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Mapa de questões · 2º dia
LinguagensLiteraturaMédio

Questão 125ENEM 2016 Reaplicação

O bonde abre a viagem,
No banco ninguém,
Estou só, estou sem.
Depois sobe um homem,
No banco sentou,
Companheiro vou.
O bonde está cheio,
De novo porém
Não sou mais ninguém.

ANDRADE, M. Poesias completas. Belo Horizonte: Villa Rica, 1993.

O desenvolvimento das grandes cidades e a consequente concentração populacional nos centros urbanos geraram mudanças importantes no comportamento dos indivíduos em sociedade. No poema de Mário de Andrade, publicado na década de 1940, a vida na metrópole aparece representada pela contraposição entre

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Literatura (interpretação de texto poético, poesia modernista brasileira)
  • ⚡ Nível: Médio — exige perceber um paradoxo construído por repetição de palavras entre a primeira e a última estrofe, e não apenas uma leitura literal do bonde
  • 🎯 Tema/Habilidade: Efeitos de sentido produzidos pela estrutura e pelas escolhas lexicais em um poema curto (competência de leitura de textos literários e reconhecimento de recursos expressivos)
  • 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Qual par de palavras nomeia os dois estados emocionais/existenciais contrastantes vividos pelo eu lírico ao longo da viagem de bonde?"
  • Palavras-chave decisivas: "Estou só, stou sem", "Companheiro vou", "Não sou mais ninguém"
  • Armadilha típica: confundir o surgimento do "companheiro" com um vínculo de amizade (alternativa D), quando o poema descreve apenas um contato circunstancial e passageiro entre passageiros de bonde
  • O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de ligar o início (bonde vazio) e o fim (bonde cheio) do poema, percebendo que o eu lírico se sente "ninguém" nos dois extremos — por falta de gente e por excesso dela

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Eu lírico: voz que fala no poema; não deve ser confundida com o autor biográfico — é a consciência poética que narra a experiência do trajeto de bonde.
  • Paradoxo (ou antítese): figura de linguagem que aproxima ideias opostas para revelar um sentido mais profundo; aqui, "estar sozinho" e "estar cercado de gente" produzem, ironicamente, a mesma sensação de anonimato.
  • Poesia urbana modernista: corrente que registra, com linguagem simples e coloquial, cenas cotidianas da cidade (bondes, ruas, multidões) para expor a experiência de alienação do indivíduo moderno — tema caro a Manuel Bandeira, autor deste poema ("Balada do Bonde", de Libertinagem, 1930).
  • Multidão como espaço de anonimato: tópico recorrente na literatura moderna — estar cercado de desconhecidos não gera pertencimento, mas dissolve a identidade do sujeito em meio à massa.

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "No banco ninguém, / Estou só, stou sem." → o bonde começa vazio; o eu lírico está fisicamente sozinho e se define, ele mesmo, como alguém "sem" (companhia, vínculo) — a solidão é total.
  • Evidência 2: "Depois sobe um homem, / No banco sentou, / Companheiro vou." → surge uma presença: por um instante, o eu lírico deixa de estar só e nomeia o outro passageiro de "companheiro" — mas é um vínculo mínimo, sem nenhum aprofundamento afetivo.
  • Evidência 3: "O bonde está cheio, / De novo porém / Não sou mais ninguém." → o bonde se enche de gente (multidão), e o eu lírico repete a mesma sensação do início — "não sou mais ninguém" ecoa o "ninguém" da primeira estrofe, só que agora por excesso de pessoas, não por ausência delas.
  • Síntese: o poema tem estrutura circular: parte de um extremo (bonde vazio = solidão) e chega ao outro extremo (bonde cheio = multidão), e em ambos os polos o resultado emocional é o mesmo — o apagamento do eu lírico como indivíduo. É exatamente esse contraste entre os dois extremos que a questão pede para nomear.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Mapear a estrutura das três estrofes

O poema tem três estrofes de três versos, cada uma correspondendo a um "estado" do bonde e do eu lírico:

1ª estrofe → bonde vazio → eu lírico sozinho ("Estou só, stou sem").

2ª estrofe → um passageiro sobe → eu lírico ganha companhia pontual ("Companheiro vou").

3ª estrofe → bonde cheio → eu lírico volta a se sentir apagado ("Não sou mais ninguém").

Essa progressão não é linear rumo a um final feliz: ela é circular, porque termina no mesmo tipo de sensação com que começou.

