Mapa de questões · 2º dia
Questão 122 — ENEM 2016 Reaplicação
Poema tirado de uma notícia de jornal
João Gostoso era carregador de feira livre e morava
no morro da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e
morreu afogado.
BANDEIRA, M. Estrela da vida inteira: poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1980.
No poema de Manuel Bandeira, há uma ressignificação de elementos da função referencial da linguagem pela
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Leitura e interpretação de texto, gêneros textuais e intertextualidade (diálogo entre poesia e notícia jornalística)
- ⚡ Nível: Médio — a resposta certa exige comparar a estrutura do poema com o conjunto de elementos que define uma notícia, e não apenas identificar um traço estilístico isolado.
- 🎯 Tema/Habilidade: Hibridismo de gêneros textuais — reconhecimento de marcas do gênero notícia (lide jornalístico) incorporadas a um texto poético.
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual recurso do poema faz sua linguagem se aproximar da linguagem jornalística da notícia que lhe deu origem?"
- Palavras-chave decisivas: notícia, jornal, elementos próprios
- Armadilha típica: confundir o TÍTULO do poema — que só menciona a origem jornalística — com o recurso construído DENTRO dos versos, que é o que efetivamente produz o efeito de notícia.
- O que a resposta precisa demonstrar: que o candidato reconhece que a "cara de notícia" do poema vem da presença conjunta de informações básicas de um lide (quem, onde, quando, o quê), e não de um único detalhe isolado, como um nome de lugar ou uma frase curta.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Lide jornalístico: a abertura clássica de uma notícia responde às perguntas quem, o quê, quando, onde, como e por quê (as "5W + H" do jornalismo). Um texto soa como notícia quando reúne essas respostas de forma objetiva e concisa.
- Hibridismo/intertextualidade de gêneros: ocorre quando um texto de um gênero (o poema) incorpora marcas estruturais de outro gênero (a notícia), criando um efeito de sentido novo — aqui, o contraste entre a morte anônima e corriqueira de um trabalhador e o tratamento lírico dado a ela.
- Contexto modernista: Manuel Bandeira, poeta da primeira geração do Modernismo brasileiro, valoriza o cotidiano e a linguagem despojada. Ao imitar deliberadamente a objetividade fria de uma nota de jornal, o poeta expõe, por contraste, a indiferença social diante de uma morte como a de João Gostoso.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número" → apresenta simultaneamente o quem (o personagem e sua ocupação) e o onde (seu local de moradia), tal como faria a abertura de uma nota policial.
- Evidência 2: "Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro" → traz a marca temporal ("uma noite" = quando) e outra marca espacial (bar Vinte de Novembro = onde), situando o fato no tempo e no espaço, exatamente como exige uma notícia.
- Evidência 3: "Bebeu Cantou Dançou Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado" → sequência de ações objetivas e verbos secos, sem adjetivação nem digressão lírica, que respondem ao o quê aconteceu — como no corpo factual de uma notícia.
- Síntese: o poema reproduz, verso a verso, a estrutura informativa mínima de uma notícia — quem + onde + quando + o quê — e é essa organização conjunta, não um único recurso isolado (título, frase curta ou nome de lugar), que garante a aproximação com o gênero jornalístico.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Isolar o que cada alternativa aponta como responsável pela aproximação jornalística
As alternativas atribuem o efeito de notícia a fatores diferentes: o título (A), a brevidade das frases (B), os nomes de lugares como prova de veracidade (C), a enumeração de ações (D) e o conjunto quem/onde/quando/o quê (E). É preciso testar cada hipótese contra o texto decodificado no Passo 3.
Subpasso 4.2 — Confrontar cada hipótese com as evidências
- Título: fica FORA do corpo do poema, é paratexto — apenas anuncia a origem jornalística, sem ser o recurso interno que constrói o efeito de notícia nos versos.
- Frases curtas: isoladas, não são exclusivas do jornalismo (aparecem em outros gêneros) e não bastam para caracterizar toda a estrutura de uma notícia.
- Nomes de lugares: reais e localizáveis, mas sozinhos respondem apenas a UMA pergunta do lide, o "onde".
- Enumeração de ações: cobre só o "o quê", deixando de lado quem, onde e quando.
- Quem/onde/quando/o quê: é a única opção que agrupa TODAS as marcas identificadas na decodificação do Passo 3.
Subpasso 4.3 — Verificação
Reaplicando o teste "isso responde quem? onde? quando? o quê?" a cada trecho do poema, a resposta é sim para as quatro perguntas ao mesmo tempo, confirmando que o lide jornalístico está integralmente presente e é o traço mais completo de aproximação com a notícia.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) atribuição de título ao texto com base em uma notícia veiculada em jornal.
❌ Incorreta: o título é um elemento paratextual, externo ao corpo poético — ele apenas informa a origem do poema, mas não é o recurso interno que constrói, dentro dos versos, o efeito de linguagem jornalística.
B) utilização de frases curtas, características de textos do gênero jornalístico.
❌ Incorreta: frases curtas não são exclusividade do jornalismo (aparecem em ditados, telegramas, outros poemas) e, isoladamente, não definem a estrutura de uma notícia; o poema tem versos curtos, mas isso não é o cerne da aproximação pedida.
C) indicação de nomes de lugares como garantia de veracidade da cena narrada.
❌ Incorreta: os topônimos (morro da Babilônia, bar Vinte de Novembro, lagoa Rodrigo de Freitas) reforçam o efeito de real, mas atendem sozinhos apenas ao "onde", sendo insuficientes para caracterizar toda a estrutura informativa da notícia.
D) enumeração de ações, com foco nos eventos acontecidos à personagem do texto.
❌ Incorreta: a enumeração de ações (bebeu, cantou, dançou, se atirou, morreu) contempla apenas o "o quê" aconteceu, ignorando as demais informações (quem, onde, quando) que também estruturam o poema.
E) apresentação de elementos próprios da notícia, tais como quem, onde, quando e o quê.
✅ Correta: é a única alternativa que reconhece a presença simultânea e estrutural de todos os elementos informativos básicos do lide jornalístico — exatamente o que foi mapeado na decodificação do Passo 3.
🏆 Gabarito: E — o poema de Manuel Bandeira reproduz o lide jornalístico ao reunir, em poucos versos, quem é o personagem, onde ele mora e vai, quando o fato ocorre e o que lhe acontece; é essa concentração conjunta de dados informativos — e não um único recurso isolado como título, frase curta ou nome de lugar — que cria a aproximação com a linguagem da notícia.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que enxerga o conjunto de elementos (quem, onde, quando, o quê) como responsável pela hibridização de gêneros, enquanto as demais citam apenas fragmentos parciais desse conjunto.
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente o hibridismo e a intertextualidade de gêneros textuais, pedindo para identificar como um texto literário incorpora marcas de outro gênero — jornalístico, publicitário, epistolar, entre outros.
- Generalização: quando uma questão pergunta "por que este texto se parece com o gênero X?", a alternativa correta costuma apontar a estrutura ou função definidora do gênero X como um todo, e não um detalhe estilístico isolado.
- Dica de eliminação rápida: descarte, de imediato, qualquer alternativa que mencione apenas UM elemento isolado (só lugares, só frases curtas, só ações) quando a pergunta trata de aproximação de GÊNERO — gênero se define por um conjunto de marcas, nunca por um traço único.
- Conexões: intertextualidade e estilização em poesia modernista; a estrutura do lide jornalístico em produção textual; o contraste entre linguagem objetiva e linguagem lírica como recurso de crítica social.
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