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Mapa de questões · 2º dia
LinguagensPortuguêsMédio

Questão 109ENEM 2015Caderno azul · 2º Dia

Yaô

Aqui có no terreiro

Pelú adié

Faz inveja pra gente

Que não tem mulher

No jacutá de preto velho

Há uma festa de yaô

Ôi tem nêga de Ogum

De Oxalá, de Iemanjá

Mucama de Oxossi é caçador

Ora viva Nanã

Nanã Buruku

Yô yôo

Yô yôoo

No terreiro de preto velho iaiá

Vamos saravá (a quem meu pai?)

Xangô!

VIANA, G. Agô, Pixinguinha! 100 Anos. Som Livre, 1997.

A canção Yaô foi composta na década de 1930 por Pixinguinha, em parceria com Gastão Viana, que escreveu a letra. O texto mistura o português com o iorubá, língua usada por africanos escravizados trazidos para o Brasil.

Ao fazer uso do iorubá nessa composição, o autor

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Língua Portuguesa → Sociolinguística / Língua, Cultura e Identidade
  • ⚡ Nível: Médio — o texto é acessível, mas exige descartar alternativas com carga política/ética exagerada que soam plausíveis
  • 🎯 Tema/Habilidade: A língua como marca de identidade cultural (competência de linguagens: reconhecer usos da língua(gem) como suporte de memória e tradição de um grupo social)
  • 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual é o efeito de sentido produzido pela mistura de português e iorubá na letra de 'Yaô'?"
  • Palavras-chave decisivas: mistura, iorubá, africanos escravizados
  • Armadilha típica: escolher uma alternativa que soa "engajada" ou "crítica" (superioridade, resistência, separação racial) só porque o tema envolve escravidão — sem prestar atenção ao tom festivo e celebratório da letra e do comando do enunciado.
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o uso do iorubá comprova que elementos linguísticos e culturais de matriz africana continuam presentes e ativos na cultura brasileira contemporânea, e não apenas um registro histórico morto.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Sincretismo e contato linguístico: quando duas línguas convivem em um mesmo território (português e iorubá, trazido pelos povos escravizados da região que hoje corresponde à Nigéria/Benin), é comum que uma "empreste" vocabulário à outra, sobretudo em campos semânticos ligados a religião, culinária e música.
  • Candomblé e vocabulário de terreiro: palavras como "terreiro", "yaô" (iniciante/noviça do candomblé), "saravá" (saudação/louvação) e os nomes dos orixás (Ogum, Oxalá, Iemanjá, Oxóssi, Nanã, Xangô) pertencem ao universo lexical afro-religioso, preservado por gerações de praticantes desde o período colonial.
  • Língua como patrimônio cultural vivo: um idioma (ou parte de seu vocabulário) sobrevive quando segue sendo usado em práticas sociais — aqui, a música popular urbana do Rio de Janeiro dos anos 1930 —, e não apenas em registros arqueológicos ou históricos.
  • Contexto de produção da canção: Pixinguinha e Gastão Viana compõem "Yaô" em plena efervescência do nacionalismo modernista, período em que artistas passam a valorizar as raízes afro-brasileiras como parte constitutiva — e não marginal — da identidade nacional.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "O texto mistura o português com o iorubá, língua usada por africanos escravizados trazidos para o Brasil" → o enunciado já entrega o dado histórico-linguístico: o iorubá não é enfeite exótico, é a língua de um povo que, mesmo escravizado, trouxe e manteve sua cultura.
  • Evidência 2: "Ôi tem nêga de Ogum / De Oxalá, de Iemanjá / Mucama de Oxossi é caçador / Ora viva Nanã" → enumeração afetuosa e celebrativa dos orixás, sem nenhum tom irônico, hierárquico ou de denúncia — é louvação, não crítica.
  • Evidência 3: "Vamos saravá (...) Xangô!" → "saravá" é convite coletivo à celebração; a canção termina em tom de festa compartilhada, reforçando que a tradição afro-brasileira já é parte do repertório cultural de todos, não de um grupo isolado.
  • Síntese: a letra não separa nem hierarquiza culturas — ela funde português e iorubá numa mesma canção popular brasileira, mostrando que o legado africano continua vivo e presente na produção musical do país décadas depois da escravidão.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o gênero e a função do texto

"Yaô" é uma canção popular, gênero cuja função primeira é estética e comunicativa, voltada a um público amplo. O comando pede o efeito de sentido do uso do iorubá dentro dessa canção — ou seja, não se trata de avaliar um tratado antropológico ou um manifesto político, mas uma obra de arte popular que incorpora vocabulário de outra língua.

