Mapa de questões · 2º dia
Questão 117 — ENEM 2016 Reaplicação
Do amor à pátria
São doces os caminhos que levam de volta à pátria.
Não à pátria amada de verdes mares bravios, a mirar em
berço esplêndido o esplendor do Cruzeiro do Sul; mas a
uma outra mais íntima, pacífica e habitual — uma cuja
terra se comeu em criança, uma onde se foi menino
ansioso por crescer, uma onde se cresceu em sofrimentos
e esperanças plantando canções, amores e filhos ao
sabor das estações.
MORAES, V. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1987.
O nacionalismo constitui tema recorrente na literatura romântica e na modernista. No trecho, a representação da pátria ganha contornos peculiares porque
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de Texto (leitura de texto ensaístico-memorialístico, com intertextualidade em relação ao Hino Nacional Brasileiro)
- ⚡ Nível: Médio — o texto exige perceber uma estrutura de contraste ("não à pátria X, mas a uma outra Y") e não se deixar enganar pela beleza das imagens da primeira pátria, que é justamente a rejeitada.
- 🎯 Tema/Habilidade: Construção de sentido por oposição/antítese e reconhecimento de subjetividade no texto literário — competência de leitura crítica de textos que dialogam com outros textos (intertextualidade).
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que tipo de elementos caracteriza a pátria que o autor efetivamente valoriza no texto, em oposição à pátria evocada pelos símbolos oficiais?"
- Palavras-chave decisivas: mais íntima, pacífica e habitual, se comeu em criança
- Armadilha típica: confundir a "pátria amada de verdes mares bravios... esplendor do Cruzeiro do Sul" com a pátria valorizada pelo autor. Na verdade, essa é a pátria que ele recusa — o texto começa justamente com um "Não à..." antes de apresentar a pátria que prefere.
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de identificar o polo afirmado (não o negado) da antítese construída pelo texto, e de nomear corretamente a natureza desse polo: pessoal, afetiva, subjetiva.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Intertextualidade: recurso pelo qual um texto retoma, cita ou alude a outro texto já existente para construir sentido. Aqui, as expressões "verdes mares bravios" e "berço esplêndido" remetem diretamente ao Hino Nacional Brasileiro, convocando o leitor a reconhecer a pátria "oficial", cívica e simbólica.
- Antítese (estrutura "não X, mas Y"): o texto se organiza em dois polos opostos — a pátria grandiosa e natural do hino (X) versus a pátria íntima e cotidiana da experiência pessoal (Y). Em construções desse tipo, o valor defendido pelo autor está sempre no termo afirmado (Y), não no negado (X).
- Dimensão subjetiva/intimista: qualidade de um discurso centrado na experiência individual, afetiva e biográfica (memórias de infância, sentimentos, relações pessoais), em contraposição a um discurso público, coletivo e institucional.
- Adjetivação como marca de sentido: os adjetivos "íntima", "pacífica" e "habitual" não são ornamentais — funcionam como a própria definição do conceito de pátria que o autor propõe, e devem ser lidos como o núcleo semântico da resposta.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Não à pátria amada de verdes mares bravios, a mirar em berço esplêndido o esplendor do Cruzeiro do Sul" → alusão direta ao Hino Nacional Brasileiro. Essa é a pátria grandiosa, natural, contemplada de fora, definida por símbolos cívicos coletivos — e é explicitamente negada pelo autor logo na abertura ("Não à...").
- Evidência 2: "mas a uma outra, mais íntima, pacífica e habitual" → aqui está o núcleo da resposta. Os três adjetivos descartam, um a um, a hipótese de grandiosidade: não é sobre esplendor, é sobre proximidade, rotina e afeto.
- Evidência 3: "uma cuja terra se comeu em criança, uma onde se foi menino ansioso por crescer, uma onde se cresceu em sofrimentos e esperanças, plantando canções, amores e filhos ao sabor das estações" → detalhamento concreto dessa pátria íntima: infância, crescimento, sentimentos, afetos e vínculos familiares — tudo de ordem pessoal, vivida no tempo, e não de ordem natural ou cívica.
- Síntese: o texto rejeita a pátria-símbolo (natureza grandiosa, hino, coletividade abstrata) para afirmar a pátria-vivência (infância, afeto, cotidiano). A resposta correta precisa nomear exatamente essa segunda dimensão: intimista e subjetiva.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Mapear a estrutura de contraste
O período é construído com a fórmula "Não à pátria X [...] mas a uma outra Y [...]". Essa construção sinaliza, de forma explícita, que o autor está descartando uma concepção de pátria para afirmar outra. Todo o esforço de leitura deve se concentrar em identificar corretamente qual das duas é a preferida — e ela é sempre a que vem depois do "mas".
