Mapa de questões · 2º dia
Questão 110 — ENEM 2016 Reaplicação
Os que fiam e tecem unem e ordenam materiais dispersos que, de outro modo, seriam vãos ou quase. Pertencem à mesma linhagem FIANDEIRA CARNEIRO FUSO LÃ dos geômetras, estabelecem leis e pontos de união para o desuno. Antes do fuso, das rocas, do tear, das invenções destinadas a estender LÃ LINHO CASULO ALGODÃO LÃ os fios e cruzá-los, o algodão, a seda, era como se ainda estivessem TECedeira URDIDURA TEAR LÃ imersos no limbo, nas trevas do informe. É o apelo à ordem que os traz à claridade, transforma-os em obras, portanto em objetos humanos, iluminados pelo espírito do homem. Não é por ser-nos úteis LÃ TRAMA CROCHÊ DESENHO LÃ que o burel ou o linho representam uma vitória do nosso engenho; TAPECEIRA BASTIDOR ROCA LÃ sim por serem tecidos, por cantar neles uma ordem, o sereno, o firme e rigoroso enlace da urdidura, das linhas enredadas. Assim é que LÃ COSER AGULHA CAPUCHO LÃ que suas expressões mais nobres são aquelas em que, com ainda maior disciplina, floresce o ornamento: no crochê, no tapete, FIANDEIRA CARNEIRO FUSO LÃ no brocado. Então, é como se por uma espécie de alquimia, de álgebra, de mágica, algodões e carneiros, casulos, LÃ TRAMA CASULO CAPUCHO LÃ campos de linho, novamente surgissem, com uma vida menos rebelde, porém mais perdurável.
LINS, O. Nove, novena: narrativas. São Paulo: Cia. das Letras, 1998.
No trecho, retirado do conto Retábulo de Santa Joana Carolina, de Osman Lins, a fim de expressar uma ideia relativa à literatura, o autor emprega um procedimento singular de escrita, que consiste em
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da questão
- Matéria: Português → Leitura de texto literário → recursos gráfico-espaciais
- Habilidade: H16 — relacionar informações sobre concepções artísticas e uso de recursos expressivos dos diferentes gêneros
- Nível: Médio — o recurso está à vista na página, mas é preciso relacionar o que se vê com o que o texto afirma
- Gabarito: revelado no Passo 4
🔎 Passo 1 — Leitura estratégica do comando
- O comando, em uma linha: que recurso de construção o autor emprega e com que finalidade.
- Palavras-chave decisivas: termos destacados, disposição no corpo do texto, efeito produzido.
- A armadilha: tratar as palavras em caixa alta como ruído. Elas cortam frases pelo meio, quebram a leitura corrida e parecem jogadas ao acaso — daí a tentação de marcar a alternativa que fala em desordem. Só que todas pertencem ao mesmo campo, o da fiação e da tecelagem, e o texto inteiro é um elogio à ordem.
- O que a resposta precisa mostrar: que você lê o texto em dois planos ao mesmo tempo — o que ele diz e como ele se dispõe na página — e percebe que os dois dizem a mesma coisa.
📚 Passo 2 — Revisão do conteúdo
- Recurso gráfico-espacial: uso da forma visual do texto — disposição das linhas, tipografia, espaçamento, cor, caixa alta — como parte do sentido. A página deixa de ser suporte neutro e passa a significar junto com as palavras.
- Iconicidade: relação em que a forma imita aquilo que representa. Um texto sobre tecelagem cujas palavras se cruzam como fios é icônico: ele não apenas descreve a trama, ele a exibe.
- Urdidura e trama: os dois conjuntos de fios de um tecido. A urdidura são os fios fixos, esticados no tear no sentido do comprimento; a trama são os fios que passam por cima e por baixo deles, de um lado a outro, repetidas vezes. É o vaivém da trama que prende tudo — e é ele que o texto imita.
- Metalinguagem: quando o texto fala do próprio fazer. Aqui o escritor descreve o ofício de fiar e tecer para falar, por analogia, do ofício de escrever: ordenar material disperso até que ele vire obra.
🧭 Passo 3 — Decodificação do enunciado
- Evidência 1: "Os que fiam e tecem unem e ordenam materiais dispersos que, de outro modo, seriam vãos ou quase" → a tese do texto está na primeira linha: tecer é dar ordem ao disperso.
- Evidência 2: "Pertencem à mesma linhagem dos geômetras, estabelecem leis e pontos de união para o desuno" → o tecelão é aproximado do geômetra. A palavra que organiza tudo é lei, não acaso.
- Evidência 3: "É o apelo à ordem que os traz à claridade, transforma-os em obras, portanto em objetos humanos" → a ordem é o que converte matéria bruta em obra. Quem lesse os termos destacados como desordem estaria contrariando a frase central do texto.
- Evidência 4: os blocos em caixa alta atravessam o texto em intervalos regulares — FIANDEIRA CARNEIRO FUSO LÃ, depois LÃ LINHO CASULO ALGODÃO LÃ, depois TECEDEIRA URDIDURA TEAR LÃ, e assim por diante → são dezenove termos, todos do universo do fiar e do tecer: matéria-prima (LÃ, LINHO, ALGODÃO, CASULO), instrumentos (FUSO, ROCA, TEAR, AGULHA, BASTIDOR), agentes (FIANDEIRA, TECEDEIRA, TAPECEIRA) e produtos ou operações (TRAMA, URDIDURA, CROCHÊ, DESENHO, COSER, CAPUCHO). Não há um único termo fora do campo.
