Mapa de questões · 2º dia
Questão 96 — ENEM 2016 Reaplicação
Esaú e Jacó
Ora, aí está justamente a epígrafe do livro, se eu lhe quisesse pôr alguma, e não me ocorresse outra. Não é somente um meio de completar as pessoas da narração com as ideias que deixarem, mas ainda um par de lunetas para que o leitor do livro penetre o que for menos claro ou totalmente escuro.
Por outro lado, há proveito em irem as pessoas da minha história colaborando nela, ajudando o autor, por uma lei de solidariedade, espécie de troca de serviços, entre o enxadrista e os seus trebelhos.
Se aceitas a comparação, distinguirás o rei e a dama, o bispo e o cavalo, sem que o cavalo possa fazer de torre, nem a torre de peão. Há ainda a diferença da cor, branca e preta, mas esta não tira o poder da marcha de cada peça, e afinal umas e outras podem ganhar a partida, e assim vai o mundo.
ASSIS, M. Esaú e Jacó. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994 (fragmento).
O fragmento do romance Esaú e Jacó mostra como o narrador concebe a leitura de um texto literário. Com base nesse trecho, tal leitura deve levar em conta
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → prosa machadiana, metaficção e papel do leitor
- ⚡ Nível: Médio — a resposta exige perceber uma metáfora (a epígrafe como "luneta") e um recurso metalinguístico, não apenas ler o enunciado superficialmente
- 🎯 Tema/Habilidade: O leitor como agente ativo na construção de sentidos do texto literário; reconhecimento de recursos expressivos e metalinguísticos da linguagem literária
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "O que o excerto de Machado de Assis evidencia sobre a relação entre autor, texto e leitor?"
- Palavras-chave decisivas: "par de lunetas", "o leitor do livro penetre", "se aceitas a comparação"
- Armadilha típica: parar na imagem concreta da luneta (tomá-la como "instrumento que ajuda a enxergar melhor") sem perceber que ela é metáfora da função interpretativa do leitor.
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que o texto é uma reflexão metalinguística sobre como o sentido da obra só se completa com a participação ativa de quem lê.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Metaficção/metalinguagem literária: recurso pelo qual o narrador comenta o próprio processo de composição da obra, rompendo a ilusão narrativa para dialogar com quem lê.
- Epígrafe como dispositivo de leitura: citação ou frase que, segundo o narrador, serve para "completar" as personagens e orientar a compreensão do que fica implícito no texto.
- Machado de Assis e o leitor-cúmplice: traço central da prosa machadiana (também em Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas) é convocar o leitor para dentro do texto, tornando-o corresponsável pela interpretação.
- Metáfora do xadrez: autor comparado ao enxadrista e personagens aos trebelhos (peças); a "solidariedade" citada é a colaboração entre autor e personagens na condução da história — e essa colaboração só ganha sentido se o leitor "aceitar a comparação" proposta.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "um par de lunetas para que o leitor do livro penetre o que for menos claro ou totalmente escuro" → a epígrafe é justificada em função de uma necessidade do leitor: ela existe para que ele compreenda o que não está explícito. O verbo "penetre" atribui ao leitor uma ação, não uma recepção passiva.
- Evidência 2: "Se aceitas a comparação, distinguirás o rei e a dama, o bispo e o cavalo..." → o narrador se dirige diretamente ao leitor, em segunda pessoa ("aceitas", "distinguirás"), condicionando a própria compreensão da metáfora do xadrez à adesão do leitor ao jogo interpretativo proposto.
- Síntese: Do início ao fim do excerto, o narrador não descreve apenas recursos da obra (epígrafe, comparação com o xadrez); ele os apresenta sempre em função de um leitor que precisa agir — penetrar o obscuro, aceitar a comparação, distinguir as peças. O texto constrói, assim, o leitor como elemento indispensável para que a narrativa produza sentido.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o gênero e a situação enunciativa
O trecho pertence a Esaú e Jacó (1904), de Machado de Assis, e reproduz um momento em que o narrador interrompe a expectativa de "história" para comentar, em tom de conversa, o próprio ofício de narrar. Esse recurso — o narrador que sai da trama para falar sobre a construção da obra — é a marca registrada da metaficção machadiana, e é justamente esse comentário sobre "como fazer o livro" que a questão pede para interpretar.
