Mapa de questões · 2º dia
Questão 134 — ENEM 2016 Reaplicação
Da corrida de submarino à festa de aniversário no trem
Leitores fazem sugestões
para o Museu das Invenções Cariocas
“Falar ‘caraca!’ a cada surpresa ou acontecimento que vemos, bons ou ruins, é invenção do carioca, como também o ‘vacilão’.”
“Cariocas inventam um vocabulário próprio”. “Dizer ‘mermão’ e ‘é mermo’ para um amigo pode até doer um pouco no ouvido, mas é tipicamente carioca.”
“Pedir um ‘choro’ ao garçom é invenção carioca.”
“Chamar um quase desconhecido de ‘querido’ é um carinho inventado pelo carioca para tratar bem quem ainda não se conhece direito.”
“O ‘ele é um querido’ é uma forma mais feminina de elogiar quem já é conhecido.”
SANTOS, J. F. Disponível em: www.oglobo.globo.com. Acesso em: 6 mar. 2013 (adaptado).
Entre as sugestões apresentadas para o Museu das Invenções Cariocas, destaca-se o variado repertório linguístico empregado pelos falantes cariocas nas diferentes situações específicas de uso social. A respeito desse repertório, atesta-se o(a)
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Sociolinguística: variação linguística regional (diatópica) e identidade cultural
- ⚡ Nível: Médio — a dificuldade não está em entender o texto, mas em distinguir entre alternativas conceitualmente próximas (variação por região, por escolaridade, por idade, por adequação/inadequação à norma)
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento da variação linguística como marca de identidade cultural de um grupo, sem juízo de valor sobre "certo" ou "errado" (Competência de Área 1 do ENEM: compreender a língua como fenômeno cultural, histórico e social)
- 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "As expressões cariocas listadas ('caraca', 'vacilão', 'merrmão', 'choro', 'querido') comprovam o(a) quê, do ponto de vista linguístico?"
- Palavras-chave decisivas: variado repertório linguístico, falantes cariocas, diferentes situações específicas de uso social
- Armadilha típica: confundir o registro informal e regional ("merrmão", "vacilão") com "erro" ou "desobediência à norma-padrão" — como se falar diferente da norma culta fosse, por si só, um desvio a ser corrigido, e não um traço legítimo de identidade cultural.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato entende variação linguística como fenômeno natural, ligado à geografia e à cultura de um grupo (variação diatópica), e não como erro, inadequação, hierarquia de escolaridade ou simples diferença de faixa etária.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Variação linguística: toda língua viva varia de acordo com região (diatópica), classe/escolaridade (diastrática), momento histórico (diacrônica) e situação de uso (diafásica). Nenhuma variedade é "errada" — todas são plenamente funcionais dentro do seu contexto social.
- Variação diatópica (regional): é o tipo de variação ligado ao lugar onde o falante vive. O "sotaque" e o vocabulário carioca ("merrmão", "choro" no sentido de cafezinho, "querido" como forma de tratamento) são exemplos clássicos desse tipo de variação — marcam pertencimento a uma comunidade geográfica e cultural específica.
- Norma-padrão x adequação linguística: a norma-padrão é apenas uma das variedades da língua, prestigiada socialmente e usada em contextos formais; não falar segundo ela em situações informais não é "desobediência", pois cada variedade é adequada ao seu próprio contexto de uso — e é exatamente isso que o texto mostra ao valorizar essas expressões como "invenções" do carioca, não como deslizes.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Cariocas inventam um vocabulário próprio" → o texto emprega o verbo "inventar", associando as expressões a criatividade e originalidade cultural, não a incorreção ou desvio da norma.
- Evidência 2: "é tipicamente carioca" / "é invenção carioca" / "um carinho inventado pelo carioca" → a repetição da ideia de que cada expressão é "própria", "típica" e "inventada" pelo carioca reforça que se trata de um traço identitário regional, e não de uma falha de linguagem.
- Síntese: o enunciado pede que se reconheça, nessas frases sobre um "Museu das Invenções Cariocas", a celebração de um repertório linguístico que marca a identidade cultural do Rio de Janeiro — ou seja, trata-se de reconhecer a variação linguística como expressão da tradição cultural de um grupo regional, não como erro, inadequação, hierarquia social ou diferença etária.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o fenômeno linguístico retratado
As frases apresentadas — sobre "caraca", "vacilão", "merrmão", "choro" (pedido ao garçom) e "querido" — não descrevem um erro de fala, mas um conjunto de usos linguísticos específicos e reconhecíveis como pertencentes à cultura carioca. O texto trata essas expressões como "invenções", isto é, como criações genuínas de uma comunidade linguística, cada uma associada a uma situação social particular (surpresa, amizade, pedido no bar, cumprimento a um desconhecido, elogio entre mulheres).
