de correr, lugar de corrida “, dai as palavras de autódromo e dipódromo. É certo que, às vezes, durante o desfile, a escola se atrasa e é obrigada a correr para não perder pontos, mas não se desloca com a velocidade de um cavalo ou de um carro de Fórmula 1.
GULLAR, F. Disponível em: www1.folha.uol.com.br. Acesso em: 3 ago. 2012.
Há nas línguas mecanismos geradores de palavras.
Embora o Texto II apresente um julgamento de valor sobre a formação da palavra sambódromo, o processo de formação dessa palavra reflete
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Formação de palavras (neologismo por analogia)
- ⚡ Nível: Médio — exige comparar dois textos com posições opostas e não confundir a opinião do autor mais crítico com o fato linguístico pedido
- 🎯 Tema/Habilidade: Dinamismo lexical da língua / Competência de Área 1 (mecanismos de constituição da língua)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Mesmo com a crítica do Texto II, o que o surgimento de sambódromo comprova sobre a língua?"
- Palavras-chave decisivas: "Embora", "julgamento de valor", "reflete"
- Armadilha típica: achar que a resposta deve concordar com Gullar (Texto II) e marcar C ou D, confundindo "opinião do autor" com "o que o processo de formação reflete"
- O que a resposta precisa demonstrar: separar o fato linguístico objetivo (a palavra foi criada, pegou e gerou uma família de termos) do juízo de valor subjetivo de Gullar
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Formação analógica de palavras: processo pelo qual se cria um termo copiando o "molde" de palavras já existentes (o elemento -ódromo de hipódromo/autódromo/cartódromo), sem respeitar rigidamente a etimologia.
- Produtividade morfológica: quando um elemento de composição passa a gerar repetidamente novas palavras, torna-se "produtivo" — é o que ocorre depois de sambódromo, com rangódromo, beijódromo e camelódromo.
- Purismo linguístico: postura que julga "impróprias" palavras que se afastam do sentido de origem (aqui, do grego drómos = corrida). É a posição de Gullar — uma opinião, não uma descrição científica da língua.
- Dinamismo/mutabilidade da língua: propriedade de toda língua viva de se transformar continuamente, criando itens lexicais para nomear novas realidades socioculturais, com ou sem aprovação de puristas.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Um ato de criatividade pode contudo gerar um modelo produtivo" (Texto I) → sambódromo não é erro, é ato criativo que virou padrão replicável.
- Evidência 2: "Não demoraram a circular... rangódromo, beijódromo, camelódromo" (Texto I) → prova de que o modelo "pegou" e se multiplicou.
- Evidência 3: "Existe coisa mais descabida do que chamar de sambódromo..." (Texto II) → julgamento de valor pessoal de Gullar, não constatação sobre o funcionamento da língua.
- Síntese: o próprio comando avisa que a crítica de Gullar deve ficar de lado; a resposta se apoia no que o Texto I comprova tecnicamente — criação e disseminação de sambódromo e derivados.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Separar fato de opinião
O Texto I, de um linguista, descreve objetivamente: sambódromo foi formado por analogia com hipódromo/autódromo/cartódromo e virou "modelo produtivo", gerando outras palavras populares. O Texto II, de um cronista, expressa opinião: Gullar acha "descabido" o uso, pois etimologicamente -dromo remete a corrida. Ele não nega que a palavra circula — apenas a desaprova.
Subpasso 4.2 — Responder ao que o comando realmente pede
A pergunta não é "Gullar tem razão?", e sim: o que o processo de formação reflete, independentemente do julgamento dele? A resposta está nos fatos do Texto I: um elemento grego, antes restrito a locais de corrida, foi reaproveitado para nomear um novo espaço (a passarela de desfile) e esse reaproveitamento gerou outras palavras (rangódromo = lugar de comer; camelódromo = lugar de vender). Isso é a própria definição de dinamismo linguístico.
Subpasso 4.3 — Verificação
A alternativa A — "o dinamismo da língua na criação de novas palavras" — descreve exatamente essa conclusão. As demais, como mostra o Passo 5, ou contradizem os fatos (falar em "restrição" quando houve expansão) ou tratam a opinião de Gullar como se fosse verdade linguística geral.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) o dinamismo da língua na criação de novas palavras.
✅ Correta: o Texto I comprova que -ódromo ganhou novo uso a partir de um ato criativo e se tornou produtivo, gerando sambódromo e depois rangódromo, beijódromo, camelódromo — prova de que a língua se reinventa para nomear novas realidades, independentemente de aprovação purista.
B) uma nova realidade limitando o aparecimento de novas palavras.
❌ Incorreta: inverte o fenômeno. A nova realidade (o desfile de samba) não limitou — impulsionou o surgimento de palavras novas, tanto a original quanto suas derivadas populares.
C) a apropriação inadequada de mecanismos de criação de palavras por leigos.
❌ Incorreta: reproduz o julgamento de valor de Gullar como se fosse fato linguístico. O comando pede o que o processo reflete apesar dessa crítica; além disso, o Texto I trata a formação como "ato de criatividade" legítimo, não como erro.
D) o reconhecimento da impropriedade semântica dos neologismos.
❌ Incorreta: é a tese de Gullar, não um consenso linguístico. Não há "reconhecimento" geral de impropriedade — há uma opinião isolada e purista, enquanto o Texto I trata o fenômeno como natural e produtivo.
E) a restrição na produção de novas palavras com o radical grego.
❌ Incorreta: contraria a evidência textual. O radical grego -dromo não foi restringido — foi liberado para novos usos, gerando uma cadeia de neologismos populares.
🏆 Gabarito: A — o processo de formação de sambódromo, apesar da crítica de Gullar, comprova o dinamismo da língua: um elemento grego ganhou novo sentido por analogia e se tornou produtivo, gerando outras palavras populares.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa A descreve os fatos do Texto I sem incorporar a opinião do Texto II: uma palavra nova virou modelo para outras — prova de língua em movimento.
- Padrão de cobrança: o ENEM gosta de opor um texto técnico/descritivo (linguista) a um texto opinativo (crônica) sobre uso da língua, testando se o aluno confunde "opinião de purista" com "funcionamento real da língua".
- Generalização: quando o comando disser "embora [texto opinativo] critique, o que [fenômeno] reflete", a resposta certa costuma descrever o fato linguístico neutro (mudança, criação, dinamismo), não repetir o julgamento do texto citado.
- Dica de eliminação rápida: elimine alternativas com juízo negativo ("inadequada", "impropriedade", "restrição") quando o texto mostrar um fenômeno se espalhando — restrição e multiplicação são conceitos opostos.
- Conexões: revise também neologismo, empréstimos linguísticos e variação linguística (formal x informal), temas recorrentes em "Linguagens" que tratam a língua como sistema vivo.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.