Mapa de questões · 2º dia
Questão 117 — ENEM 2015Caderno azul · 2º Dia
Exmº Sr. Governador:
Trago a V. Exa. um resumo dos trabalhos realizados pela Prefeitura de Palmeira dos Índios em 1928.
[…]
ADMINISTRAÇÃO Relativamente à quantia orçada, os telegramas custaram pouco. De ordinário vai para eles dinheiro considerável. Não há vereda aberta pelos matutos que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a coisa foi feita por ela; comunicam-se as datas históricas ao Governo do Estado, que não precisa disso; todos os acontecimentos políticos são badalados. Porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama.
Palmeira dos Índios, 10 de janeiro de 1929.
GRACILIANO RAMOS
RAMOS, G. Viventes das Alagoas. São Paulo: Martins Fontes, 1962.
O relatório traz a assinatura de Graciliano Ramos, na época, prefeito de Palmeira dos Índios, e é destinado ao governo do estado de Alagoas. De natureza oficial, o texto chama a atenção por contrariar a norma prevista para esse gênero, pois o autor
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Gêneros textuais, registro de linguagem e variação estilística
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer, por trás da ironia sutil de Graciliano Ramos, o desvio entre o registro esperado do gênero "relatório oficial" e o tom efetivamente empregado no texto
- 🎯 Tema/Habilidade: Adequação de linguagem ao gênero textual e à situação de comunicação (reconhecer usos da língua em diferentes situações de interlocução, respeitando os pressupostos do gênero)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Identifique de que forma o texto de Graciliano Ramos rompe com a norma esperada para o gênero relatório oficial."
- Palavras-chave decisivas: natureza oficial, contrariar a norma prevista para esse gênero, o autor
- Armadilha típica: confundir marcas estilísticas superficiais (pontuação, palavras antigas, uso de "eu") com o verdadeiro desvio, que é de ordem discursiva: o tom pessoal, irônico e emocional que substitui a objetividade burocrática esperada.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de comparar o padrão convencional de um relatório administrativo (linguagem formal, impessoal, objetiva, informativa) com o texto real, apontando com precisão em que ponto essa convenção é quebrada.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Gênero textual "relatório oficial/administrativo": documento de prestação de contas de um agente público a uma autoridade superior; convenciona-se que seja objetivo, impessoal, factual e neutro emocionalmente, relatando ações e dados sem opinião pessoal explícita.
- Registro linguístico: variação da língua conforme o grau de formalidade e a relação entre os interlocutores; documentos oficiais exigem registro formal e distanciado, sem intromissões subjetivas do enunciador.
- Ironia e ethos autoral: recurso pelo qual o autor sugere um sentido crítico por meio do contraste entre o que diz e o que realmente pensa; em Graciliano Ramos, a ironia contida e o humor ácido são marcas de estilo reconhecidas mesmo em textos não literários, como este relatório de prefeito.
- Subjetividade x objetividade textual: um texto é subjetivo quando revela julgamentos, sentimentos e opiniões do autor (advérbios de intensidade, adjetivos avaliativos, gradação irônica); é objetivo quando se limita a expor fatos verificáveis, sem marcas de avaliação pessoal.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Relativamente à quantia orçada, os telegramas custaram pouco." → abertura aparentemente objetiva e burocrática, típica de relatório administrativo — o leitor espera que o texto siga nesse tom até o fim.
- Evidência 2: "Não há vereda aberta pelos matutos que prefeitura do interior não ponha no arame, proclamando que a coisa foi feita por ela" → mudança de registro: linguagem coloquial e crítica ("vereda aberta pelos matutos", "no arame"), com julgamento de valor sobre o exagero e a vaidade política de outras prefeituras — já não é mais relato neutro, é opinião.
- Evidência 3: "porque se derrubou a Bastilha – um telegrama; porque se deitou pedra na rua – um telegrama; porque o deputado F. esticou a canela – um telegrama." → construção em gradação irônica (enumeração de fatos cada vez mais triviais equiparados a um evento histórico grandioso), que evidencia sarcasmo e indignação pessoal diante do uso abusivo dos telegramas — carga emocional explícita, incompatível com o formalismo esperado.
- Síntese: as três evidências mostram uma curva: o texto começa fingindo objetividade, mas rapidamente desliza para o julgamento pessoal, o deboche e a indignação de Graciliano Ramos diante da prática política que critica. Esse deslizamento do informativo para o avaliativo/emocional é exatamente o que contraria a norma do gênero relatório oficial.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Reconstituir a expectativa de gênero
Um relatório de prefeito ao governador deveria seguir um script previsível: enumerar obras, despesas e ações administrativas de forma direta, num registro formal e impessoal, sem opiniões do redator sobre o comportamento de terceiros (no caso, outras prefeituras). É esse padrão — o "dever-ser" do gênero — que o enunciado pede para comparar com o texto real.
