Mapa de questões · 2º dia
Questão 124 — ENEM 2016 PPL
Quinze de Novembro
Deodoro todo nos trinques Bate na porta de Dão Pedro Segundo. — Seu imperadô, dê o fora que nós queremos tomar conta desta bugiganga. Mande vir os músicos. O imperador bocejando responde: — Pois não meus filhos não se vexem me deixem calçar as chinelas podem entrar à vontade: só peço que não me bulam nas obras completas de [Victor Hugo.
MENDES, M. Poesia completa e prosa . Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
A poesia de Murilo Mendes dialoga com o ideário poético dos primeiros modernistas. No poema, essa atitude manifesta-se na
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Literatura → Modernismo brasileiro (primeira fase) e recursos de ironia no texto poético
- ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer, no tom coloquial e burlesco do poema, o diálogo com o projeto estético dos modernistas de 1922, e não apenas "entender a história" narrada
- 🎯 Tema/Habilidade: Relação entre literatura e outras manifestações artísticas/históricas; identificação de recursos linguísticos que constroem a ironia em texto poético (Competência de Área 1/3 de Linguagens)
- 🏆 Gabarito: A — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual recurso do poema de Murilo Mendes mostra que ele segue os ideais poéticos da primeira geração modernista?"
- Palavras-chave decisivas: dialoga com o ideário poético dos primeiros modernistas, essa atitude manifesta-se, Quinze de Novembro
- Armadilha típica: confundir "recontar um episódio histórico com humor" (ironia) com "defender esse episódio" (ufanismo) ou com "ter saudade do que foi derrubado" (saudosismo) — o candidato apressado lê "imperador" e "obras completas de Victor Hugo" e associa o poema a uma exaltação da monarquia, quando na verdade o efeito é cômico e desmistificador
- O que a resposta precisa demonstrar: que o texto reescreve um fato da História oficial (a Proclamação da República) em chave irônica, usando linguagem coloquial e detalhe anedótico, exatamente como propunham os modernistas de 1922 ao rir da solenidade da historiografia tradicional
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Primeiro Modernismo brasileiro (fase heroica, 1922-1930): movimento que rompeu com o Parnasianismo e com o tom grandiloquente da literatura anterior, defendendo língua coloquial, humor, montagem fragmentada de cenas e, sobretudo, a revisão irreverente da História e dos mitos nacionais (ver Oswald de Andrade e o Manifesto Antropófago, que "deglute" a cultura oficial para rir dela).
- Murilo Mendes e "História do Brasil" (1932): livro de poemas curtíssimos e satíricos em que o poeta reconta episódios consagrados da História pátria (Descobrimento, Inconfidência, Proclamação da República etc.) como piadas rápidas, esvaziando a solenidade do discurso histórico oficial — postura herdada diretamente do espírito de 1922, mesmo Murilo pertencendo à geração seguinte.
- Ironia como recurso literário: dizer uma coisa sugerindo o contrário do sentido literal ou rebaixar um evento grave a um registro cômico; no poema, o golpe militar que encerra o Império vira uma cena caseira e engraçada, o que gera o efeito irônico sem que o eu lírico precise emitir um julgamento explícito.
- Fato histórico retratado: a Proclamação da República (15 de novembro de 1889), quando o marechal Deodoro da Fonseca, à frente de tropas, depõe o imperador Dom Pedro II — episódio tratado nos livros escolares com tom cívico e grave.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Deodoro todo nos trinques" / "Seu imperadô, dê o fora que nós queremos tomar conta desta bugiganga" → a fala de Deodoro imita a fala popular ("imperadô", sem o "r" final) e chama o Império de "bugiganga" — um objeto sem valor, ridicularizando o que era tratado como um marco solene da nação.
- Evidência 2: "Pois não meus filhos não se vexem me deixem calçar as chinelas podem entrar à vontade: só peço que não me bulam nas obras completas de Victor Hugo" → Dom Pedro II reage ao próprio golpe com resignação cômica e doméstica — sua única preocupação é proteger os livros de Victor Hugo, detalhe biográfico real (o imperador era leitor voraz) transformado em piada sobre as prioridades do monarca deposto.
- Síntese: o poema não nega nem esconde o fato histórico (a queda do Império é mantida), mas o reveste de linguagem coloquial, apelidos e situações banais — exatamente a estratégia modernista de reler a História oficial "por baixo", com humor, e não de exaltá-la, denunciá-la moralmente ou sentir saudade dela.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o fato histórico por trás do poema
O poema narra, em forma dramatizada, a Proclamação da República: Deodoro da Fonseca chega para depor Dom Pedro II, que recebe a notícia com espanto irônico e resposta protocolar. Até aqui, o "esqueleto" da cena é o mesmo que qualquer livro didático registraria.
