Pular para o conteúdo
MemorizeMemorize
Mapa de questões · 2º dia
LinguagensPortuguêsFácil

Questão 120ENEM 2015Caderno azul · 2º Dia

Palavras jogadas fora

Quando criança, convivia no interior de São Paulo com o curioso verbo pinchar e ainda o ouço por lá esporadicamente. O sentido da palavra é o de “jogar fora” (pincha fora essa porcaria) ou “mandar embora” (pincha esse fulano daqui). Teria sido uma das muitas palavras que ouvi menos na capital do estado e, por conseguinte, deixei de usar. Quando indago às pessoas se conhecem esse verbo, comumente escuto respostas como “minha avó fala isso”. Aparentemente, para muitos falantes, esse verbo é algo do passado, que deixará de existir tão logo essa geração antiga morrer.

As palavras são, em sua grande maioria, resultados de uma tradição: elas já estavam lá antes de nascermos. “Tradição”, etimologicamente, é o ato de entregar, de passar adiante, de transmitir (sobretudo valores culturais). O rompimento da tradição de uma palavra equivale à sua extinção. A gramática normativa muitas vezes colabora criando preconceitos, mas o fator mais forte que motiva os falantes a extinguirem uma palavra é associar a palavra, influenciados direta ou indiretamente pela visão normativa, a um grupo que julga não ser o seu. O pinchar, associado ao ambiente rural, onde há pouca escolaridade e refinamento citadito, está fadado à extinção?

É louvável que nos preocupemos com a extinção de ararinhas-azuis ou dos micos-leão-dourados, mas a extinção de uma palavra não promove nenhuma comoção, como não nos comovemos com a extinção de insetos, a não ser dos extraordinariamente belos. Pelo contrário, muitas vezes a extinção das palavras é incentivada.

VIARO, M. E. Língua Portuguesa, n. 77, mar. 2012 (adaptado).

A discussão empreendida sobre o (des)uso do verbo “pinchar” nos traz uma reflexão sobre a linguagem e seus usos, a partir da qual compreende-se que

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Variação Linguística e Preconceito Linguístico
  • ⚡ Nível: Fácil — o texto é curto, argumentativo e conduz o leitor de forma explícita à conclusão, sem exigir inferências complexas
  • 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer a relação entre uso da língua e fatores socioculturais (Competência de Área 1 — Linguagens; H1/H6 da matriz ENEM)
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual conclusão o texto permite tirar sobre por que palavras como 'pinchar' caem em desuso?"
  • Palavras-chave decisivas: preconceito, associar a um grupo, extinção de palavras
  • Armadilha típica: confundir o exemplo secundário (comparação com espécies animais em extinção, parágrafo 3) com a tese central do texto, ou levar ao pé da letra o título "Palavras jogadas fora" como se fosse uma prescrição normativa
  • O que a resposta precisa demonstrar: que o abandono de um vocábulo não é neutro nem puramente "natural" — ele é motivado por preconceito social, isto é, pela rejeição a se associar ao grupo que usa aquela palavra

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Variação linguística: a língua não é uniforme; ela varia conforme região, época, grupo social e contexto de uso. O verbo "pinchar", usado no interior de São Paulo, é um caso de variação regional (regionalismo).
  • Preconceito linguístico: julgamento negativo de uma forma de falar não por critérios linguísticos objetivos, mas por associá-la a grupos vistos como menos escolarizados, rurais ou "atrasados". É um preconceito social disfarçado de julgamento sobre a língua.
  • Norma culta x norma popular: a gramática normativa estabelece um padrão de prestígio; palavras fora desse padrão (como regionalismos rurais) tendem a ser estigmatizadas e abandonadas pelos falantes que buscam ascensão ou aceitação social.
  • Extinção lexical como fenômeno social: o texto compara a "morte" de uma palavra à extinção de uma espécie, mas deixa claro que, no caso das palavras, essa extinção não é natural — é incentivada por fatores sociais, não por desuso espontâneo.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "o fator mais forte que motiva os falantes a extinguirem uma palavra é associar a palavra, influenciados direta ou indiretamente pela visão normativa, a um grupo que julga não ser o seu" → o autor nomeia explicitamente a causa da extinção: associação da palavra a um grupo social que o falante rejeita pertencer
  • Evidência 2: "O pinchar, associado ao ambiente rural, onde há pouca escolaridade e refinamento citadino, está fadado à extinção?" → a pergunta retórica evidencia o estereótipo: rural = pouca escolaridade = "menos prestigiado", e é esse estigma social que ameaça a palavra, não uma qualidade linguística dela
  • Evidência 3: "a extinção de uma palavra não promove nenhuma comoção [...] muitas vezes a extinção das palavras é incentivada" → reforça que a perda lexical não é passiva, é ativamente estimulada por quem rejeita a variante estigmatizada
  • Síntese: as três evidências convergem para o mesmo ponto — o abandono de "pinchar" (e de vocábulos semelhantes) não é um processo linguístico neutro, mas um reflexo de preconceito sociocultural contra o grupo que os utiliza (falantes rurais, menos escolarizados). Essa é exatamente a leitura pedida pelo comando.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar a tese central do texto

O texto de Viaro não é sobre biologia nem sobre dicionários: é um texto de reflexão sociolinguística. Ele parte de um exemplo pessoal (o verbo "pinchar") para construir uma tese geral sobre por que palavras somem do uso corrente. Logo no segundo parágrafo, o autor entrega a chave de leitura: a gramática normativa "colabora criando preconceitos", mas o fator decisivo é o falante recusar uma palavra por não querer ser identificado com o grupo social que a usa.

