Mapa de questões · 2º dia
Questão 111 — ENEM 2015Caderno azul · 2º Dia
Ao se apossarem do novo território, os europeus ignoraram um universo de antiga sabedoria, povoado por homens e bens unidos por um sistema integrado. A recusa em se inteirar dos valores culturais dos primeiros habitantes levou-os a uma descrição simplista desses grupos e à sua sucessiva destruição.
Na verdade, não existe uma distinção entre a nossa arte e aquela produzida por povos tecnicamente menos desenvolvidos. As duas manifestações devem ser encaradas como expressões diferentes dos modos de sentir e pensar das várias sociedades, mas também como equivalentes, por resultarem de impulsos humanos comuns.
SCATAMACHIA, M. C. M. In: AGUILAR, N. (Org.). Mostra do redescobrimento: arqueologia. São Paulo: Fundação Bienal de São Paulo – Associação Brasil 500 anos artes visuais, 2000.
De acordo com o texto, inexiste distinção entre as artes produzidas pelos colonizadores e pelos colonizados, pois ambas compartilham o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Artes → Antropologia da Arte e diversidade cultural
- ⚡ Nível: Médio — exige compreensão fina de um argumento antropológico, não apenas localização de informação explícita
- 🎯 Tema/Habilidade: Relativismo cultural e universalidade da produção artística humana (Competência de área de Linguagens: reconhecer manifestações culturais como parte da diversidade do patrimônio humano)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo o texto, qual é o elemento comum que torna a arte dos colonizadores e a dos povos indígenas equivalentes, sem hierarquia entre elas?"
- Palavras-chave decisivas: impulsos humanos comuns, equivalentes, inexiste distinção
- Armadilha típica: confundir "equivalência" com "igualdade de forma ou de técnica" — o candidato tende a marcar respostas ligadas a suporte, tecnologia ou estética, quando o texto fala de algo mais profundo: a origem humana da própria capacidade de criar arte
- O que a resposta precisa demonstrar: entendimento de que o texto rejeita critérios materiais (técnica, suporte, estilo) como parâmetro de comparação e propõe um critério humano/universal como fundamento da equivalência
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Etnocentrismo: visão que toma a própria cultura como referência única e superior para julgar as demais; foi essa lente que levou os europeus a "ignorar" a sabedoria indígena e a produzir uma "descrição simplista" dela.
- Relativismo cultural: perspectiva antropológica (consolidada por autores como Franz Boas) segundo a qual cada cultura deve ser compreendida a partir de seus próprios valores, sem hierarquização entre "mais" ou "menos" desenvolvida.
- Base antropológica da arte: ideia de que toda expressão artística — independentemente da sofisticação técnica ou do contexto histórico — nasce de impulsos humanos universais (a necessidade de simbolizar, comunicar, sentir e pensar o mundo). É esse fundamento comum à espécie humana que iguala, em valor, produções artísticas muito diferentes entre si.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "não existe uma distinção entre a nossa arte e aquela produzida por povos tecnicamente menos desenvolvidos" → o texto já descarta explicitamente o critério tecnológico como fator de diferenciação de valor artístico, embora reconheça a diferença de nível técnico entre os povos.
- Evidência 2: "expressões diferentes dos modos de sentir e pensar das várias sociedades, mas também como equivalentes, por resultarem de impulsos humanos comuns" → aqui está o núcleo argumentativo: a diferença está na forma (modos de sentir e pensar variam de sociedade para sociedade), mas a equivalência está na origem — os "impulsos humanos comuns", ou seja, algo inerente à condição humana, portanto de natureza antropológica.
- Síntese: o texto constrói uma oposição entre "diferentes" (formas culturais específicas) e "equivalentes" (origem humana universal). A pergunta pede exatamente o fundamento da equivalência, que o próprio texto nomeia como "impulsos humanos comuns" — isto é, uma base compartilhada por toda a humanidade enquanto espécie, o que corresponde ao conceito de base antropológica.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o que está sendo comparado
O texto compara duas artes: a "nossa arte" (europeia/ocidental) e "aquela produzida por povos tecnicamente menos desenvolvidos" (indígena). A autora afirma que, apesar de tecnicamente diferentes, não há uma distinção de valor entre elas. É preciso, então, encontrar no próprio texto o motivo dado para essa não distinção — a questão não pede uma opinião externa, mas uma leitura fiel do argumento apresentado.