Subpasso 4.2 — Caracterizar os dois polos separadamente
Polo 1 (rejeitado): pátria "amada de verdes mares bravios", "berço esplêndido", "esplendor do Cruzeiro do Sul" — vocabulário de grandiosidade, natureza, luz, brilho; é a pátria cantada no Hino Nacional, externa e simbólica.
Polo 2 (afirmado): pátria "mais íntima, pacífica e habitual", cuja terra "se comeu em criança", onde "se foi menino ansioso por crescer" e "se cresceu em sofrimentos e esperanças, plantando canções, amores e filhos" — vocabulário de experiência pessoal, memória, afeto, tempo vivido (infância, crescimento, estações).
Subpasso 4.3 — Verificação
Ao comparar os dois vocabulários, fica evidente que o polo valorizado (Polo 2) é definido por substantivos e verbos ligados à vida privada e à subjetividade: criança, menino, sofrimentos, esperanças, canções, amores, filhos. Nenhum desses elementos remete a grandiosidade cívica ou a paisagem natural — ao contrário, eles pertencem à esfera do íntimo e do subjetivo. Essa verificação confirma que a alternativa correta deve mencionar exatamente "elementos intimistas" e "dimensão subjetiva", o que aponta diretamente para a alternativa B.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) o amor àquilo que a pátria oferece é grandioso e eloquente.
❌ Incorreta: inverte o sentido do texto. A grandiloquência ("verdes mares bravios", "berço esplêndido", "esplendor do Cruzeiro do Sul") é justamente o traço da pátria recusada pelo eu textual ("Não à..."). O que ele valoriza é o oposto da grandiosidade: o modesto, o cotidiano, o íntimo.
B) os elementos valorizados são intimistas e de dimensão subjetiva.
✅ Correta: os adjetivos "íntima, pacífica e habitual" e as referências à infância, ao crescimento, aos sofrimentos, às esperanças, às canções, aos amores e aos filhos constroem exatamente essa dimensão pessoal e subjetiva, que é o núcleo do sentido que o autor atribui à pátria que prefere.
C) o olhar sobre a pátria é ingênuo e comprometido pela inércia.
❌ Incorreta: não há ingenuidade, pois o autor constrói conscientemente uma comparação crítica entre duas concepções de pátria; e não há inércia, pois o texto fala em ação e transformação — crescer, plantar, superar sofrimentos — não em passividade.
D) o patriotismo literário tradicional é subvertido e motivo de ironia.
❌ Incorreta: há, de fato, uma subversão da expectativa (o autor não escolhe a pátria grandiosa do hino), mas não há ironia ou tom debochado no fragmento. O tom é afetivo, nostálgico e sério — o autor fala de sua pátria íntima com respeito e ternura, não com deboche em relação à tradição.
E) a natureza é determinante na percepção do valor da pátria.
❌ Incorreta: a natureza (mares, Cruzeiro do Sul) caracteriza justamente a pátria rejeitada pelo texto. A pátria valorizada é definida por vivências humanas — infância, afeto, memória — e não por elementos naturais ou paisagísticos.
🏆 Gabarito: B — o texto constrói uma antítese entre a pátria oficial/grandiosa (recusada) e a pátria pessoal/vivida (afirmada), e esta última é caracterizada por elementos explicitamente intimistas e subjetivos: infância, crescimento, sentimentos e afetos.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: B é a única alternativa que nomeia corretamente a natureza da pátria afirmada pelo texto — intimista e subjetiva —, em vez de descrever a pátria que o autor explicitamente nega.
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente traz textos que dialogam com símbolos nacionais (o Hino, a bandeira, datas cívicas) para relativizar ou humanizar seu sentido oficial, testando se o candidato consegue distinguir o discurso institucional do discurso pessoal dentro de um mesmo fragmento.
- Generalização: sempre que um texto seguir a estrutura "não X, mas Y", a resposta correta quase sempre caracteriza Y (o termo afirmado após o "mas"), e as alternativas erradas costumam descrever X (o termo negado) como se fosse a tese do autor — armadilha clássica de leitura apressada.
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que reproduzem o vocabulário do trecho rejeitado pelo texto (grandiosidade, natureza, esplendor) — A e E caem imediatamente por descreverem a pátria que o autor nega, não a que ele afirma.
- Conexões: vale comparar este fragmento com a "Canção do Exílio" de Gonçalves Dias e com suas releituras modernistas (Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade), que também contrastam a pátria idealizada/simbólica com a pátria vivida e a memória afetiva pessoal.
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