Subpasso 4.2 — Relacionar o fenômeno à categoria correta de variação linguística
Como as expressões estão ligadas ao lugar (Rio de Janeiro) e à cultura desse lugar — e não à escolaridade dos falantes, nem à idade deles, nem a uma suposta "inadequação" — o fenômeno em jogo é a variação linguística diatópica (regional), interpretada aqui como parte da tradição cultural carioca. O próprio título "Museu das Invenções Cariocas" já indica que a ideia central é celebrar, e não corrigir, esses usos linguísticos regionais.
Subpasso 4.3 — Verificação
Ao comparar essa síntese ("as expressões cariocas comprovam um repertório linguístico regional, celebrado como parte da tradição cultural do Rio") com as cinco alternativas, apenas a que fala em "usos linguísticos próprios da tradição cultural carioca" reproduz fielmente essa ideia, sem introduzir noções ausentes do texto, como escolaridade, faixa etária, desobediência à norma ou inadequação social.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) desobediência à norma-padrão, requerida em ambientes urbanos.
❌ Incorreta: o texto não trata as expressões como desvio de uma norma que "deveria" ser seguida; ao chamá-las de "invenções", o autor as valoriza como criação linguística legítima. Além disso, nada no texto sustenta a ideia de que ambientes urbanos "requerem" a norma-padrão — essa relação é inventada pela alternativa.
B) inadequação linguística das expressões cariocas às situações sociais apresentadas.
❌ Incorreta: é o oposto do que o texto mostra. Cada expressão é apresentada como perfeitamente ajustada à sua situação de uso — "choro" ao garçom, "querido" para tratar bem um desconhecido, "merrmão" entre amigos —, ou seja, há adequação, não inadequação, entre a expressão e o contexto social em que ela é empregada.
C) reconhecimento da variação linguística, segundo o grau de escolaridade dos falantes.
❌ Incorreta: o critério de variação apontado no texto é geográfico e cultural (ser carioca), não o grau de escolaridade. Em nenhum momento o texto menciona ou sugere que essas expressões estejam relacionadas ao nível de instrução dos falantes — trata-se de uma variação diastrática que simplesmente não está em jogo aqui.
D) identificação como usos linguísticos próprios da tradição cultural carioca.
✅ Correta: o texto trata explicitamente as expressões como "invenções" e traços "tipicamente" cariocas, associando-as a uma tradição cultural regional — exatamente a variação linguística diatópica celebrada como identidade do grupo. É essa a leitura que unifica todas as evidências do texto.
E) variabilidade no linguajar carioca em razão da faixa etária dos falantes.
❌ Incorreta: o texto não distingue as expressões por idade dos falantes; ao contrário, atribui todas elas de forma genérica "ao carioca", sem qualquer marcação etária. A única distinção de uso mencionada é de gênero em um trecho ("uma forma mais feminina de elogiar"), não de faixa etária, o que já invalida essa alternativa.
🏆 Gabarito: D — as frases do texto celebram expressões tipicamente cariocas como "invenções" ligadas a situações sociais específicas, o que caracteriza o reconhecimento de usos linguísticos regionais como parte da tradição cultural do Rio de Janeiro, e não como erro, inadequação, critério de escolaridade ou faixa etária.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa D descreve corretamente o fenômeno retratado — expressões regionais valorizadas como parte da identidade cultural carioca —, sem inventar critérios (escolaridade, idade) ou inverter o sentido do texto (tratando como erro o que é apresentado como criação).
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz textos sobre gírias, sotaques e expressões regionais para testar se o candidato evita o preconceito linguístico, isto é, se reconhece que toda variedade da língua é válida em seu contexto, sem hierarquizar "certo" e "errado".
- Generalização: em questões sobre variação linguística, pergunte sempre "qual é o critério de variação citado no texto?" (região, escolaridade, idade, formalidade) e descarte alternativas que introduzam um critério que o texto não mencionou, além de qualquer alternativa que trate a variedade não-padrão como erro ou desvio.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara qualquer alternativa com carga negativa sobre a variedade regional (como "desobediência" ou "inadequação"), pois o ENEM nunca trata variação linguística como erro; em seguida, descarte critérios não mencionados no texto (escolaridade, faixa etária) para chegar direto à opção que fala em identidade/tradição cultural.
- Conexões: compare com outras questões de ENEM sobre preconceito linguístico (frequentemente baseadas em textos de Marcos Bagno) e sobre variação diastrática/diafásica em anúncios publicitários ou tirinhas que contrastam fala formal e informal.
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