Subpasso 4.2 — Localizar o ponto de ruptura
No trecho, Graciliano Ramos não apenas informa que gastou pouco com telegramas; ele aproveita o espaço para ironizar o comportamento de outras administrações municipais, que enviam telegramas para qualquer pretexto. A enumeração final — Bastilha, pedra na rua, deputado que morreu ("esticou a canela", expressão coloquial e jocosa para "morrer") — é uma gradação decrescente de importância que produz efeito cômico e crítico. Isso é literatura entranhada num documento burocrático: o autor deixa transparecer indignação, ironia e desdém, ou seja, emoção e subjetividade, exatamente o que um relatório oficial deveria evitar.
Subpasso 4.3 — Verificação
Confrontando esse achado com as alternativas: a marca dominante do desvio não é pontuação excessiva (A), nem vocabulário arcaico (B), nem uso da primeira pessoa para gerar intimidade (C — o "eu" do relatório é convencional em correspondências oficiais, não é a quebra de norma), nem tecnicismo (D — não há jargão técnico algum). O que salta aos olhos é a linguagem carregada de subjetividade e emoção (ironia, sarcasmo, crítica pessoal), confirmando a alternativa E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) emprega sinais de pontuação em excesso.
❌ Incorreta: o texto usa pontuação de forma comedida e funcional (ponto e vírgula para separar orações coordenadas na enumeração final, por exemplo), sem qualquer excesso perceptível. A pontuação não é o traço que rompe com a norma do gênero — é apenas suporte sintático convencional.
B) recorre a termos e expressões em desuso no português.
❌ Incorreta: expressões como "no arame" e "esticou a canela" são coloquialismos regionais/populares, não arcaísmos ou termos "em desuso"; eles continuam compreensíveis e usados informalmente. O problema não é a datação do vocabulário, mas o tom crítico e emotivo que esse vocabulário coloquial ajuda a construir.
C) apresenta-se na primeira pessoa do singular, para conotar intimidade com o destinatário.
❌ Incorreta: o uso da primeira pessoa ("Trago a V. Exa...") é convenção normal de correspondências e relatórios oficiais dirigidos a uma autoridade — não é uma quebra da norma, e tampouco sugere "intimidade": o tratamento "V. Exa." mantém a formalidade e o distanciamento hierárquico esperados.
D) privilegia o uso de termos técnicos, para demonstrar conhecimento especializado.
❌ Incorreta: não há terminologia técnica ou especializada em nenhum trecho; ao contrário, a linguagem tende ao coloquial e ao popular, o oposto de um vocabulário técnico-administrativo.
E) expressa-se em linguagem mais subjetiva, com forte carga emocional.
✅ Correta: a ironia, o sarcasmo e a indignação de Graciliano Ramos diante do uso abusivo de telegramas por outras prefeituras — culminando na gradação jocosa "Bastilha / pedra na rua / deputado que morreu" — revelam um enunciador que julga, ri e critica, em vez de apenas informar. Essa subjetividade emocional é o que contraria a norma de objetividade e impessoalidade esperada de um relatório administrativo oficial.
🏆 Gabarito: E — o texto rompe com a norma do gênero relatório oficial ao substituir a objetividade burocrática esperada por um tom pessoal, irônico e emocionalmente carregado, evidente na crítica sarcástica ao uso indiscriminado de telegramas.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa E aponta o verdadeiro eixo do desvio — a subjetividade emocional (ironia, crítica, sarcasmo) — enquanto as demais descrevem traços que ou não ocorrem no texto (pontuação excessiva, termos técnicos, vocabulário arcaico) ou são, na verdade, convenções normais do gênero (uso da primeira pessoa em correspondência oficial).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra a comparação entre o gênero textual esperado (com suas convenções de formalidade, objetividade e função social) e o texto efetivamente produzido, pedindo que o candidato identifique rupturas de registro, tom ou intenção comunicativa — muitas vezes usando textos de autores literários que "contaminam" gêneros não literários com seu estilo pessoal, como fez Graciliano Ramos neste relatório.
- Generalização: sempre que uma questão perguntar "por que o texto contraria a norma do gênero", procure o contraste entre o que o gênero exige (formal, impessoal, objetivo, funcional) e o que o texto de fato apresenta (opinião, emoção, humor, crítica, coloquialismo) — a resposta quase sempre está nesse contraste de registro, não em detalhes gramaticais isolados.
- Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que descrevem características ausentes no trecho (aqui, "termos técnicos" e "termos em desuso" claramente não aparecem) e desconfie de alternativas que tratam uma convenção normal do gênero (como a primeira pessoa em cartas/relatórios oficiais) como se fosse a anomalia — isso costuma ser pegadinha.
- Conexões: o tema dialoga com "variação linguística e registro" e com "ironia como recurso argumentativo/estilístico", ambos recorrentes em questões de interpretação textual do ENEM envolvendo cartas, crônicas, relatórios e outros gêneros híbridos entre o oficial e o literário.
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