Mapa de questões · 2º dia
Questão 121 — ENEM 2016 Reaplicação
Receitas de vida por um mundo mais doce
Pé de moleque
Ingredientes
2 filhos que não param quietos
3 sobrinhos da mesma espécie
1 cachorro que adora uma farra
1 fim de semana ao ar livre
Preparo
Junte tudo com os ingredientes do Açúcar Naturale, mexa bem e deixe descansar. Não as crianças, que não vai adiantar. Sirva imediatamente, porque pé de moleque não para. Quer essa e outras receitas completas? Entre no site acucarnaturale.com.br.
Onde tem doce, tem Naturale.
Revista Saúde, n. 351, jun. 2012 (adaptado).
O texto é resultante do hibridismo de dois gêneros textuais. A respeito desse hibridismo, observa-se que a
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da questão
- Matéria: Português → Gêneros textuais → hibridismo de gêneros na publicidade
- Habilidade: H18 — identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros
- Nível: Médio — reconhecer que há mistura de gêneros é imediato; o item cobra saber qual gênero está a serviço de qual
- Gabarito: revelado no Passo 4
🔎 Passo 1 — Leitura estratégica do comando
- O comando, em uma linha: como se organiza a mistura entre receita e propaganda neste texto.
- Palavras-chave decisivas: o item pede a direção da hibridação — quem assume a forma de quem, e com que finalidade.
- A armadilha: inverter os papéis. Duas alternativas afirmam que a receita usa a propaganda ou que a receita está a serviço da propaganda de um jeito equivocado. O texto é uma peça publicitária do começo ao fim; a receita é a roupagem, não o conteúdo real.
- O que a resposta precisa mostrar: que você identifica o gênero dominante pela finalidade do texto, e não pela aparência dele.
📚 Passo 2 — Revisão do conteúdo
- Gênero textual: forma relativamente estável de texto, definida pela situação em que circula e pela finalidade que cumpre. Receita tem por finalidade instruir o preparo de um prato; propaganda tem por finalidade persuadir alguém a consumir.
- Hibridismo (ou intergenericidade): um gênero assume a forma de outro, mantendo a própria função. A forma é emprestada; a finalidade permanece. Esse descompasso entre aparência e propósito é o que produz o efeito criativo.
- Como identificar o gênero dominante: pergunte para que o texto existe. Se ele existe para vender, é propaganda — mesmo escrito em versos, em forma de bula, de currículo ou de receita. A finalidade prevalece sobre o formato.
- Função conativa (ou apelativa): centrada no interlocutor, marcada por verbos no imperativo e por interpelação direta. Aparece tanto na receita ("junte", "mexa", "sirva") quanto na propaganda ("entre no site") — e é essa coincidência que torna a receita um disfarce tão conveniente para o anúncio.
- Slogan: frase curta, memorizável, que fecha a peça e fixa a marca. Sua presença é uma das assinaturas mais seguras do gênero propaganda.
🧭 Passo 3 — Decodificação do enunciado
- Evidência 1 (forma): "Ingredientes" e "Preparo", com quantidades e itens listados — "3 sobrinhos da mesma espécie", "1 cachorro que adora uma farra" → a estrutura visual e as seções são as da receita culinária, inclusive o título do prato, "Pé de moleque".
- Evidência 2 (conteúdo dos ingredientes): nenhum item da lista é comestível. Sobrinhos, cachorro e fim de semana ao ar livre não entram em pé de moleque nenhum. Se a receita fosse mesmo receita, seria impossível executá-la.
- Evidência 3 (a marca dentro do preparo): "Junte tudo com os ingredientes do Açúcar Naturale" → o produto anunciado é inserido no meio do modo de fazer, no lugar em que uma receita traria um ingrediente real. É o momento exato em que a propaganda se revela.
- Evidência 4 (chamada para ação): "Quer essa e outras receitas completas? Entre no site cianaturale.com.br." → o texto admite que a receita apresentada não é completa e redireciona o leitor para o canal da empresa. Nenhuma receita de verdade se declara incompleta.
- Evidência 5 (slogan): "Onde tem doce, tem Naturale." → fecho publicitário clássico, associando a marca a uma categoria inteira de produtos. Receita não tem slogan.
- Síntese: a forma é de receita; a finalidade — vender açúcar de uma marca específica — é de propaganda. Marca no meio do preparo, chamada para o site e slogan no fim não deixam dúvida sobre quem manda no texto.
🧠 Passo 4 — Resolução passo a passo
4.1 — Separar o que é forma do que é função
Monte duas listas:
- O que vem da receita (forma): título do prato; seção "Ingredientes"; seção "Preparo"; quantidades numeradas; verbos no imperativo — "Junte", "mexa", "deixe descansar", "Sirva".
- O que vem da propaganda (função): o nome do produto no modo de fazer; o convite para acessar o site; o endereço eletrônico; o slogan final; e o título geral, "Receitas de vida por um mundo mais doce", que associa a marca a um valor afetivo.