Subpasso 4.2 — Localizar o que muda em relação ao registro histórico "oficial"
A diferença não está no fato, mas no tratamento dado a ele: verbos e substantivos de baixo registro ("bugiganga", "imperadô", "bulam", "não se vexem"), quebra do decoro esperado de um imperador e de um golpe militar, e o desfecho anticlimático (a preocupação com os livros de Victor Hugo em vez de resistir ou lamentar a perda do trono). Esse contraste entre a gravidade do episódio e a leveza/informalidade da linguagem é a marca da ironia.
Subpasso 4.3 — Verificação: conectar à pergunta sobre o "ideário dos primeiros modernistas"
Os modernistas de 1922 (e Murilo Mendes, ao segui-los em "História do Brasil") tinham como projeto justamente relativizar a versão solene e heroica da História nacional, usando humor, língua coloquial e montagem de cenas curtas — não para negar os fatos, mas para reler/reencenar esses fatos de forma crítica e bem-humorada. Isso corresponde, ponto a ponto, à alternativa que fala em "releitura irônica de um fato histórico": há releitura (o episódio é reencenado), e há ironia (o tom cômico contrasta com a gravidade do fato). O resultado bate exatamente com a alternativa A.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) releitura irônica de um fato histórico.
✅ Correta: o poema reconta a Proclamação da República substituindo o tom solene do discurso histórico oficial por linguagem coloquial, apelidos populares e um desfecho anticlimático (a preocupação com os livros de Victor Hugo), produzindo um efeito cômico que reinterpreta o episódio sem negar sua ocorrência — é essa operação de reler com ironia, e não de narrar com seriedade, que dialoga diretamente com o projeto modernista de 1922.
B) visão ufanista de um episódio nacional.
❌ Incorreta: ufanismo é a exaltação apaixonada e acrítica da pátria e de seus feitos; o poema faz o oposto disso — rebaixa a cena a um registro cômico e caseiro, sem qualquer tom de orgulho cívico ou celebração solene do evento.
C) denúncia implícita de atitudes autoritárias.
❌ Incorreta: embora Deodoro chegue impondo sua vontade, o poema não constrói uma crítica política ao autoritarismo — não há indignação, gravidade ou julgamento moral no texto; a tônica é o humor e o deboche verbal, não a denúncia, o que descarta essa leitura.
D) isenção ideológica do discurso do eu lírico.
❌ Incorreta: "isenção" significaria neutralidade, ausência de posicionamento; mas a escolha de vocabulário rebaixado, os apelidos e a ridicularização da cena revelam um posicionamento estético e crítico muito claro do eu lírico — o oposto de um discurso neutro.
E) representação saudosista do regime monárquico.
❌ Incorreta: saudosismo implica nostalgia e valorização do que se perdeu; o poema trata o próprio imperador e sua queda com chacota (ele se preocupa com livros, não com o trono), o que é incompatível com qualquer exaltação nostálgica da monarquia.
🏆 Gabarito: A — o poema reconta a Proclamação da República com linguagem coloquial, apelidos e desfecho anticlimático, produzindo uma releitura irônica do fato histórico, procedimento típico do ideário modernista de relativizar a solenidade da História oficial.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa A descreve com precisão a operação do texto — manter o fato histórico reconhecível, mas revesti-lo de humor e informalidade; as demais alternativas atribuem ao poema posturas (exaltação, denúncia, neutralidade, nostalgia) que o tom cômico e coloquial do texto contradiz.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente cobra poemas do Modernismo brasileiro (Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Manuel Bandeira) pedindo que o aluno reconheça marcas de oralidade, humor e desconstrução de discursos oficiais (históricos, religiosos, escolares) como assinatura do movimento.
- Generalização: sempre que um texto usar linguagem coloquial/informal para tratar de um tema "sério" (história, religião, ciência), desconfie de ironia, paródia ou humor crítico como chave de leitura — raramente é ufanismo, neutralidade ou nostalgia.
- Dica de eliminação rápida: risque de cara alternativas com palavras de tom emocional-positivo forte ("ufanista", "saudosista") quando o texto tiver vocabulário cômico/rebaixado — humor não combina com exaltação nem com saudade; e desconfie de "isenção"/"neutralidade" sempre que houver escolha lexical marcada (gírias, apelidos, ironia).
- Conexões: compare com "Erro de Português" e "Canção do Exílio" (paráfrases) de Oswald de Andrade, e com o Manifesto Antropófago (1928), que também "devoram" símbolos e fatos da cultura nacional para reencená-los de forma crítica e bem-humorada.
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