Mapa de questões · 2º dia
Questão 104 — ENEM 2016 Reaplicação
Descobrimento Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De sopetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.
Não vê que me lembrei que lá no norte, meu Deus! Muito longe de mim,
Na escuridão ativa da noite que caiu,
Um homem pálido, magro de cabelos escorrendo nos olhos
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.
Esse homem é brasileiro que nem eu...
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Modernismo Brasileiro (1ª fase, poesia Pau-Brasil)
- ⚡ Nível: Médio — o vocabulário é simples, mas a resposta exige reconhecer o projeto estético do Modernismo por trás de uma cena aparentemente cotidiana
- 🎯 Tema/Habilidade: Poesia modernista de Oswald de Andrade e a construção literária da identidade brasileira plural (reconhecer recursos expressivos e valores veiculados por um texto literário)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é a intenção do eu-lírico ao aproximar, no poema, o intelectual sentado em São Paulo e o trabalhador anônimo do Norte do país?"
- Palavras-chave decisivas: "Esse homem é brasileiro que nem eu", friúme/comovido, "lá no norte... muito longe de mim"
- Armadilha típica: confundir a alternativa sobre integração das regiões (D) — que sugere um projeto de conexão territorial/administrativa — com o que o poema realmente faz, que é afirmar que pessoas socialmente muito distintas compõem, juntas, a mesma identidade nacional.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o texto valoriza a pluralidade de tipos humanos, classes sociais e regiões que formam o "ser brasileiro", e não uma crítica histórica, um resgate étnico específico ou um plano de integração geográfica.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Modernismo brasileiro (1ª fase, 1922-1930): movimento de ruptura com o academicismo parnasiano, marcado pela linguagem coloquial, pelo verso livre e pelo interesse em temas nacionais tratados sem idealização.
- Movimento/Manifesto Pau-Brasil (Oswald de Andrade, 1924): propõe olhar o Brasil "com olhos livres", sem os filtros europeus, valorizando a cultura popular, a fala do povo e a diversidade que compõe o país — inclusive suas desigualdades sociais.
- Eu-lírico intelectual x figura popular: recurso recorrente na poesia modernista: o poeta letrado, de vida urbana confortável, reconhece-se afetivamente em um trabalhador simples e distante, encurtando simbolicamente a distância entre cultura erudita e cultura popular.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Abancado à escrivaninha em São Paulo / Na minha casa da rua Lopes Chaves" → cena de conforto doméstico e intelectual, o eu-lírico como escritor urbano, distante do trabalho braçal.
- Evidência 2: "Um homem pálido, magro de cabelos escorrendo nos olhos / Depois de fazer uma pele com a borracha do dia" → figura de um trabalhador do Norte (associado à extração da borracha, atividade típica da Amazônia), marcado pelo cansaço e pela precariedade.
- Evidência 3: "Esse homem é brasileiro que nem eu" → verso-síntese do poema: iguala os dois sujeitos, apesar de todas as diferenças sociais, geográficas e culturais entre eles, sob o mesmo pertencimento nacional.
- Síntese: o poema não narra fatos históricos de colonização nem propõe uma política de conexão entre regiões; ele constrói, pela comoção repentina do eu-lírico ("friúme"), a ideia de que ser brasileiro é abarcar realidades muito diferentes — do gabinete de escrita em São Paulo ao seringal no Norte.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear o contraste entre os dois cenários
O poema se abre com o eu-lírico em posição confortável: sentado à escrivaninha, em casa, em São Paulo, cercado de livros. De repente, "um friúme por dentro" o toma — uma sensação física de comoção que rompe a tranquilidade da cena. Esse abalo o leva a pensar em outra pessoa, "muito longe de mim": um homem do Norte, cansado, que acabou de encerrar um dia de trabalho extraindo borracha ("fazer uma pele com a borracha do dia" é uma referência direta ao ofício do seringueiro).
