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Mapa de questões · 2º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 99ENEM 2016 Reaplicação

Casamento Há mulheres que dizem: Meu marido, se quiser pescar, pesque, mas que limpe os peixes. Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar. É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha, de vez em quando os cotovelos se esbarram, ele fala coisas como “este foi difícil” “prateou no ar dando rabanadas” e faz o gesto com a mão. O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo. 3RU¿PRVSHL[HVQDWUDYHVVD vamos dormir. Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva.

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → interpretação de poema lírico contemporâneo
  • ⚡ Nível: Médio — exige captar sentido conotativo e simbólico além da leitura literal da cena doméstica
  • 🎯 Tema/Habilidade: Construção de sentido em texto poético a partir de recursos expressivos (H1/H4 da Matriz de Linguagens — reconhecer e analisar recursos de construção do texto literário)
  • 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "No poema 'Casamento', de Adélia Prado, qual o sentido do ato de o casal limpar os peixes juntos, a qualquer hora da noite?"
  • Palavras-chave decisivas: cumplicidade, noivo e noiva, rio profundo
  • Armadilha típica: confundir o gesto concreto (limpar peixe) com uma simples descrição de tarefa doméstica ou de papel de gênero, sem perceber que o poema o transforma em símbolo da relação
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de ler além do plano literal, identificando que a cena cotidiana representa metaforicamente a renovação do vínculo afetivo do casal

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Eu lírico em 1ª pessoa: quem fala no poema é a esposa; toda a cena é filtrada pelo olhar e pelo desejo dela, não por uma exigência externa — isso é decisivo para descartar leituras de "imposição" ou "expectativa alheia".
  • Poética do cotidiano (Adélia Prado): a autora é conhecida por elevar gestos triviais (cozinhar, limpar peixe, o silêncio na cozinha) à condição de experiência quase sagrada — o banal vira rito de intimidade.
  • Metáfora e comparação: "o silêncio... atravessa a cozinha como um rio profundo" liga o presente doméstico ao momento fundador do casal ("quando nos vimos a primeira vez"), sugerindo continuidade e aprofundamento do laço.
  • Tempo verbal e identidade final: o poema fecha no presente — "somos noivo e noiva" — não no passado ("fomos"), indicando que o casamento se renova, não envelhece.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Eu não. A qualquer hora da noite me levanto, ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar." → contraponto às "outras mulheres" do início: ela não impõe a tarefa ao marido nem se isenta dela — participa por escolha, o que já elimina a ideia de obrigação ou imposição.
  • Evidência 2: "só a gente sozinhos na cozinha, de vez em quando os cotovelos se esbarram" → proximidade física discreta que constrói clima de intimidade e cumplicidade, não de conflito ou divisão de papéis.
  • Evidência 3: "O silêncio de quando nos vimos a primeira vez atravessa a cozinha como um rio profundo" → o gesto presente resgata e atualiza a memória afetiva da origem da relação — o casamento se revigora através do cotidiano.
  • Evidência 4: "Coisas prateadas espocam: somos noivo e noiva." → conclusão do poema: a tarefa doméstica compartilhada culmina na reafirmação identitária do casal como noivos, isto é, na consagração simbólica do compromisso conjugal.
  • Síntese: cada evidência reforça a mesma direção — o ritual de limpar os peixes juntos não é sobre divisão de tarefas nem sobre atender expectativas, mas sobre celebrar e renovar a cumplicidade construída ao longo do casamento.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Identificar o contraste inicial do poema

O poema abre com a fala de "outras mulheres", que separam claramente as tarefas: o marido pesca, mas deve limpar sozinho o que pescou ("mas que limpe os peixes"). Essa é a voz da divisão e da cobrança. Logo em seguida, a eu-lírica rompe esse padrão com um "Eu não" categórico — ela se levanta a qualquer hora para ajudar. Esse contraste mostra que o poema não trata de imposição, mas do oposto: uma adesão voluntária e afetuosa à rotina do outro.

