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Mapa de questões · 2º dia
LinguagensLiteraturaDifícil

Questão 101ENEM 2016 Reaplicação

Anoitecer

A Dolores

É a hora em que o sino toca, mas aqui não há sinos; há somente buzinas, sirenes roucas, apitos DÀLWRVSXQJHQWHVWUiJLFRV uivando escuro segredo; desta hora tenho medo.

[...]

É a hora do descanso, mas o descanso vem tarde, o corpo não pede sono, depois de tanto rodar; pede paz — morte — mergulho no poço mais ermo e quedo; desta hora tenho medo.

Hora de delicadeza, agasalho, sombra, silêncio. Haverá disso no mundo? É antes a hora dos corvos, bicando em mim, meu passado, meu futuro, meu degredo; desta hora, sim, tenho medo.

ANDRADE, C. D. A rosa do povo . Rio de Janeiro: Record, 2005 (fragmento).

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Interpretação de poesia modernista engajada (contexto histórico da 2ª Guerra Mundial)
  • ⚡ Nível: Difícil — exige articular o sentido simbólico das três estrofes e descartar quatro distratores que também mencionam "guerra", mas com teses diferentes da do texto.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Construção de sentido e posicionamento crítico do eu lírico em texto poético (reconhecimento de recursos expressivos e de visão de mundo veiculada pelo texto).
  • 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Considerando as três estrofes do poema 'Anoitecer', qual visão de mundo o eu lírico constrói sobre a hora do entardecer e sobre as instituições humanas que deveriam trazer conforto nesse momento?"
  • Palavras-chave decisivas: desta hora tenho medo, sino / descanso / delicadeza, corvos
  • Armadilha típica: confundir o vocabulário de guerra presente em quase todas as alternativas (A, B, D, E) com o que o poema efetivamente afirma. O texto fala de medo e desamparo, não de superação, resistência, reconstrução ou contestação.
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de generalizar o padrão que se repete nas três estrofes (uma expectativa de conforto é sistematicamente frustrada) e nomear corretamente essa visão como pessimista em relação às instituições sociais atingidas por um contexto de conflito.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Eu lírico: voz que expressa sentimentos e percepções dentro do poema; não deve ser confundida com o autor biográfico, mas seu discurso revela a visão de mundo construída pelo texto.
  • Contexto de produção — A Rosa do Povo (1945): livro em que Drummond abandona parte do hermetismo de obras anteriores para tratar de angústias coletivas: a Segunda Guerra Mundial, o autoritarismo do Estado Novo e o sofrimento social são temas recorrentes. Muitos poemas do volume associam sons urbanos e industriais (sirenes, apitos) ao clima de tensão bélica vivido no Brasil daqueles anos.
  • Antítese como recurso estruturante: em cada estrofe o poema apresenta uma imagem de conforto esperado (o sino que badala, o descanso ao fim do dia, a delicadeza do lar) para, em seguida, negá-la ou substituí-la por algo hostil. Esse contraste é a chave de leitura de toda a questão.
  • Refrão progressivo: a repetição de "tenho medo" ao final de cada estrofe funciona como fio condutor emocional; a variação final ("desta hora, sim, tenho medo") intensifica, não resolve, o sentimento de temor — não há guinada para esperança ou resistência.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "É a hora em que o sino toca, mas aqui não há sinos; há somente buzinas, sirenes roucas, apitos" → o rito tradicional e comunitário marcado pelo sino (instituição religiosa/social que organiza o tempo coletivo) está ausente; em seu lugar, sons de alarme e de máquinas dominam o ambiente.
  • Evidência 2: "o corpo não pede sono, [...] pede paz — morte — mergulho no poço mais ermo e quedo" → o descanso, direito básico ao fim do dia, é corrompido: o eu lírico não deseja dormir, deseja desaparecer. A instituição do "repouso" é esvaziada de sentido positivo.
  • Evidência 3: "Hora de delicadeza, agasalho, sombra, silêncio. Haverá disso no mundo? É antes a hora dos corvos, bicando em mim, meu passado, meu futuro, meu degredo" → a pergunta retórica expressa dúvida cética sobre a existência, no mundo real, de acolhimento e ternura; a resposta do próprio poema é a imagem de aves de rapina devorando passado, futuro e identidade do eu lírico.
  • Síntese: as três estrofes repetem o mesmo movimento — uma instituição ou valor humano que deveria oferecer conforto (rito religioso, descanso, afeto doméstico) é anulado por uma realidade hostil associada ao clima de guerra do livro. Esse padrão de negação sistemática é exatamente o que a alternativa correta precisa nomear.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear a estrutura das três estrofes

Cada estrofe segue o mesmo esquema retórico: (1) nomeia-se a "hora" e o que ela deveria trazer — o toque do sino, o descanso, a delicadeza; (2) contrapõe-se a isso a realidade vivida — buzinas e sirenes, desejo de morte, corvos que bicam o eu lírico; (3) fecha-se com o refrão "desta hora tenho medo", que sela emocionalmente cada bloco. Esse paralelismo não é decorativo: ele constrói, por acúmulo, uma visão de mundo coerente ao longo de todo o poema.