Subpasso 4.2 — Relacionar forma (mistura linguística) e conteúdo (temática religiosa afro-brasileira)

Ao inserir termos do iorubá — vocabulário de terreiro e nomes de orixás — dentro de uma letra majoritariamente em português, os compositores produzem um efeito de continuidade: o iorubá não aparece como língua "morta" ou apenas histórica, mas como parte viva do vocabulário musical brasileiro dos anos 1930. Isso significa que, quase 50 anos após a abolição (1888), elementos linguísticos e religiosos de origem africana seguiam circulando, sendo cantados e ouvidos por brasileiros de todas as origens.

Subpasso 4.3 — Verificação

Testando essa leitura contra as alternativas: a única que descreve exatamente esse fenômeno — o iorubá como evidência de que a cultura africana permanece presente e ativa na produção musical brasileira — é a alternativa B. As demais atribuem à canção intenções (crítica, hierarquia, separação, "autenticidade ritual") que o texto, em seu tom celebrativo e integrador, não sustenta.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) promove uma crítica bem-humorada às religiões afrobrasileiras, destacando diversos orixás.

❌ Incorreta: não há tom crítico ou de deboche na letra — os orixás são citados com reverência ("Ora viva Nanã", "Vamos saravá"), num registro de celebração e louvação, não de ironia sobre a religião.

B) ressalta uma mostra da marca da cultura africana, que se mantém viva na produção musical brasileira.

✅ Correta: o uso do iorubá funciona exatamente como um registro linguístico que comprova a permanência e a vitalidade da herança cultural africana dentro da música popular brasileira, décadas após a escravidão — é síntese, não separação nem crítica.

C) evidencia a superioridade da cultura africana e seu caráter de resistência à dominação do branco.

❌ Incorreta: a canção não constrói um discurso de superioridade cultural nem de confronto/resistência explícita à dominação branca; seu tom é de integração e celebração compartilhada, não de embate.

D) deixa à mostra a separação racial e cultural que caracteriza a constituição do povo brasileiro.

❌ Incorreta: o efeito é justamente o oposto — a mistura linguística (português + iorubá) expressa fusão e convivência cultural, não segregação ou separação entre grupos.

E) expressa os rituais africanos com maior autenticidade, respeitando as referências originais.

❌ Incorreta: "Yaô" é uma canção popular urbana, produto artístico de dois compositores, não um registro etnográfico fiel de rituais de candomblé; a preocupação da letra não é reproduzir com "autenticidade ritual", mas incorporar elementos culturais afro-brasileiros à música popular.

🏆 Gabarito: B — o uso do iorubá em "Yaô" comprova que a língua e a cultura de matriz africana permanecem presentes e ativas na produção musical brasileira, funcionando como marca viva dessa herança, e não como crítica, hierarquia, separação ou reconstituição ritual fiel.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa B descreve o efeito real da mistura linguística observada no texto — permanência e vitalidade da cultura africana na música brasileira — sem atribuir à canção intenções (crítica, superioridade, separação, fidelidade ritual) que o tom celebrativo da letra não sustenta.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos (canções, poemas, crônicas) que misturam português com línguas indígenas ou africanas para testar se o candidato reconhece esses empréstimos como marcas de identidade e resistência cultural, e não como curiosidade linguística isolada.
  • Generalização: sempre que uma questão de linguagens perguntar "o efeito de usar X elemento cultural/linguístico dentro do texto", a resposta correta tende a valorizar a ideia de permanência, hibridismo e construção de identidade — evite alternativas que soem radicais demais (superioridade, dominação, separação) quando o texto tem tom ameno ou festivo.
  • Dica de eliminação rápida: releia o tom do texto antes de olhar as alternativas. Se a letra é alegre e celebrativa (como aqui: "Vamos saravá"), corte de cara qualquer alternativa com carga de conflito, crítica ou hierarquia (A, C e D caem juntas por excesso de carga política/irônica que o texto não tem).
  • Conexões: compare com questões sobre variação linguística e preconceito linguístico, e com textos sobre a formação do português brasileiro a partir de contribuições indígenas e africanas (léxico de origem tupi e banto no dia a dia).

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