Subpasso 4.2 — Ler os detalhes sensoriais como construção de intimidade

Os "cotovelos que se esbarram", a fala do marido descrevendo o peixe ("prateou no ar dando rabanadas") e o gesto que ele faz com a mão são pequenos detalhes que compõem uma cena de cumplicidade silenciosa e cotidiana. Não há diálogo grandioso — há presença, atenção mútua e cumplicidade nos gestos miúdos, típicos da poética de Adélia Prado, que sacraliza o doméstico.

Subpasso 4.3 — Verificação: a metáfora do rio e o desfecho

A comparação do silêncio com "um rio profundo" que atravessa a cozinha remete ao primeiro encontro do casal, unindo passado e presente numa mesma emoção. O poema se encerra com "somos noivo e noiva" — verbo no presente, reforçando que aquele instante doméstico (limpar peixes juntos, comer, dormir) é, na verdade, uma reedição do compromisso do casamento. Confrontando essa leitura com as alternativas, apenas a opção que fala em "consagração da cumplicidade no casamento" traduz esse sentido de renovação simbólica do vínculo — confirmando o caminho da resposta.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) expectativa do marido em relação à esposa.

❌ Incorreta: o poema é narrado pela esposa em 1ª pessoa e descreve uma escolha dela ("Eu não. A qualquer hora... me levanto"); não há qualquer indício de que ela esteja atendendo a uma expectativa do marido — pelo contrário, é ela quem toma a iniciativa espontaneamente.

B) imposição dos afazeres conjugais.

❌ Incorreta: essa é justamente a lógica das "outras mulheres" citadas no início do poema ("meu marido... que limpe os peixes"), que a eu-lírica rejeita explicitamente com "Eu não". A ideia de imposição é o contraponto que o poema desconstrói, não o que ele afirma.

C) disposição para realizar tarefas masculinas.

❌ Incorreta: embora a esposa de fato participe de uma tarefa tradicionalmente associada à pesca (universo masculino), reduzir o poema a essa leitura é ficar no plano literal da cena, ignorando o efeito poético central — a metáfora do rio, o silêncio compartilhado e o desfecho "somos noivo e noiva", que apontam para significado simbólico, não para uma discussão sobre papéis de gênero.

D) dissonância entre as vozes masculina e feminina.

❌ Incorreta: o poema constrói exatamente o oposto de uma dissonância — harmonia, sintonia e silêncio cúmplice entre o casal. Não há vozes em conflito; há gestos e silêncios que se completam ("os cotovelos se esbarram", "o silêncio... atravessa a cozinha").

E) forma de consagração da cumplicidade no casamento.

✅ Correta: o ato voluntário de limpar os peixes juntos, embalado por proximidade física, memória afetiva (o rio profundo do primeiro encontro) e o desfecho no presente ("somos noivo e noiva"), transforma uma tarefa doméstica banal em ritual simbólico de renovação e consagração do compromisso conjugal — exatamente o sentido que a alternativa expressa.

🏆 Gabarito: E — o poema eleva o gesto cotidiano de limpar peixes a um rito de intimidade que reafirma e consagra a cumplicidade do casal, culminando na declaração "somos noivo e noiva".

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a letra E dá conta do movimento completo do poema — da recusa da imposição inicial à intimidade silenciosa e, por fim, à renovação simbólica do casamento; as demais alternativas capturam, no máximo, um detalhe isolado ou invertem o sentido do texto.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa poemas curtos e cenas cotidianas (Adélia Prado, Carlos Drummond, Manuel Bandeira) para testar se o candidato consegue ir do plano literal (o que acontece na cena) ao plano simbólico (o que a cena significa).
  • Generalização: em questões de interpretação poética, a alternativa correta quase sempre é a que conecta os detalhes concretos do texto a um sentido mais amplo (afetivo, existencial, social) sugerido por metáforas e pelo desfecho do poema — nunca a que apenas descreve a superfície da cena.
  • Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que contradizem trechos explícitos do texto (aqui, B contradiz o "Eu não" e D contradiz o clima de silêncio cúmplice); depois, entre as restantes, prefira a que dialoga com a metáfora central e com a última frase do poema.
  • Conexões: compare com outras questões sobre a poesia do cotidiano de Adélia Prado e com textos que tematizam o casamento como processo contínuo de reconstrução do afeto, não como estado estático conquistado apenas no dia do casamento.

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