Subpasso 4.2 — Localizar o argumento-chave
A frase decisiva é: "devem ser encaradas como expressões diferentes dos modos de sentir e pensar das várias sociedades, mas também como equivalentes, por resultarem de impulsos humanos comuns". Note a estrutura em duas camadas:
1) são diferentes porque cada sociedade tem seus próprios modos de sentir e pensar (fator cultural, histórico, específico);
2) são equivalentes porque resultam de impulsos humanos comuns (fator biológico-existencial, universal, próprio da espécie humana).
A pergunta foca exatamente na segunda camada: o que garante a equivalência é esse substrato humano compartilhado — e "impulsos humanos comuns" é, em termos conceituais, uma base antropológica: algo que pertence ao ser humano enquanto tal, antes de qualquer diferença técnica, estética ou cultural.
Subpasso 4.3 — Verificação
Ao testar a expressão "base antropológica" contra o trecho "impulsos humanos comuns", a correspondência é direta: antropologia é, por definição, o estudo do ser humano em sua totalidade — biológica, social e culturalmente. Dizer que a arte "resulta de impulsos humanos comuns" é afirmar precisamente que ela tem uma base antropológica, comum a toda a humanidade, independentemente do grau de desenvolvimento técnico de cada povo. Essa leitura fecha com o gabarito oficial: C.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) suporte artístico.
❌ Incorreta: o texto não menciona materiais, técnicas ou meios físicos (tela, cerâmica, pintura corporal etc.) usados na produção artística. "Suporte" é uma categoria material e formal, ausente da argumentação, que trata de origem humana, não de instrumentos ou materiais de produção.
B) nível tecnológico.
❌ Incorreta: pelo contrário, o texto reconhece explicitamente a diferença de nível tecnológico ao falar em "povos tecnicamente menos desenvolvidos". Esse critério é justamente o que o texto rejeita como parâmetro de comparação de valor — ele existe como diferença, não como fundamento da equivalência.
C) base antropológica.
✅ Correta: é exatamente o que o texto afirma ao dizer que as duas artes "resultam de impulsos humanos comuns". Esse fundamento humano universal — comum a todas as sociedades, independentemente de sua organização técnica ou cultural — é a base antropológica que sustenta a equivalência entre as manifestações artísticas.
D) concepção estética.
❌ Incorreta: o texto afirma o oposto quanto à forma — as artes são "expressões diferentes dos modos de sentir e pensar das várias sociedades", ou seja, cada cultura tem sua própria concepção estética. A equivalência não está na estética (que é variável), mas na origem humana comum (que é universal).
E) referencial temático.
❌ Incorreta: o texto não discute temas, motivos ou assuntos retratados nas obras de arte. Trata-se de uma inferência indevida: não há qualquer menção a conteúdos temáticos compartilhados entre as duas produções artísticas.
🏆 Gabarito: C — o texto localiza a equivalência entre as artes na origem humana comum ("impulsos humanos comuns"), conceito que corresponde diretamente a uma base antropológica compartilhada por todas as sociedades.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a única alternativa que traduz "impulsos humanos comuns" é "base antropológica" — as demais descrevem categorias (suporte, tecnologia, estética, tema) que o texto ou rejeita explicitamente ou simplesmente não aborda.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos de Artes e Antropologia sobre relativismo cultural, valorização de saberes indígenas/afrodescendentes e crítica ao etnocentrismo colonial — sempre pedindo que o candidato identifique o argumento central do autor, não uma opinião pessoal.
- Generalização: em questões de interpretação com base em um único texto argumentativo, a resposta correta quase sempre parafraseia uma expressão-chave do próprio texto; desconfie de alternativas que introduzem categorias (técnica, estética, tema, suporte) não mencionadas ou explicitamente descartadas pelo autor.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa que contradiga uma afirmação explícita do texto (aqui, "nível tecnológico" é descartado na primeira frase) e qualquer alternativa que fale de "diferença" quando a pergunta busca o fator de "equivalência" (aqui, "concepção estética" é justamente o que o texto aponta como diferente entre as sociedades).
- Conexões: relativismo cultural (Franz Boas) e crítica ao etnocentrismo; valorização do patrimônio artístico indígena brasileiro, tema recorrente em questões de Artes e Sociologia do ENEM.
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