Mapa de questões · 2º dia
Questão 116 — ENEM 2016 Reaplicação
eu acho um fato interessante... né... foi como meu pai e minha mãe vieram se conhecer, né... que... minha mãe morava no Piauí com toda família... né... meu... meu avô... materno no caso... era maquinista... ele sofreu um acidente... infelizmente morreu... minha mãe tinha cinco anos... né... e o irmão mais velho dela... meu padrinho... tinha dezessete e ele foi obrigado a trabalhar... foi trabalhar no banco... e... ele foi... o banco... no caso... estava... com um número de funcionários cheio e ele teve que ir para outro local e pediu transferência prum local mais perto de Parnaíba que era a cidade onde eles moravam e por engano o... o... escrivão entendeu Paraíba... né... e meu... e minha família veio parar em Mossoró que era exatamente o local mais perto onde tinha vaga pra funcionário do Banco do Brasil e:: ela foi parar na rua do meu pai... né... e começaram a se conhecer... namoraram onze anos... né... o pararam algum tempo... brigaram... é lógico... porque todo relacionamento tem uma briga... né... e eu achei esse fato muito interessante porque foi uma coincidência incrível... né... como vieram a se conhecer... namoraram e hoje... e até hoje estão juntos... dezessete anos de casados...
CUNHA, M. A. F. (Org.). Corpus, discurso & gramática: a língua falada e escrita na cidade de Natal. Natal: EDUFRN, 1998.
Na produção dos textos, orais ou escritos, articulamos as informações por meio de relações de sentido. No trecho de fala, a passagem “brigaram... é lógico... porque todo relacionamento tem uma briga”, enuncia uma justificativa em que “brigaram” e “todo relacionamento tem uma briga” são, respectivamente,
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Relações de sentido entre partes do texto (fato x generalização), na modalidade oral da língua
- ⚡ Nível: Médio — a relação pedida não vem marcada por um conectivo explícito; é preciso perceber, na progressão do relato, a passagem de um caso pessoal para uma afirmação de valor universal
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecer relações lógico-discursivas entre segmentos de um texto oral transcrito, distinguindo generalização de outras relações de sentido (causa/consequência, premissa/conclusão, meio/finalidade, exceção/regra)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Que tipo de relação de sentido o narrador estabelece entre o caso pessoal que conta (o namoro e a briga de seus pais) e a afirmação final de que 'todo relacionamento tem uma briga'?"
- Palavras-chave decisivas: "é lógico", "todo relacionamento", "brigaram"
- Armadilha típica: confundir a sequência cronológica de acontecimentos da história (o erro do escrivão → a mudança para Mossoró → o encontro dos pais) com a relação de sentido cobrada, que está especificamente entre o fato narrado (a briga do casal) e o comentário final que o transforma em regra universal.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o texto parte de um acontecimento particular e biográfico e, a partir dele, formula uma afirmação de alcance geral, sem que isso configure uma dedução lógica formal, uma relação causal direta, uma relação de meio e finalidade ou um desvio em relação a uma norma pré-existente.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Oralidade e suas marcas: hesitações, marcadores conversacionais ("né", "é", reticências), repetições e retomadas são características da fala espontânea — diferente da escrita, que permite revisão prévia.
- Fato (evento particular): ocorrência específica, situada no tempo e vivida por sujeitos determinados; no texto, é a história de como os pais se conheceram e, dentro dela, o episódio de terem brigado ao longo do namoro.
- Generalização: enunciado que extrapola um caso único para uma classe inteira de situações, sinalizado por quantificadores universais como "todo", "sempre", "qualquer" — no texto, "todo relacionamento tem uma briga".
- Distinção crucial (generalização x premissa-conclusão): a generalização é um salto indutivo informal, do tipo "aconteceu comigo, logo é assim para todo mundo"; a relação premissa-conclusão pertence à argumentação lógica formal, com proposições explicitamente encadeadas — estrutura ausente num relato coloquial como esse.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "namoraram onze anos... né... pararam algum tempo... brigaram..." → o narrador está relatando fatos específicos, cronológicos e biográficos do namoro dos pais.
- Evidência 2: "é lógico... porque todo relacionamento tem uma briga... né..." → imediatamente após narrar o fato, o narrador interrompe a sequência de acontecimentos para emitir um juízo de validade universal, que não fala mais apenas dos pais, mas de "todo relacionamento".
- Síntese: o texto se move do particular (o que aconteceu especificamente com meus pais) para o geral (o que, segundo o narrador, acontece em qualquer relacionamento). Esse movimento de caso concreto → regra ampla é exatamente a relação de fato e generalização.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Reconhecer o gênero e a situação comunicativa
O texto é a transcrição de um depoimento oral espontâneo — um relato pessoal, como indicam as marcas de oralidade ("né", "é", reticências que sinalizam hesitação, autocorreções como "meu... e minha família"). Isso importa porque, em textos orais não planejados, as relações de sentido entre as partes raramente vêm marcadas por conectivos explícitos ("portanto", "por exemplo", "com o objetivo de"); elas se constroem pela forma como o conteúdo avança — do específico ao geral, de causa a efeito, e assim por diante. Cabe ao leitor reconstituir essa lógica implícita.
