Mapa de questões · 2º dia
Questão 99 — ENEM 2016 PPL
Argumento
Tá legal
Eu aceito o argumento
Mas não me altere o samba tanto assim
Olha que a rapaziada está sentindo a falta
De um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim
Sem preconceito Ou mania de passado
Sem querer ficar do lado
De quem não quer navegar
Faça como o velho marinheiro
Que durante o nevoeiro
Leva o barco devagar.
PAULINHO DA VIOLA. Disponível em: www.paulinhodaviola.com.br. Acesso em: 6 dez. 2012.
Na letra da canção, percebe-se uma interlocução. A posição do emissor é conciliatória entre as tradições do samba e os movimentos inovadores desse ritmo. A estratégia argumentativa de concessão, nesse cenário, é marcada no trecho
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da questão
- Matéria: Português → Argumentação → estratégia de concessão
- Habilidade: H18 — identificar os elementos que concorrem para a progressão temática e para a organização e estruturação de textos de diferentes gêneros
- Nível: Médio — o conceito de concessão é simples, mas o item exige localizar a marca formal dela, e não o trecho de sentido mais conciliador
- Gabarito: revelado no Passo 4
🔎 Passo 1 — Leitura estratégica do comando
- O comando, em uma linha: em qual verso está marcada a estratégia de concessão.
- Palavras-chave decisivas: estratégia argumentativa de concessão, é marcada no trecho.
- A armadilha: confundir concessão com conciliação. O enunciado já informa que a posição do emissor é conciliatória — e aí o candidato procura o verso mais equilibrado, mais generoso com o outro lado, como "Sem preconceito / Ou mania de passado". Só que o item não pergunta onde está a conciliação: pergunta onde está a marca da concessão, que é uma operação linguística específica.
- O que a resposta precisa mostrar: que você sabe que conceder é admitir o argumento do outro para, logo em seguida, restringi-lo — e que essa restrição tem uma marca visível no texto.
📚 Passo 2 — Revisão do conteúdo
- Concessão: movimento argumentativo em dois tempos. Primeiro se aceita, total ou parcialmente, o ponto do interlocutor; depois se opõe a ele uma ressalva que preserva a própria tese. Concede-se pouco para não ceder no essencial.
- A marca da concessão: a ressalva quase sempre vem introduzida por uma conjunção adversativa — "mas", "porém", "contudo", "no entanto" — ou por uma concessiva — "embora", "ainda que", "apesar de". Sem esse operador, há apenas concordância, e concordância não é argumento.
- Interlocução: o texto se dirige a alguém. Aqui há um "argumento" alheio já formulado, que o eu da canção responde. Reconhecer isso é o que permite identificar o que está sendo concedido.
- Conciliação: resultado geral do texto, o tom com que o emissor se coloca entre tradição e inovação. É um efeito da argumentação inteira, não uma marca localizável num verso — e é aqui que mora o distrator.
🧭 Passo 3 — Decodificação do enunciado
- Evidência 1: "Tá legal / Eu aceito o argumento" → o primeiro tempo da concessão. O emissor admite explicitamente que o outro lado tem razão em alguma medida.
- Evidência 2: "Mas não me altere o samba tanto assim" → o segundo tempo. A conjunção mas introduz o limite, e o "tanto assim" mostra que a discordância é de grau, não de princípio: pode mudar, desde que não tanto.
- Evidência 3: "Olha que a rapaziada está sentindo a falta / De um cavaco, de um pandeiro e de um tamborim" → o emissor sustenta a ressalva com um argumento de autoridade coletiva, citando o que o público percebe. É a justificativa da ressalva, não a ressalva.
- Evidência 4: "Sem preconceito / Ou mania de passado / Sem querer ficar do lado / De quem não quer navegar" → o emissor se afasta do conservadorismo puro. É a construção da própria imagem como interlocutor razoável.
- Evidência 5: "Faça como o velho marinheiro / Que durante o nevoeiro / Leva o barco devagar" → a proposta final, em metáfora: mudar, mas com cautela.
- Síntese: o texto tem aceitação (versos 1 e 2), restrição (verso 3), justificativa, construção de imagem e proposta. A concessão se completa exatamente na passagem da aceitação para a restrição.
