Mapa de questões · 2º dia
Questão 116 — ENEM 2015Caderno azul · 2º Dia
Assum preto
Tudo em vorta é só beleza
Sol de abril e a mata em frô
Mas assum preto, cego dos óio
Num vendo a luz, ai, canta de dor
Tarvez por ignorança
Ou mardade das pió
Furaro os óio do assum preto
Pra ele assim, ai, cantá mió
Assum preto veve sorto
Mas num pode avuá
Mil veiz a sina de uma gaiola
Desde que o céu, ai, pudesse oiá
GONZAGA, L.; TEIXEIRA, H. Disponível em: www.luizgonzaga.mus.br. Acesso em: 30 jul. 2012 (fragmento).
As marcas da variedade regional registradas pelos compositores de Assum preto resultam da aplicação de um conjunto de princípios ou regras gerais que alteram a pronúncia, a morfologia, a sintaxe ou o léxico. No texto, é resultado de uma mesma regra a
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Sociolinguística / Variação Linguística (fonética regional)
- ⚡ Nível: Médio — exige identificar com precisão QUAL processo fonético opera em cada palavra e comparar os pares, não apenas "sentir" que a fala é regional
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de regras fonéticas da variação linguística regional/rural — Competência de Linguagens (H8: relacionar as variedades linguísticas a situações específicas de uso social)
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Encontre o par de palavras do texto que sofreu a MESMA alteração linguística (mesma regra), e não apenas duas palavras quaisquer que 'soam' regionais."
- Palavras-chave decisivas: mesma regra, princípios ou regras gerais, pronúncia, morfologia, sintaxe ou léxico
- Armadilha típica: escolher um par só porque as duas palavras "parecem" faladas de forma matuta/nordestina, sem checar se o mecanismo fonético por trás de cada uma é idêntico
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de segmentar cada palavra, identificar o fonema-padrão, o fonema alterado e nomear o processo (queda, troca, adição), confirmando que as DUAS palavras do par passaram pelo mesmo processo
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Variação linguística regional (diatópica): forma legítima e sistemática de falar português, própria de comunidades rurais/interioranas, regida por regras próprias — não é "erro", é outro sistema de normas, tão coerente quanto a norma-padrão.
- Rotacismo: processo fonético em que o fonema lateral /l/, quando ocupa a posição de coda silábica (final de sílaba, antes de consoante), é substituído pelo fonema vibrante /r/. Ex.: sol-da-do não muda, mas tal-vez → tar-vez, porque o /l/ está fechando a sílaba "tal".
- Iotização: troca do dígrafo "lh" (fonema palatal /ʎ/) pela semivogal "i" (glide /j/) — ex.: olho → óio, olhar → oiá.
- Apócope: queda de fonema no final da palavra — muito comum com o /r/ de infinitivos (cantar → cantá) e com marcas nasais de verbos (furaram → furaro).
- Monotongação/redução vocálica: simplificação de ditongos ou mudança de timbre vocálico — ex.: vive → veve (fechamento/abaixamento da vogal átona).
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "tarvez" (talvez) e "sorto" (solto) → em ambas, o /l/ que fecha a primeira sílaba (tal-, sol-) foi trocado por /r/: exatamente o mesmo mecanismo articulatório.
- Evidência 2: "vorta" (volta) e "veve" (vive) → "vorta" também é rotacismo (vol- → vor-), mas "veve" não tem nenhum /l/ em jogo: é troca de vogal átona (i→e). São processos diferentes disfarçados de "parecidos".
- Síntese: a questão pede o par cujas DUAS palavras compartilham o mesmo mecanismo. Isso descarta imediatamente qualquer par "misto" (uma palavra com rotacismo + outra com processo diferente) e aponta para o par formado só por rotacismo puro dos dois lados.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapeando cada palavra alterada do texto
Antes de comparar os pares das alternativas, é essencial converter cada forma regional para a norma-padrão e identificar o processo:
| Forma no texto | Norma-padrão | Processo fonético |
|---|---|---|
| vorta | volta | rotacismo (l→r em coda) |
| frô | flor | rotacismo + apócope do r final |
| óio | olho | iotização (lh→i) |
| tarvez | talvez | rotacismo (l→r em coda) |
| mardade | maldade | rotacismo (l→r em coda) |
| furaro | furaram | apócope/monotongação da terminação nasal -aram → -aro |
| cantá | cantar | apócope do r final do infinitivo |
| avuá | voar/avoar | prótese (a-) + monotongação (oa→u) + apócope do r |
| pió | pior | apócope do r final |
| sorto | solto | rotacismo (l→r em coda) |
| oiá | olhar | iotização (lh→i) + apócope do r final |
Subpasso 4.2 — Testando cada par contra a regra "mesmo processo dos dois lados"
- (A) vorta/veve: "vorta" = rotacismo; "veve" = mudança de timbre vocálico (i→e). Processos diferentes.