Subpasso 4.2 — Identificar o que está sendo negado em cada estrofe

Em todos os três casos, o que é negado ou corrompido é uma instituição ou prática humana e social: a religiosidade/o rito coletivo (sino), o direito ao repouso (descanso) e o afeto/abrigo doméstico (delicadeza, agasalho, silêncio). O poema, escrito em 1945 sob o impacto direto da Segunda Guerra Mundial, associa essa corrosão generalizada a um pano de fundo de conflito armado — daí os sons de sirene e apito, que remetem a alarmes, e a atmosfera geral de ameaça e desamparo que perpassa o texto.

Subpasso 4.3 — Verificação

Cruzando esse padrão com as cinco alternativas, apenas uma nomeia corretamente o que o texto faz: apontar, com tom pessimista (não esperançoso, não combativo), que instituições humanas e sociais — o rito religioso, o descanso, o afeto — estão submetidas e corroídas por um contexto de conflito armado. Não há, em nenhum momento do poema, um movimento de superação, de chamado à resistência, de convocação à solidariedade reconstrutiva ou de contestação ativa: o eu lírico permanece, do início ao fim, tomado pelo medo e pela sensação de ser vítima passiva (o corvo "bica", o eu lírico apenas sofre a ação).

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) defesa da esperança como forma de superação das atrocidades da guerra.

❌ Incorreta: o poema não apresenta nenhum elemento de superação ou de esperança; ao contrário, a intensidade do medo cresce até o verso final ("desta hora, sim, tenho medo"). Não há defesa de nada que aponte para a superação da dor, apenas o registro contínuo do temor.

B) desejo de resistência às formas de opressão e medo produzidas pela guerra.

❌ Incorreta: "resistência" pressupõe uma postura ativa de enfrentamento, que o eu lírico não assume em nenhum momento. Ele descreve e sofre o medo, mas não expressa vontade de resistir a ele — pelo contrário, deseja o "mergulho" e a "morte", atitude de rendição, não de combate.

C) olhar pessimista das instituições humanas e sociais submetidas ao conflito armado.

✅ Correta: é exatamente esse o padrão comprovado no Passo 4 — sino (religião/rito coletivo), descanso (direito ao repouso) e delicadeza/agasalho/silêncio (afeto e abrigo) são instituições e valores humanos sistematicamente corroídos por uma realidade hostil ligada ao contexto bélico do livro, e o eu lírico reage a isso com medo, não com esperança ou combatividade — o que caracteriza precisamente um olhar pessimista.

D) exortação à solidariedade para a reconstrução dos espaços urbanos bombardeados.

❌ Incorreta: o poema não menciona bombardeios nem espaços urbanos destruídos a serem reconstruídos, e muito menos faz um chamado ("exortação") à solidariedade coletiva. Essa leitura extrapola o que o texto efetivamente diz, atribuindo-lhe um projeto construtivo que ele não contém.

E) espírito de contestação capaz de subverter a condição de vítima dos povos afetados.

❌ Incorreta: o eu lírico permanece na posição de vítima até o final — é ele quem é "bicado" pelos corvos, não quem se rebela contra essa condição. Não há qualquer gesto de subversão ou contestação ativa; a última palavra do poema é, mais uma vez, "medo".

🏆 Gabarito: C — o poema constrói, estrofe a estrofe, a corrosão de instituições humanas e sociais (rito religioso, descanso, afeto) por uma realidade hostil ligada ao conflito armado, e o eu lírico reage com medo constante, nunca com esperança, resistência, apelo à reconstrução ou contestação — configurando um olhar essencialmente pessimista.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: somente a alternativa C descreve com precisão o movimento do poema — a substituição de instituições de conforto (sino, descanso, delicadeza) por uma realidade hostil associada à guerra, sem qualquer saída de esperança ou ação, o que define um olhar pessimista.
  • Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente usa poemas de Drummond ligados a contextos históricos (Estado Novo, Segunda Guerra) para testar se o estudante distingue entre "falar sobre guerra" e "assumir uma posição específica diante dela" — as alternativas erradas quase sempre atribuem ao texto posturas (esperança, resistência, solidariedade, contestação) que soam plausíveis, mas não são sustentadas pelas evidências textuais.
  • Generalização: em questões de interpretação de poesia, a alternativa correta deve ser sustentada por evidências que se repitam ao longo de todo o texto (aqui, o refrão do medo nas três estrofes), nunca por uma leitura baseada em apenas um verso isolado.
  • Dica de eliminação rápida: sempre que o eu lírico permanecer em posição passiva/vítima até o final do poema (sem verbos de ação, luta ou superação), descarte de imediato alternativas com verbos como "resistir", "contestar", "superar" ou "reconstruir" — elas exigem uma atitude ativa que o texto não apresenta.
  • Conexões: compare com outros poemas de A Rosa do Povo (como "Carta a Stalingrado" ou "Cantiga de enganar") e com textos de literatura de testemunho sobre a Segunda Guerra Mundial, que também exploram o contraste entre a promessa de conforto das instituições sociais e a violência da realidade histórica.

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