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Mapa de questões · 2º dia
LinguagensPortuguêsMédio

Questão 109ENEM 2016 Reaplicação

Noites do Bogart

O Xavier chegou com a namorada mas, prudentemente, não a levou para a mesa com o grupo. Apanhou de longe. Na mesa, as opiniões se dividiam.

— Pouca vergonha.
— Deixa o Xavier.
— Podia ser a filha dele.
— Aliás, é colega da filha dele.

Na sua mesa, o Xavier pegara na mão da moça.

— Está gostando?
— Pô. Só.

— Chocante, né? — disse o Xavier. E depois ficou na dúvida. Ainda se dizia “chocante”?

Beberam em silêncio. E ele disse:

— Quer dançar?

E ela disse, sem pensar:

— Depois, tio.

E ficaram em silêncio. Ela pensando “será que ele ouviu?”. E ele pensando “faço algum comentário a respeito, ou deixo passar?”. Decidiu deixar passar. Mas, pelo resto da noite aquele “tio” ficou em cima da mesa, entre os dois, latejando como um sapo. Ele a levou em casa. Depois voltou. Sentou com os amigos.

— Aí, Xavier. E a namorada?

Ele não respondeu.

VERÍSSIMO, L. F. O melhor das comédias da vida privada. Rio de Janeiro: Objetiva, 2004.

O efeito de humor no texto é produzido com o auxílio da quebra de convenções sociais de uso da língua. Na interação entre o casal de namorados, isso é decorrente

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de Texto Literário e Registro/Variação Linguística
  • ⚡ Nível: Médio — exige diferenciar a causa real do desconforto do casal de uma armadilha textual muito plausível (o julgamento dos amigos na mesa vizinha)
  • 🎯 Tema/Habilidade: Adequação do registro linguístico à situação de comunicação (competência de leitura em Linguagens, Códigos e suas Tecnologias)
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Explique a que se deve o clima de estranhamento/desconforto instalado entre Xavier e a namorada logo após o convite para dançar."
  • Palavras-chave decisivas: "tio", "sem pensar", "latejando como um sapo"
  • Armadilha típica: transferir para o casal o julgamento que os amigos fazem na outra mesa (se a namorada "podia ser filha dele"), confundindo duas cenas distintas do conto.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar que o desconforto nasce de uma escolha vocabular — o tratamento "tio" — incompatível com o tom romântico do momento, e não de um julgamento externo, de uma gíria "deformada" ou de uma negociação formal do relacionamento.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Registro linguístico: grau de formalidade/informalidade que a língua assume conforme o contexto, o interlocutor e a intenção comunicativa; não é "certo" ou "errado" gramaticalmente, mas adequado ou inadequado à situação.
  • Adequação linguística (pragmática): o mesmo item lexical pode funcionar perfeitamente em um contexto e soar deslocado em outro — o sentido de uma palavra depende de quem fala, para quem e em que circunstância afetiva/social.
  • Tratamento informal ("tio"/"tia"): em português brasileiro coloquial, esse vocativo costuma marcar proximidade descompromissada entre pares (amigos, colegas) ou até distanciamento irônico — sentido oposto ao clima de intimidade que um convite para dançar pressupõe.
  • Recurso expressivo (personificação/metáfora): a imagem "aquele 'tio' ficou em cima da mesa entre os dois, latejando como um sapo" transforma a palavra em presença física incômoda, sinalizando ao leitor que o problema é exatamente aquele termo, não o convite em si.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "— Quer dançar?" → convite direto, de tom afetivo/sedutor; a cena pede reciprocidade emocional entre os dois.
  • Evidência 2: "E ela disse, sem pensar: — Depois, tio." → resposta automática, não premeditada ("sem pensar"), em que o vocativo "tio" rompe o registro esperado para uma investida romântica.
  • Evidência 3: "Ficaram em silêncio. Ela pensando 'será que ele ouviu?'. E ele pensando 'faço algum comentário a respeito, ou deixo passar?'... aquele 'tio' ficou em cima da mesa entre os dois, latejando como um sapo." → o narrador concentra toda a tensão na palavra "tio", não em qualquer comentário de terceiros.
  • Síntese: o incômodo do casal decorre de uma palavra fora do tom (registro) esperado numa aproximação romântica — não de julgamento alheio, nem de discussão formal sobre a relação, nem de gíria distorcida.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Reconhecer o gênero e a situação comunicativa

O texto é uma crônica narrativa (de Luis Fernando Verissimo, "Noites do Bogart") organizada em duas cenas concêntricas: (1) os amigos na mesa comentam, à distância, se a namorada de Xavier "podia ser filha dele"; (2) na própria mesa do casal, Xavier e a moça vivem um momento de aproximação física e verbal. A questão foca exclusivamente na cena 2 — é ali, entre os dois, que o desconforto nasce e se desenvolve.