Subpasso 4.2 — Interpretar o efeito do verso final
O ponto alto do poema é a conclusão: "Esse homem é brasileiro que nem eu". Repare que o eu-lírico não diz que esse homem é "diferente" ou "distante" — ele afirma uma igualdade essencial entre os dois: por mais que um esteja em São Paulo escrevendo e o outro no Norte trabalhando com as mãos, ambos são igualmente brasileiros. O verso funciona como uma declaração de identidade nacional que engloba a diversidade social (classes, ofícios) e cultural (regiões, modos de vida) do país — exatamente o projeto do Movimento Pau-Brasil de "redescobrir" um Brasil plural, para além da elite letrada do Sudeste.
Subpasso 4.3 — Verificação
Ao confrontar essa leitura com as alternativas, apenas uma capta simultaneamente as duas dimensões evidenciadas pelo texto — a social (o contraste entre o escritor confortável e o trabalhador castigado pelo cansaço) e a cultural/regional (São Paulo x Norte) — sem inventar elementos que o poema não traz, como índios ou colonização portuguesa. Essa alternativa é a (C).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) resgatar o passado indígena brasileiro.
❌ Incorreta: não há qualquer menção a povos indígenas, ancestralidade pré-colonial ou passado histórico nesse sentido. O homem descrito é um trabalhador contemporâneo ao eu-lírico (um seringueiro), não uma figura indígena.
B) criticar a colonização portuguesa no Brasil.
❌ Incorreta: o título "Descobrimento" pode sugerir, à primeira vista, uma referência a 1500, mas o poema não faz nenhuma crítica a Portugal, à Coroa ou ao processo colonial. O "descobrimento" aqui é pessoal e afetivo — o eu-lírico "descobre"/redescobre o Brasil por meio da identificação com outro brasileiro.
C) defender a diversidade social e cultural brasileira.
✅ Correta: o poema aproxima dois sujeitos radicalmente diferentes em classe social (intelectual x trabalhador manual), em região (São Paulo x Norte) e em modo de vida, para concluir que ambos são igualmente brasileiros. Essa afirmação de identidade compartilhada em meio à diferença é justamente a defesa da diversidade social e cultural do país, alinhada ao projeto modernista de valorizar o Brasil em sua pluralidade.
D) promover a integração das diferentes regiões do país.
❌ Incorreta: é a alternativa mais próxima da correta, mas erra o foco. O poema não propõe um projeto de integração territorial, econômica ou de comunicação entre regiões — ele não fala em conectar Norte e Sudeste fisicamente. O que está em jogo é o reconhecimento afetivo de uma identidade comum apesar da distância e da diferença social, não uma ação de integração regional.
E) valorizar a Região Norte, pouco conhecida pelos brasileiros.
❌ Incorreta: reduz o poema a apenas uma de suas duas dimensões (a regional), ignorando o contraste social central entre o eu-lírico letrado e o trabalhador humilde. Além disso, o poema não tematiza o "desconhecimento" do Norte pelos demais brasileiros — esse não é um dado presente no texto.
🏆 Gabarito: C — o poema constrói, pelo contraste entre o eu-lírico em São Paulo e o trabalhador no Norte, uma afirmação de identidade nacional plural, unindo diferenças sociais e regionais sob o mesmo pertencimento brasileiro.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: a alternativa C é a única que sintetiza as duas camadas do poema — a social (classes distintas) e a cultural/regional (São Paulo x Norte) — sem acrescentar elementos ausentes do texto.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz poemas do Modernismo de 1ª fase (Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Manuel Bandeira) pedindo que o candidato identifique o projeto estético-ideológico por trás da linguagem coloquial e das cenas cotidianas retratadas.
- Generalização: quando um texto aproxima sujeitos socialmente distantes e conclui afirmando uma identidade comum entre eles, a resposta tende a girar em torno de "diversidade", "pluralidade" ou "identidade nacional" — e não de "crítica histórica" ou "integração administrativa/territorial".
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas que citem elementos inexistentes no texto (aqui, "indígena" em A e "colonização portuguesa" em B não aparecem em nenhum verso); depois, compare as duas alternativas mais parecidas (C e D) verificando se o texto fala em "unir regiões" (não fala) ou em "reconhecer identidade comum apesar da diferença" (é exatamente isso que ele faz).
- Conexões: Manifesto Pau-Brasil e Manifesto Antropófago (Oswald de Andrade); "Macunaíma", de Mário de Andrade, como outra obra modernista que discute a identidade brasileira plural.
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