Subpasso 4.2 — Isolar o trecho relevante e classificar sua função
O ponto decisivo está no fechamento do relato. Depois de narrar cronologicamente o namoro dos pais — "namoraram onze anos... pararam algum tempo... brigaram" —, o narrador acrescenta "é lógico... porque todo relacionamento tem uma briga". Esse comentário deixa de descrever um evento específico da história dos pais: formula uma regra aplicável a qualquer relacionamento, usando o quantificador universal "todo". Esse é o mecanismo da generalização — partir de um caso concreto e vivido e, a partir dele, projetar uma conclusão de validade ampla.
Subpasso 4.3 — Verificação: testando o par "fato e generalização" contra o texto
O "fato" é a briga concreta entre os pais, um evento único, datado e biográfico. A "generalização" é a frase que transforma esse evento único em lei universal aplicável a "todo relacionamento". Não há, nesse par, causa direta (a briga não causa a regra), nem cadeia lógico-dedutiva com premissas explícitas, nem instrumento/objetivo, nem desvio de uma norma pré-estabelecida. O único padrão que se sustenta é: um caso particular relatado (fato) do qual se extrai uma afirmação de alcance universal (generalização).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) causa e consequência.
❌ Incorreta: essa relação exigiria que um evento fosse apresentado como o motivo direto que provoca outro — por exemplo, "o escrivão entendeu Paraíba, por isso a família foi parar em Mossoró". A briga do casal não é apresentada como causa da existência da regra "todo relacionamento tem uma briga"; a regra é uma generalização extraída do caso, não um efeito produzido por ele.
B) premissa e conclusão.
❌ Incorreta: premissa e conclusão pertencem à estrutura de um raciocínio lógico-argumentativo formal, em que proposições encadeadas sustentam necessariamente um resultado (como em um silogismo). O relato é uma narrativa pessoal e coloquial; o narrador não constrói um argumento dedutivo com etapas explícitas — apenas comenta, de modo espontâneo, que sua experiência confirma algo que já acredita valer para todos.
C) meio e finalidade.
❌ Incorreta: essa relação pressupõe um recurso (meio) empregado para alcançar um objetivo (finalidade) — "foi trabalhar no banco" para sustentar a família teria esse valor, se explorado dessa forma. O par "briga do casal" / "todo relacionamento tem uma briga" não expressa instrumento nem propósito a ser alcançado; é experiência particular e regra geral, não meio e fim.
D) exceção e regra.
❌ Incorreta: inverte o percurso real do texto. Exceção e regra pressuporia que uma regra já estivesse dada e que o caso narrado se afastasse dela como desvio anômalo. Aqui ocorre o oposto: primeiro vem o caso concreto (o namoro e a briga dos pais) e só depois, a partir dele, o narrador constrói a regra geral. Não há desvio de norma; há formulação da norma a partir do exemplo vivido.
E) fato e generalização.
✅ Correta: o narrador relata um fato específico e biográfico — o namoro e a briga de seus pais — e, na sequência imediata, extrapola esse caso particular para uma afirmação de alcance universal, "todo relacionamento tem uma briga". É o movimento típico da fala espontânea, em que a vivência pessoal funciona como base para uma verdade tida como válida em geral.
🏆 Gabarito: E — o texto se move do relato de um fato pessoal e específico (a briga dos pais) para uma generalização sobre relacionamentos em geral ("todo relacionamento tem uma briga"), o que caracteriza exatamente a relação de fato e generalização.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa E descreve com precisão o movimento textual observado — de um caso particular e vivido (fato) para uma afirmação de validade ampla (generalização) —, o que elimina as demais opções, todas baseadas em relações lógicas ou estruturais ausentes do relato.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra com frequência o reconhecimento de relações de sentido entre partes de um texto (causais, lógico-argumentativas, de finalidade, de generalização), sobretudo em textos de oralidade transcrita, nos quais os conectivos explícitos são raros e a relação precisa ser inferida pela progressão do conteúdo.
- Generalização (para o candidato): sempre que um texto sai de um caso específico e concreto para uma afirmação com quantificadores universais ("todo", "sempre", "qualquer", "é assim mesmo"), a relação estabelecida é de fato para generalização — memorize esse padrão "de um caso, uma regra".
- Dica de eliminação rápida: primeiro descarte as opções que exigem termos técnicos ausentes do texto (premissa/conclusão pede lógica formal explícita; meio/finalidade pede propósito declarado); em seguida, observe a direção do movimento textual — do específico para o geral, e não o contrário — para descartar "exceção e regra"; o que resta, confirmado pelo quantificador "todo", é fato e generalização.
- Conexões: esse tipo de questão dialoga com o estudo das variedades e modalidades da língua (fala x escrita, formal x informal) e com os mecanismos de coesão sequencial e progressão textual, temas recorrentes na prova de Linguagens do ENEM.
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