- (B) tarvez/sorto: "tarvez" = rotacismo (l→r); "sorto" = rotacismo (l→r). Processo idêntico dos dois lados.
- (C) furaro/cantá: "furaro" = queda da terminação nasal de um verbo no pretérito perfeito (3ª pessoa do plural); "cantá" = queda do -r de um infinitivo. São quedas de fonemas finais, mas de naturezas distintas (nasal vs. vibrante) e em categorias verbais diferentes.
- (D) "cego dos óio"/"mata em frô": não são um par de palavras submetidas a uma regra fonética comum — são expressões inteiras, e a alternativa erra ao rotulá-las como "redundância", categoria que nem consta entre pronúncia, morfologia, sintaxe ou léxico.
- (E) ignorança/avuá: "ignorança" é pronunciada de forma padrão, sem qualquer marca regional; "avuá" sofre três alterações. Não há regra comum porque uma das palavras simplesmente não foi alterada.
Subpasso 4.3 — Verificação
Apenas em (B) as duas palavras exibem o mesmo ponto de articulação alterado pela mesma regra: o /l/ em posição de coda silábica (fechando sílaba, antes de consoante) muda para /r/ — "tal-vez" → "tar-vez" e "sol-to" → "sor-to". O resultado confirma a alternativa B como única resposta em que a regra é estritamente a mesma nos dois vocábulos.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) pronúncia das palavras "vorta" e "veve".
❌ Incorreta: "vorta" resulta de rotacismo (l→r), mas "veve" resulta de alteração da vogal átona (i→e, um fenômeno de assimilação/abaixamento vocálico). São dois processos fonéticos distintos combinados numa única alternativa — a armadilha clássica desta questão, pois "vorta" isoladamente até se encaixaria na regra de B.
B) pronúncia das palavras "tarvez" e "sorto".
✅ Correta: em "talvez → tarvez" e "solto → sorto", o /l/ em final de sílaba (antes de consoante) é substituído por /r/ — o rotacismo, marca fonética muito característica da fala rural/nordestina retratada na canção. As duas palavras sofrem exatamente a mesma regra articulatória.
C) flexão verbal encontrada em "furaro" e "cantá".
❌ Incorreta: "furaro" (furaram) é uma forma finita no pretérito perfeito, 3ª pessoa do plural, que perde a nasalidade final; "cantá" (cantar) é um infinitivo que perde apenas o /r/ final. Além de pertencerem a categorias verbais diferentes (forma finita x infinitivo), os fonemas suprimidos e o mecanismo de queda não coincidem.
D) redundância nas expressões "cego dos óio" e "mata em frô".
❌ Incorreta: a alternativa erra o próprio tipo de fenômeno cobrado — não se trata de redundância (repetição de sentido), e sim de expressões inteiras, não de um par de palavras regidas pela mesma regra fonética, morfológica, sintática ou lexical, como pede o enunciado.
E) pronúncia das palavras "ignorança" e "avuá".
❌ Incorreta: "ignorança" é pronunciada segundo a norma-padrão, sem qualquer marca de variação regional; "avuá" (voar) passa por adição de vogal inicial, redução do ditongo e queda do /r/ final. Não há regra compartilhada, pois uma das palavras sequer foi alterada.
🏆 Gabarito: B — "tarvez" e "sorto" são o único par em que ambas as palavras sofrem exatamente o mesmo processo fonético: o rotacismo, troca do /l/ em coda silábica pelo fonema /r/.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa B apresenta duas palavras alteradas pelo idêntico mecanismo articulatório (l→r em final de sílaba); todas as demais misturam processos diferentes ou incluem uma palavra sem alteração.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa letras de música, poemas ou falas de personagens regionais (Luiz Gonzaga, Patativa do Assaré, literatura de cordel) para testar se o aluno reconhece a variação linguística como sistema regrado — e não como "erro" de português.
- Generalização: para comparar fenômenos fonéticos, sempre converta cada palavra para a norma-padrão, isole o segmento (fonema/sílaba) que mudou e nomeie o processo (rotacismo, iotização, apócope, monotongação, prótese); só então compare os processos dos dois lados do par.
- Dica de eliminação rápida: desconfie de alternativas que misturam uma palavra "família rotacismo" com outra que não tem /l/ nenhum na origem (elimina A em segundos); desconfie de rótulos que não pertencem às categorias do enunciado, como "redundância" (elimina D de cara); e desconfie de pares em que uma palavra é claramente padrão, sem marca alguma (elimina E).
- Conexões: este tema dialoga com preconceito linguístico (Marcos Bagno), variação diastrática/diafásica e com outras questões de literatura regionalista (Guimarães Rosa, cordel nordestino) que também usam a fala não padrão como recurso estético e identitário.
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