Subpasso 4.2 — Relacionar o exemplo específico à generalização

"Pinchar" é associado ao meio rural e a "pouca escolaridade e refinamento citadino" (repare a ironia do autor ao usar essas expressões — ele está descrevendo um preconceito, não endossando-o). Falantes que migram para a capital, ou que têm contato com o meio urbano escolarizado, deixam de usar a palavra para não parecerem "do interior" ou "sem instrução". Esse mecanismo — abandonar um traço linguístico para não ser rotulado por um estigma social — é a definição operacional de preconceito linguístico.

Subpasso 4.3 — Verificação

Confrontando essa síntese com as alternativas, a única que nomeia diretamente essa relação de causa e efeito (abandono do vocábulo ↔ preconceito sociocultural) é a alternativa C. As demais ou distorcem um detalhe secundário do texto (o exemplo das espécies em extinção), ou invertem o sentido argumentativo (sugerir que o autor defende o descarte das palavras, quando ele lamenta essa perda), ou inserem ideias que o texto não sustenta (tradição automática, exigência de inovação vocabular).

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) as palavras esquecidas pelos falantes devem ser descartadas dos dicionários, conforme sugere o título.

❌ Incorreta: inverte o tom do texto. O título "Palavras jogadas fora" é irônico/crítico — descreve o que acontece com essas palavras, não uma recomendação do autor. Viaro lamenta a extinção lexical (compara-a à extinção de espécies), não a defende; logo, ele jamais sugeriria excluir palavras de dicionários.

B) o cuidado com espécies animais em extinção é mais urgente do que a preservação de palavras.

❌ Incorreta: distorce a comparação do texto. O autor usa a extinção de animais apenas como analogia para mostrar que, assim como corremos para preservar espécies (ararinha-azul, mico-leão-dourado), deveríamos nos preocupar mais com a extinção de palavras — e não que uma urgência supere a outra. Estabelecer hierarquia de urgência entre os dois temas é uma inferência que o texto não autoriza.

C) o abandono de determinados vocábulos está associado a preconceitos socioculturais. ✅

✅ Correta: reproduz com precisão a tese central do texto. O próprio autor afirma que o "fator mais forte" para a extinção de uma palavra é a associação dela a um grupo social que o falante não quer integrar — ou seja, um julgamento de valor sobre pessoas (rurais, pouco escolarizadas) transferido para a palavra que elas usam. Isso é, por definição, preconceito sociocultural.

D) as gerações têm a tradição de perpetuar o inventário de uma língua.

❌ Incorreta: contraria o texto. O autor explica que a tradição (transmissão de geração a geração) é o que sustentaria as palavras, mas justamente esse elo está se rompendo — "o rompimento da tradição de uma palavra equivale à sua extinção". O texto mostra o oposto de uma perpetuação automática: mostra a quebra da cadeia de transmissão.

E) o mundo contemporâneo exige a inovação do vocabulário das línguas.

❌ Incorreta: tema ausente do texto. Em nenhum momento o autor fala de "inovação vocabular" como exigência da contemporaneidade; a discussão é sobre a perda (extinção) de um vocábulo já existente por causas sociais, não sobre a criação ou renovação do léxico.

🏆 Gabarito: C — o texto constrói, do início ao fim, a tese de que palavras desaparecem porque falantes as associam a grupos sociais estigmatizados (rurais, pouco escolarizados), e não por razões puramente linguísticas; apenas a alternativa C nomeia essa relação corretamente.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: a alternativa C é a única que capta a relação de causa (preconceito social) e efeito (abandono do vocábulo) que o autor constrói explicitamente no segundo parágrafo do texto.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente textos sobre variação linguística e preconceito linguístico (regionalismos, dialetos, "erro" gramatical, língua e classe social), sempre valorizando a resposta que reconhece a legitimidade das variedades e denuncia o julgamento social por trás da rejeição a certas formas de falar.
  • Generalização: em textos de opinião/reflexão sobre língua, a resposta certa quase sempre reforça a ideia de que "não existe erro linguístico, existe variação com valor social diferente" — desconfie de alternativas que soem prescritivas ("deve-se eliminar", "é preciso corrigir").
  • Dica de eliminação rápida: primeiro, descarte alternativas que contrariam o tom do texto (A, que sugere uma prescrição normativa que o autor critica, e D, que descreve uma continuidade que o texto mostra estar se rompendo); depois, descarte alternativas com temas ausentes ou deslocados (B, que cria uma hierarquia de urgência inexistente; E, que fala de inovação, não de perda).
  • Conexões: compare com outras questões ENEM sobre preconceito linguístico (charges e tirinhas sobre "erro de português"), e com o conceito sociolinguístico de prestígio e estigma (Bagno, Bortoni-Ricardo), tema recorrente em Português no ENEM.

Comunidade Memorize · Grátis

Não perca nenhuma live, aula ou material.

Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.