Mapa de questões · 2º dia
Questão 91 — ENEM 2015Caderno azul · 2º Dia
Caña
El negro
junto al cañaveral.
El yanqui sobre el cañaveral.
La tierra
bajo el cañaveral.
¡Sangre
que se nos va!
GUILLÉN, N. Sóngoro cosongo. Disponível em: www.cervantesvirtual.com. Acesso em: 28 fev. 2012 (fragmento).
Nesse poema de Nicolás Guillén, no qual o poeta reflete sobre o plantio da cana-de-açúcar na América Latina, as preposições junto, sobre e bajo são usadas para indicar metaforicamente:
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Espanhol → Interpretação de texto poético (valor semântico de preposições)
- ⚡ Nível: Médio — exige ir além da tradução literal e reconhecer o valor metafórico das preposições no contexto sociopolítico do poema.
- 🎯 Tema/Habilidade: Leitura crítica de texto literário em língua estrangeira; identificação de recursos linguísticos a serviço de crítica social.
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que as preposições junto, sobre e bajo representam, metaforicamente, no poema de Nicolás Guillén?"
- Palavras-chave decisivas: metaforicamente, preposições, reflete
- Armadilha típica: ler as preposições apenas no sentido físico-espacial (posição literal no canavial) ou associá-las a lugares geográficos e funções profissionais, ignorando que o poema é uma denúncia social.
- O que a resposta precisa demonstrar: que a organização espacial dos versos (quem está ao lado, acima e abaixo do canavial) traduz uma hierarquia de poder entre pessoas e a terra, não uma descrição neutra de posições físicas.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Poesia negrista/afro-antilhana: movimento literário caribenho do início do século XX (do qual Nicolás Guillén, poeta cubano, é um dos maiores nomes) que valoriza a cultura afrodescendente e denuncia a exploração racial e social herdada da escravidão e do colonialismo.
- Metáfora espacial: recurso estilístico em que posições físicas (em cima, ao lado, embaixo) representam relações abstratas — aqui, hierarquia social e econômica.
- Preposições espanholas em jogo: junto a (proximidade/contato direto), sobre (posição superior, domínio), bajo (posição inferior, subordinação) — usadas com valor conotativo, não apenas locativo.
- Contexto histórico da cana-de-açúcar caribenha: monocultura de exportação controlada por capital estrangeiro (o "yanqui" = os Estados Unidos), sustentada por mão de obra majoritariamente negra herdeira do sistema escravista.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "El negro / junto al cañaveral." → o trabalhador negro está ao lado da lavoura: contato direto com o trabalho braçal, mas sem controle sobre ele.
- Evidência 2: "El yanqui / sobre el cañaveral." → o "yanqui" está sobre o canavial: posição de domínio, propriedade e controle do capital estrangeiro sobre a produção.
- Evidência 3: "La tierra / bajo el cañaveral." → a terra está embaixo, na base: suporte explorado tanto pelo trabalho quanto pelo capital.
- Síntese: as três preposições montam uma pirâmide de poder — yanqui (topo/domínio), negro (lado/trabalho), terra (base/recurso explorado) — revelando que o poema fala de relações sociais desiguais, e não de geografia, diplomacia ou funções de trabalho.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificando o gênero e o contexto de produção
O poema pertence a Sóngoro cosongo (1931), de Nicolás Guillén, um dos maiores expoentes da chamada "poesía negra" ou "poesía negrista" caribenha. Guillén une ritmo afro-cubano à denúncia social, retratando a exploração de trabalhadores negros nas lavouras de cana pelo capital estrangeiro — sobretudo estadunidense — em um período de forte intervencionismo dos EUA em Cuba e no Caribe.