Subpasso 4.2 — Isolar o evento-gatilho do desconforto

Xavier pergunta "Quer dançar?" — um convite de teor romântico, que pede uma resposta no mesmo registro afetivo. A moça responde "Depois, tio", usando um vocativo tipicamente empregado entre amigos ou conhecidos sem envolvimento amoroso (equivalente, em efeito, a chamar alguém de "cara" ou "chefe" em vez de usar um tom íntimo). Esse tratamento quebra a expectativa de registro da cena: numa investida romântica, "tio" soa como se ela o colocasse na posição de alguém distante, quase familiar/assexuado — o oposto do clima que o convite buscava construir.

Subpasso 4.3 — Verificação

O próprio texto confirma essa leitura: ambos ficam em silêncio; ela se pergunta se ele ouviu; ele avalia se comenta ou deixa passar; e a palavra "tio" é descrita como algo que fica fisicamente pairando "em cima da mesa... latejando como um sapo" pelo resto da noite. Nenhuma dessas reações remete a um julgamento de terceiros (isso já havia acontecido, e passara, na cena dos amigos) nem a uma conversa formal sobre o namoro — remete unicamente ao estranhamento causado por uma palavra fora do registro esperado. Isso confirma a alternativa A.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) do registro inadequado para a interlocução em contexto romântico.

✅ Correta: o vocativo "tio", usado "sem pensar" logo após um convite para dançar, representa exatamente um registro linguístico incompatível com o tom íntimo/romântico que a cena exige — é essa inadequação que gera o silêncio incômodo e a metáfora do sapo latejando entre os dois.

B) da iniciativa em discutir formalmente a relação amorosa.

❌ Incorreta: não há, em nenhum momento, uma discussão formal sobre o relacionamento. Pelo contrário: os dois evitam o assunto — ele "decidiu deixar passar" — o que é o inverso de uma iniciativa de discussão explícita.

C) das avaliações de escolhas lexicais pelos frequentadores do bar.

❌ Incorreta: quem avalia escolhas (no caso, a possível idade da namorada) são os amigos da outra mesa, numa cena anterior e à distância. Essa avaliação não chega a Xavier e à namorada nem é a causa do desconforto entre os dois — trata-se de um episódio textual diferente, usado como distrator.

D) das gírias distorcidas intencionalmente na fala do namorado.

❌ Incorreta: primeiro, "tio" não é uma gíria "distorcida" — é usada em sua forma corrente e reconhecível; segundo, quem a emprega é a namorada, não "o namorado" (Xavier); não há qualquer indício de distorção proposital de linguagem no conto.

E) do uso de expressões populares nas investidas amorosas do homem.

❌ Incorreta: inverte o agente do problema. A fala de Xavier na investida ("Quer dançar?") é simples e direta, sem gírias; é a resposta da moça que introduz o termo informal "tio", e o faz de modo automático, não como parte de uma "investida" dele.

🏆 Gabarito: A — o desconforto do casal nasce do descompasso entre o registro romântico esperado no convite para dançar e o tratamento informal "tio", empregado sem reflexão pela moça, que rompe o tom da cena e gera o silêncio constrangedor descrito pelo narrador.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: só a alternativa A explica, com base em evidências textuais diretas (o silêncio, as dúvidas internas de ambos, a metáfora do "tio... latejando como um sapo"), a origem do desconforto — as demais descrevem eventos que ou não ocorrem no texto, ou pertencem a outra cena, ou invertem quem fala o quê.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente testa a habilidade de reconhecer como a língua se adapta (ou falha em se adaptar) ao contexto comunicativo — pedindo que o candidato explique efeitos de humor, constrangimento ou ironia gerados por um desalinhamento de registro entre falantes.
  • Generalização: diante de cenas de diálogo em textos literários, pergunte sempre "quem fala, para quem, em que relação social e em que tom emocional a cena pede" — o sentido de uma palavra "certa" no dicionário pode estar "errada" (inadequada) para aquele contexto específico.
  • Dica de eliminação rápida: descarte alternativas que dependem de um evento não narrado (como "discussão formal", em B), que atribuem a fala a um personagem errado (E, que credita ao homem o que foi dito pela mulher) ou que inventam uma característica não sustentada pelo texto (D, "distorção" de gíria que simplesmente não ocorre).
  • Conexões: o mesmo raciocínio aparece em questões sobre variação linguística diastrática (fala formal x informal conforme o grupo social) e sobre funções da linguagem — aqui, a função fática (manter o contato/clima entre os interlocutores) é interrompida justamente pela escolha vocabular inadequada.

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