Subpasso 4.2 — Rastrear a função atribuída ao leitor em cada imagem do texto
Primeiro, a epígrafe é comparada a um "par de lunetas": um instrumento óptico que não tem valor em si mesmo, mas apenas na medida em que serve a alguém que precisa enxergar melhor. Esse alguém é explicitamente nomeado: "o leitor do livro". Em seguida, o narrador desenvolve a metáfora do xadrez (autor = enxadrista, personagens = trebelhos) e a estende diretamente ao leitor por meio de uma interpelação em segunda pessoa: "Se aceitas a comparação, distinguirás...". Note que o verbo "aceitas" é condição para o verbo "distinguirás": sem a adesão do leitor ao pacto de leitura proposto, a metáfora simplesmente não produz sentido algum.
Subpasso 4.3 — Verificação
Reunindo as duas evidências, fica claro que o fio condutor do excerto não é a epígrafe em si, nem o xadrez em si, mas o papel que o leitor exerce diante desses recursos: ele é quem "penetra" o escuro e quem "aceita" o jogo de comparações para que a narrativa se complete. Essa leitura converge exatamente com a alternativa que trata o leitor como peça fundamental na construção dos sentidos — confirmando, por eliminação e por evidência textual, que a resposta é a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) o leitor como peça fundamental na construção dos sentidos.
✅ Correta: o texto mostra, por dois caminhos (a metáfora da luneta e o apelo direto "se aceitas a comparação"), que o sentido da obra só se realiza com a participação ativa do leitor — ele "penetra" o obscuro e "aceita" o jogo interpretativo proposto pelo narrador.
B) a luneta como objeto que permite ler melhor.
❌ Incorreta: fica presa ao sentido literal da imagem, ignorando que a "luneta" é metáfora da epígrafe enquanto ferramenta de interpretação. O texto não valoriza o objeto em si, mas a função que ele cumpre para o leitor — reduzir a alternativa ao instrumento é perder justamente o que a questão cobra.
C) o autor como único criador de significados.
❌ Incorreta: contraria diretamente o texto, que fala em "proveito" das personagens "colaborando" com o autor "por uma lei de solidariedade" e, além disso, condiciona o sentido à aceitação do leitor. A construção de sentido é apresentada como processo compartilhado (autor, personagens e leitor), não como produto exclusivo do autor.
D) o caráter de entretenimento da literatura.
❌ Incorreta: o excerto não discute lazer, diversão ou fruição estética; é um comentário metalinguístico sobre o funcionamento da epígrafe e sobre a relação entre quem escreve e quem lê — um debate sobre construção de sentido, não sobre entretenimento.
E) a solidariedade de outros autores.
❌ Incorreta: desloca o sujeito da relação. A "lei de solidariedade" mencionada no texto ocorre "entre o enxadrista e os seus trebelhos", ou seja, entre o autor e as personagens de sua própria obra — não entre autores diferentes, como sugere a alternativa.
🏆 Gabarito: A — o excerto evidencia, pela metáfora da epígrafe-luneta e pelo apelo direto ao leitor ("se aceitas a comparação"), que o sentido do texto literário depende da participação ativa de quem lê.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: A é a única alternativa que capta o núcleo metalinguístico do trecho — o leitor tratado como agente, não como espectador passivo da narrativa.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz trechos metaficcionais da prosa machadiana (também em Dom Casmurro e Memórias Póstumas de Brás Cubas) para testar se o candidato percebe o diálogo direto do narrador com o leitor como estratégia de construção de sentido.
- Generalização: em textos que comentam o próprio ato de narrar, procure sempre o pronome ou verbo em segunda pessoa dirigido a "quem lê" — ele costuma indicar que o sentido da obra está sendo construído em parceria com o leitor, não imposto por um narrador ou autor onisciente.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato alternativas presas à imagem concreta sem função interpretativa (como B, que fica só no objeto "luneta") e as que atribuem o sentido a um único agente isolado (C, que ignora a colaboração; E, que troca "autor e personagens" por "outros autores").
- Conexões: compare com Memórias Póstumas de Brás Cubas (narrador defunto dirige-se ao leitor desde o início) e com Dom Casmurro (Bentinho busca a cumplicidade de quem lê para "julgar" Capitu) — ambos exploram o mesmo recurso machadiano de tornar o leitor coautor do sentido do texto.
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