Subpasso 4.2 — Analisando a estrutura sintático-semântica dos versos
O poema se organiza em três díades paralelas, cada uma associando um sujeito a uma preposição espacial + "cañaveral" (canavial):
- Sujeito 1: "El negro" + "junto al" (ao lado de)
- Sujeito 2: "El yanqui" + "sobre" (acima de)
- Sujeito 3: "La tierra" + "bajo" (embaixo de)
Esse paralelismo sintático não é decorativo: repetir a mesma estrutura formal para três sujeitos diferentes reforça, por contraste, a hierarquia entre eles. O canavial funciona como eixo simbólico central em torno do qual se organiza a exploração econômica e social.
Subpasso 4.3 — Verificação: relendo o poema com a chave interpretativa correta
Se as preposições fossem apenas descritivas, o poema terminaria num registro neutro. Mas ele se encerra com "¡Sangre / que se nos va!" — um lamento que rompe o tom descritivo e confirma a leitura de denúncia. Isso mostra que junto, sobre e bajo não indicam apenas posição física: indicam quem trabalha (negro), quem domina e lucra (yanqui) e o que é explorado por ambos (a terra). Essa é exatamente a leitura da alternativa D.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) desordens na organização da lavoura de cana-de-açúcar.
❌ Incorreta: o poema não descreve caos ou desorganização produtiva; ao contrário, as preposições constroem uma hierarquia muito bem definida (topo, meio, base). Confundir hierarquia social com "desordem" ignora a estrutura paralelística clara do texto.
B) relações diplomáticas entre os países produtores de cana-de-açúcar.
❌ Incorreta: não há qualquer menção a Estados ou negociações entre nações; "el yanqui" representa uma figura/classe social (o capital estrangeiro que explora a mão de obra), não um país em relação diplomática com outro.
C) localidades da América Latina nas quais a cana-de-açúcar é cultivada.
❌ Incorreta: as preposições junto, sobre e bajo indicam posição relativa de sujeitos em torno do canavial, não nomes de lugares ou regiões geográficas distintas; o poema não cita nenhuma localidade específica.
D) relações sociais dos indivíduos que vivem do plantio da cana-de-açúcar.
✅ Correta: a disposição espacial — o negro ao lado (trabalho braçal direto), o yanqui acima (domínio do capital estrangeiro) e a terra embaixo (base explorada) — constrói metaforicamente a hierarquia social e de poder entre quem trabalha, quem lucra e o que é explorado na produção canavieira, denunciando a desigualdade herdada do colonialismo.
E) funções particulares de cada profissional na lavoura da cana-de-açúcar.
❌ Incorreta: o poema não descreve tarefas técnicas de profissionais (cortador, capataz, engenheiro etc.); "el negro" e "el yanqui" não são cargos da lavoura, mas representações de grupos sociais em relação de poder desigual.
🏆 Gabarito: D — as preposições espaciais revelam, por metáfora, a hierarquia social entre o trabalhador negro, o capital estrangeiro (yanqui) e a terra latino-americana explorada.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: só a alternativa D capta o sentido metafórico do poema — usar posição espacial para representar posição social/de poder, e não geografia, diplomacia, desordem ou funções profissionais.
- Padrão de cobrança: o ENEM, em espanhol/língua estrangeira, costuma trazer textos literários (poemas, crônicas) que exigem leitura além do nível literal — reconhecer o valor conotativo de recursos linguísticos (preposições, tempos verbais, escolhas lexicais) a serviço de uma crítica social, histórica ou política.
- Generalização: em poesia engajada (poesia social, negrista, de protesto), qualquer recurso formal — sintaxe, repetição, preposição, pontuação — tende a carregar sentido simbólico ligado ao tema de denúncia; sempre pergunte "o que esse recurso representa além do literal?"
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que citem elementos ausentes do texto (países/diplomacia em B, locais geográficos em C) e alternativas que contradigam o tom de lamento/denúncia do poema (a "desordem" da alternativa A não combina com "¡Sangre que se nos va!").
- Conexões: poesia afro-antilhana e negrismo caribenho (Nicolás Guillén, Luis Palés Matos); crítica ao imperialismo estadunidense na América Latina, tema recorrente também em História e Geografia do ENEM.
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