🧠 Passo 4 — Resolução passo a passo
4.1 — Reconhecer os dois tempos da concessão
Concessão é sempre um par. Neste texto o par está nos três primeiros versos:
- Tempo 1, aceitação: "Tá legal / Eu aceito o argumento"
- Tempo 2, restrição: "Mas não me altere o samba tanto assim"
Sozinho, o tempo 1 seria adesão pura; sozinho, o tempo 2 seria recusa pura. É a sequência dos dois que caracteriza a estratégia.
4.2 — Decidir em qual dos dois a estratégia fica marcada
O enunciado pede o trecho em que a concessão está marcada. A marca de uma operação argumentativa é o operador que a torna visível — e o operador aqui é a conjunção adversativa "Mas". Ela é a palavra que informa ao interlocutor que a aceitação anterior tinha limite.
Repare que "Mas não me altere o samba tanto assim" só faz sentido depois de "Eu aceito o argumento". Um verso adversativo carrega, na própria conjunção, a concordância que o antecede. É por isso que ele, e não o verso da aceitação, é a marca da concessão.
4.3 — Distinguir concessão do restante da argumentação
Os demais trechos cumprem outras funções: apoiar a ressalva com o que o público sente, afastar a acusação de saudosismo, propor um ritmo de mudança. Nenhum deles admite o ponto do outro para em seguida restringi-lo — que é a definição de conceder.
4.4 — Verificação
O trecho procurado precisa, ao mesmo tempo, pressupor a aceitação do argumento alheio e impor um limite a ela. Só um verso faz as duas coisas. Gabarito: A.
✅❌ Passo 5 — Análise das alternativas
✅ (A) "Mas não me altere o samba tanto assim" — é o segundo tempo da concessão, e é onde a estratégia se marca. A conjunção adversativa mas retoma "Eu aceito o argumento" e lhe impõe um limite; o "tanto assim" ainda dosa esse limite, admitindo mudança e recusando apenas o excesso. Aceitar e restringir na mesma sequência é exatamente o que define conceder.
❌ (B) "Olha que a rapaziada está sentindo a falta" — é argumento de sustentação, não concessão. O emissor invoca a percepção coletiva do público para justificar a ressalva que já havia feito. Justificar um ponto e conceder ao ponto do outro são operações diferentes.
❌ (C) "Sem preconceito / Ou mania de passado" — distrator mais forte, porque é o trecho de tom mais conciliador do texto. Mas aqui o emissor fala de si, não do argumento alheio: ele se apresenta como alguém sem apego cego à tradição. Isso constrói credibilidade para quem argumenta; não admite nada do que o interlocutor disse.
❌ (D) "Sem querer ficar do lado / De quem não quer navegar" — continua a construção da própria imagem, agora por afastamento de terceiros: o emissor se recusa a ser confundido com os que rejeitam qualquer mudança. É dissociação de um grupo, não concessão a um interlocutor.
❌ (E) "Leva o barco devagar" — é a conclusão da canção, a proposta apresentada em metáfora náutica. Vem depois de todo o percurso argumentativo e sintetiza a solução defendida. Uma proposta encerra a argumentação; a concessão a prepara.
Gabarito: A — o verso adversativo é o que impõe limite ao argumento já aceito, e é essa combinação de aceitação e ressalva que caracteriza a concessão.
🏁 Passo 6 — Generalização e dica de prova
- Por que só A se sustenta: as outras quatro cumprem funções argumentativas reais — sustentar, construir imagem, dissociar-se, concluir —, mas nenhuma delas restringe um ponto previamente admitido.
- Como o ENEM cobra isso: a prova gosta de nomear a estratégia no comando (concessão, refutação, exemplificação, generalização) e pedir onde ela aparece. O trabalho é sempre casar o nome com a marca linguística, não com o clima geral do texto.
- A regra geral: concessão é aceitação seguida de "mas". Achou um "mas", "porém", "contudo" logo depois de uma concordância, achou a concessão.
- Eliminação em 30 segundos: procure a conjunção adversativa. Se só um dos cinco trechos tiver uma, ele é o gabarito, e as alternativas de tom simpático caem sem análise.
- Temas que costumam vir junto: conectivos e coesão, refutação, argumento de autoridade, funções da linguagem e a discussão entre tradição e modernidade na MPB.
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