- Evidência 5: a palavra LÃ reaparece abrindo e fechando quase todos os blocos → é o fio que retorna, o vaivém da trama sobre a urdidura. A repetição em intervalo fixo é o que produz o efeito visual de tecido.
- Evidência 6: "sim por serem tecidos, por cantar neles uma ordem, o sereno, o firme e rigoroso enlace da urdidura, das linhas enredadas" → o texto nomeia o próprio procedimento. As linhas enredadas de que ele fala são também as suas.
- Síntese: o conteúdo elogia a ordem que o tecer impõe ao disperso, e a forma reproduz essa ordem, cruzando o texto corrido com fios de palavras que retornam periodicamente.
🧠 Passo 4 — Resolução passo a passo
4.1 — Verificar o campo semântico dos termos destacados
Todos os dezenove termos pertencem à fiação e à tecelagem. Nenhum é estranho ao assunto. Isso derruba, de saída, qualquer leitura que os trate como aleatórios ou desconexos.
4.2 — Verificar a disposição deles na página
Os blocos não aparecem em qualquer ponto: eles cortam o texto em intervalos regulares, sempre no meio das frases, e quase sempre delimitados pela palavra LÃ. Visualmente, formam faixas que atravessam a mancha de texto de lado a lado — como fios que passam por cima e por baixo das linhas escritas.
O paralelo é exato: as linhas do texto funcionam como urdidura, os blocos destacados como trama, e a LÃ que retorna é o fio que faz o vaivém.
4.3 — Ligar forma e conteúdo
O texto afirma que tecer é impor ordem ao material disperso e que a nobreza da peça está no "firme e rigoroso enlace da urdidura". A disposição gráfica encena essa afirmação: a página é ela mesma um tecido. E como o autor fala de tecer para falar do trabalho de compor, o resultado aponta para o ofício do escritor.
4.4 — Verificação
O recurso é entremear o texto com termos do universo do tecer, dispostos de modo a evocar visualmente uma trama, e o alvo dessa evocação é o próprio ato de escrever. Gabarito: A.
✅❌ Passo 5 — Análise das alternativas
✅ (A) entremear o texto com termos destacados que se referem ao universo do tecer e remetem visualmente à estrutura de uma trama, tecida com fios que retornam periodicamente, para aludir ao trabalho do escritor — descreve com precisão as três camadas do recurso. Os termos são todos do campo do tecer, sem exceção; eles atravessam o texto em intervalos regulares, com LÃ retornando como o fio da trama; e a analogia entre tecer e escrever é a tese do texto, que trata o tecelão como quem "ordena materiais dispersos" e o aproxima do geômetra.
❌ (B) entrecortar a progressão do texto com termos destacados, sem relação com o contexto, que tornam evidente a desordem como princípio maior da sua proposta literária — erra nos dois pontos que decidem a questão. Os termos têm relação estreitíssima com o contexto: são todos do vocabulário da tecelagem. E o princípio defendido é o oposto da desordem — "É o apelo à ordem que os traz à claridade".
❌ (C) insinuar, pela disposição de termos destacados, dos quais um forma uma coluna central no corpo do texto, que a atividade de escrever remete à arte ornamental do escultor — troca o ofício. O texto fala de fiar, tecer, bordar e fazer crochê; escultor não aparece em lugar nenhum, e o ornamento citado é o do brocado e do tapete. Além disso, os termos formam faixas horizontais que cortam as linhas, não uma coluna vertical central.
❌ (D) dissertar à maneira de um cientista sobre os fenômenos da natureza, recriminando-a por estar perpetuamente em desordem e não criar concatenação entre eles — extrapola em recriminação. O texto diz que o algodão e a seda, antes do fuso, eram "como se ainda estivessem imersos no limbo, nas trevas do informe" — uma constatação sobre a matéria não trabalhada, não uma censura à natureza. E a comparação feita é com o geômetra, dentro de um texto literário, não com o cientista que descreve fenômenos.
❌ (E) confrontar, por meio dos termos destacados, o ato de escrever à atividade dos cientistas modernos e dos alquimistas antigos, mostrando que esta é muito superior à do escritor — inventa uma hierarquia que o texto não estabelece. A alquimia entra como comparação, e apenas no fecho: "é como se por uma espécie de alquimia, de álgebra, de mágica". Comparar não é subordinar, e em nenhum momento se afirma superioridade de um ofício sobre o outro.
Gabarito: A — os termos destacados são todos do universo do tecer e se distribuem como fios que retornam, fazendo da página um tecido e associando o trabalho do tecelão ao do escritor.
🏁 Passo 6 — Generalização e dica de prova
- Por que só A se sustenta: as outras quatro contrariam algum dado verificável — o campo semântico dos termos, a tese do texto sobre a ordem, o ofício de que se fala ou a existência de uma hierarquia entre ofícios.
- Como o ENEM cobra isso: em texto com recurso visual, a prova pede que se leia a forma como parte do sentido. A pergunta padrão é "o autor optou por" ou "o efeito produzido é", e a resposta certa quase sempre une o que se vê ao que se diz.
- A regra geral: quando a disposição gráfica imita o assunto tratado, o item é de iconicidade. Verifique se a forma reproduz o conteúdo antes de considerar a hipótese de acaso ou de desordem.
- Eliminação em 30 segundos: leia só os termos em caixa alta. Se todos pertencerem ao mesmo campo, toda alternativa que os chame de aleatórios, desconexos ou desordenados cai imediatamente.
- Temas que costumam vir junto: poesia concreta, caligrama, metalinguagem, funções da linguagem e a analogia entre texto e tecido, que está na origem da própria palavra "texto".
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