Tudo o que define para que o texto serve está na segunda lista.
4.2 — Testar a hipótese contrária
Suponha, por um instante, que o texto seja mesmo uma receita. Então ele deveria ser executável. Mas os ingredientes não são alimentos, o preparo brinca com o duplo sentido — "deixe descansar. Não as crianças, que não vai adiantar" — e o próprio texto informa que a receita completa está em outro lugar. A hipótese não se sustenta: como receita, o texto falha em tudo; como anúncio, funciona perfeitamente.
4.3 — Nomear a direção da hibridação
A propaganda é o gênero que existe; a receita é a máscara que ele veste. A escolha não é gratuita: o formato de receita evoca cozinha, família e afeto — exatamente o campo em que a marca de açúcar quer ser lembrada —, e ainda garante que o leitor percorra o texto até o fim, porque receita se lê até o último passo.
4.4 — Verificação
A alternativa correta precisa dizer três coisas: que o gênero dominante é a propaganda; que ela assume a forma da receita; e que a finalidade é divulgar um produto. Gabarito: C.
✅❌ Passo 5 — Análise das alternativas
❌ (A) receita mistura-se ao gênero propaganda com a finalidade de instruir o leitor — Erra nos dois pontos. Coloca a receita como gênero de partida, quando ela é a forma emprestada, e atribui ao texto a finalidade de instruir. Instruir é a função da receita culinária de verdade — e este texto não instrui nada: seus ingredientes não são alimentos e ele mesmo avisa que a versão completa está no site da empresa.
❌ (B) receita é utilizada no gênero propaganda a fim de divulgar exemplos de vida — A primeira metade chega perto: a receita é de fato utilizada dentro de uma propaganda. A segunda metade extrapola. "Exemplos de vida" é inferência solta a partir do título "Receitas de vida", e a peça não narra nem propõe modelo de conduta algum. O que ela divulga é um produto: o Açúcar Naturale, citado no preparo, no endereço do site e no slogan.
✅ (C) propaganda assume a forma do gênero receita para divulgar um produto alimentício — Descreve a hibridação na direção correta. O gênero que organiza o texto é a propaganda, identificável pela marca inserida no modo de preparo — "Junte tudo com os ingredientes do Açúcar Naturale" —, pela chamada "Entre no site cianaturale.com.br" e pelo slogan "Onde tem doce, tem Naturale". A receita entra como forma, com suas seções, quantidades e imperativos, para dar ao anúncio um ar doméstico e afetivo.
❌ (D) propaganda perde poder de persuasão ao assumir a forma do gênero receita — Acerta a direção e inverte o efeito. O hibridismo aumenta a persuasão: o formato de receita desarma a resistência do leitor à publicidade, prende a atenção até o último passo e liga a marca ao ambiente da cozinha e da família. É justamente por funcionar que o recurso é usado. Nenhum elemento do texto sugere enfraquecimento do apelo.
❌ (E) receita está a serviço do gênero propaganda ao solicitar que o leitor faça o doce — A primeira parte está correta — a receita realmente serve à propaganda —, mas a justificativa desmonta a alternativa. O texto não pede que ninguém faça o pé de moleque: os ingredientes são pessoas e situações, não alimentos, e a única solicitação real é "Entre no site cianaturale.com.br". A ação pedida ao leitor é visitar a página da marca, não cozinhar.
Gabarito: C — a marca no modo de preparo, a chamada para o site e o slogan final mostram que o texto é uma propaganda; a estrutura de receita é a forma emprestada para divulgar o Açúcar Naturale.
🏁 Passo 6 — Generalização e dica de prova
- Por que só C se sustenta: A e B invertem qual gênero comanda o texto; D inverte o efeito do hibridismo; E acerta a direção mas apoia-se numa ação que o texto não pede. C é a única que combina gênero dominante, forma emprestada e finalidade real.
- Como o ENEM cobra isso: peças publicitárias disfarçadas de outros gêneros são recorrentes na prova — anúncio em forma de bula, de classificado, de poema, de mensagem de celular, de currículo. A pergunta é sempre a mesma: quem assume a forma de quem, e para quê.
- A regra geral: o gênero de um texto se define pela finalidade, não pela aparência. Se há marca, slogan ou chamada para ação, é propaganda — qualquer que seja o formato em que ela venha vestida. E o hibridismo sempre reforça a persuasão; nunca a enfraquece.
- Eliminação em 30 segundos: procure o nome da marca e o slogan. Aqui aparecem três vezes: "Açúcar Naturale", "cianaturale.com.br" e "Onde tem doce, tem Naturale". Isso define o gênero dominante e elimina, de uma vez, as alternativas que colocam a receita no comando.
- Temas que costumam vir junto: funções da linguagem, especialmente a conativa; verbos no imperativo; intertextualidade e paródia; gêneros do cotidiano; e estratégias de persuasão na publicidade.
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