Subpasso 4.2 — Identificar o recurso central: a repetição de "ninguém"

A palavra "ninguém" aparece de forma quase idêntica no início ("No banco ninguém") e no fim ("Não sou mais ninguém"). Essa repetição não é acaso: é o recurso que constrói o paradoxo do poema. No início, "ninguém" descreve o banco vazio (ausência literal de pessoas); no fim, "ninguém" descreve o próprio eu lírico dissolvido dentro da multidão do bonde lotado. Ou seja, tanto a ausência total de gente quanto o excesso de gente produzem, para o sujeito poético, o mesmo efeito: o apagamento da sua individualidade. Esse é o núcleo de sentido que a alternativa correta precisa nomear com precisão.

Subpasso 4.3 — Verificação: cruzar a síntese com as alternativas

Se o poema opõe "bonde vazio, eu sozinho" a "bonde cheio, eu anônimo", a resposta correta precisa conter um termo referente à solidão inicial e outro referente à multidão final. Testando as cinco opções contra o texto, apenas o par "solidão e multidão" corresponde literalmente às duas situações descritas nas estrofes 1 e 3 — as demais alternativas trazem conceitos (satisfação, mobilidade, amizade, mudança) que não têm respaldo textual em nenhum verso do poema.

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) a solidão e a multidão.

✅ Correta: a primeira estrofe descreve literalmente a solidão do eu lírico no bonde vazio ("Estou só, stou sem"), e a terceira estrofe descreve o bonde tomado pela multidão ("O bonde está cheio"), na qual o sujeito volta a se sentir "ninguém". O par nomeia exatamente os dois polos do paradoxo construído pelo poema.

B) a carência e a satisfação.

❌ Incorreta: "carência" até dialoga vagamente com a solidão inicial, mas "satisfação" não aparece em nenhum momento do poema — nem o breve "companheiro" nem o bonde cheio geram qualquer sensação de contentamento; pelo contrário, o desfecho é de apagamento ("não sou mais ninguém"), não de satisfação.

C) a mobilidade e a lentidão.

❌ Incorreta: o poema não trata da velocidade ou do ritmo de deslocamento do bonde em nenhum verso; "mobilidade" e "lentidão" são categorias físicas de movimento, enquanto o tema do poema é inteiramente existencial/emocional (a relação do eu lírico com a presença ou ausência de outras pessoas).

D) a amizade e a indiferença.

❌ Incorreta: chamar o passageiro de "companheiro" indica apenas uma companhia circunstancial de viagem, não uma relação de amizade, que pressupõe vínculo afetivo e duradouro; além disso, o sentimento final não é de "indiferença", mas de anonimato — o eu lírico se sente apagado, e não indiferente às pessoas ao redor.

E) a mudança e a estagnação.

❌ Incorreta: há mudança de estados ao longo do poema (vazio → companhia → cheio), mas em nenhum momento há "estagnação" — o bonde está sempre em movimento, e o sentimento final de "não ser mais ninguém" é uma repetição da solidão inicial, não uma paralisação.

🏆 Gabarito: A — o poema constrói um paradoxo entre dois extremos experimentados pelo eu lírico: a solidão do bonde vazio e a multidão do bonde cheio, ambos resultando na mesma sensação de ser "ninguém".

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A nomeia com precisão textual os dois extremos do poema — o "ninguém" do banco vazio (solidão) e o "ninguém" do bonde cheio (multidão) — sustentando o paradoxo que dá sentido ao texto inteiro.
  • Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra poemas curtos e de linguagem simples pedindo que o candidato identifique o tema central a partir de palavras ou estruturas repetidas — não basta entender o "enredo" superficial (a viagem de bonde), é preciso perceber o efeito de sentido criado pela repetição.
  • Generalização: em poemas curtos, preste atenção especial a palavras que se repetem no início e no fim do texto — normalmente é aí que o autor constrói o contraste ou o paradoxo que resume a mensagem do poema.
  • Dica de eliminação rápida: elimine imediatamente qualquer alternativa que traga um conceito sem nenhuma palavra ou sinônimo correspondente no texto (como "mobilidade", "lentidão", "satisfação" ou "estagnação") — se a ideia não está no poema, nem em sentido figurado, ela não pode ser a resposta.
  • Conexões: o tema da solidão em meio à multidão é recorrente na poesia urbana moderna (compare com outros poemas modernistas sobre a vida na cidade grande); vale também revisar figuras de linguagem como antítese e paradoxo, muito cobradas em questões de interpretação poética no ENEM.

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