Mapa de questões · 2º dia
Questão 127 — ENEM 2016 PPL
Se o dançarino já preparou toda a sensação antes, ele não está no vazio... já está acabado. Nesse momento (vazio) é o seu corpo que está dizendo algo, não é você. Quando o ator está nesse momento de desistir, é nesse momento que ele deve continuar; é nesse momento que chega algo para quem está assistindo. Não importa tanto a coreografia e todo esse trabalho. O mais importante é isso, o vazio, e como você continua com isso...
COLLA, A. C. Caminhante, não há caminhos, só rastros . São Paulo: Perspectiva, 2013.
O texto considera que um corpo vazio (de som, sentimento e pensamento) pode fazer qualquer coisa. Nessa concepção, a atuação do dançarino alcança o ápice de
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Artes → Linguagem corporal e cênica (dança e teatro contemporâneos)
- ⚡ Nível: Médio — o texto é abstrato e filosófico, exigindo interpretar conceitos como "vazio" e "corpo que fala" sem apoio de conhecimento técnico prévio.
- 🎯 Tema/Habilidade: Compreensão de linguagens artísticas não verbais (dança/teatro) e da relação entre corpo, presença cênica e comunicação estética.
- 🏆 Gabarito: B — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Segundo o texto, o corpo esvaziado de som, sentimento e pensamento faz a atuação do dançarino atingir o auge de quê?"
- Palavras-chave decisivas: vazio, não é você, continuar
- Armadilha típica: confundir "vazio" com inércia ou com ausência de comunicação, quando o texto descreve exatamente o contrário — um estado intensamente ativo e comunicativo, só que não controlado pelo intelecto ou pela vontade consciente do intérprete.
- O que a resposta precisa demonstrar: entender que o "vazio" é o momento em que o dançarino abandona o controle racional e o preparo previamente ensaiado, deixando o corpo "falar" por si — ou seja, ultrapassando (transcendendo) a própria individualidade consciente.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Vazio cênico: no vocabulário das artes cênicas contemporâneas, "vazio" não significa ausência ou nada, mas um estado de disponibilidade radical do corpo, livre de intenções e emoções pré-fabricadas.
- Transcendência de si: superar os limites do próprio "eu" consciente e racional; o artista deixa de ser o agente que planeja e controla cada gesto e passa a ser atravessado por algo que o ultrapassa.
- Presença cênica x coreografia: o texto separa duas dimensões da atuação — a técnica (coreografia, preparo, ensaio) e a presença viva, aquilo que acontece "aqui e agora" e não pode ser totalmente programado.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Se o dançarino já preparou toda a sensação antes, ele não está no vazio... já está acabado." → o preparo racional e antecipado é apresentado como o oposto do vazio; quando tudo já foi decidido de antemão, não sobra espaço para o corpo "acontecer" em cena.
- Evidência 2: "Nesse momento (vazio) é o seu corpo que está dizendo algo, não é você." → aqui está o núcleo do texto: no vazio, quem se expressa não é o "eu" consciente (a pessoa, o ego, o controle racional), mas o corpo — o dançarino ultrapassa, transcende, a própria identidade consciente.
- Evidência 3: "É nesse momento que ele deve continuar; é nesse momento que chega algo para quem está assistindo." → mesmo no limite do esgotamento, insistir gera comunicação genuína com a plateia — reforça que há comunicação, e uma comunicação mais autêntica do que a controlada racionalmente.
- Síntese: o texto constrói uma gradação — preparo/coreografia (controle do "eu") → desistência (limite do controle) → vazio (o corpo fala, o "eu" se apaga) → algo chega ao público. O ápice descrito é exatamente o instante em que o dançarino deixa de ser conduzido pelo próprio "eu" e passa a ser conduzido por algo que o ultrapassa: a transcendência de si.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar o conceito central do texto
O texto de A. C. Colla trata do "vazio" como estado ideal da atuação em dança e teatro: um corpo esvaziado de som, sentimento e pensamento pré-formatados. Esse vazio não é um nada, mas uma disponibilidade radical — sem roteiro emocional pronto, o corpo pode "fazer qualquer coisa", conforme afirma o próprio comando da questão.
Subpasso 4.2 — Relacionar o vazio à ideia de superação do "eu"
O trecho decisivo é "é o seu corpo que está dizendo algo, não é você". Há aí uma cisão entre o "corpo que age" e o "eu consciente que planeja". Quando o dançarino atinge o vazio, ele deixa de ser guiado pela vontade racional, pelo cálculo e pelo ego artístico, e se entrega a algo que o ultrapassa. Esse movimento de ir além de si mesmo é, tecnicamente, uma transcendência de si: o artista supera os próprios limites conscientes de controle.
Subpasso 4.3 — Verificação
Voltando ao comando ("a atuação do dançarino alcança o ápice de..."), a única alternativa que nomeia corretamente esse movimento de superação do eu consciente em favor de uma presença corporal mais ampla é "transcendência de si". As demais alternativas descrevem estados que o texto nega explicitamente (inércia, ausência de comunicação) ou valorizam elementos que o próprio texto desqualifica (preparo prévio, controle consciente do movimento).
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) inércia em cena.
❌ Incorreta: inércia sugere passividade e imobilidade, mas o texto descreve exatamente o oposto — um estado de máxima disponibilidade e atividade corporal ("o corpo está dizendo algo"). O vazio é ausência de roteiro pronto, não ausência de ação.
B) transcendência de si.
✅ Correta: o texto mostra que o ápice da atuação ocorre quando o dançarino deixa de ser conduzido pelo "eu" consciente e racional — aquele que prepara, controla e planeja — e passa a ser atravessado por algo que o ultrapassa: "não é você" quem fala, é o corpo. Essa superação do controle do ego sobre a ação é, precisamente, a transcendência de si.
C) significação do preparo.
❌ Incorreta: o texto desvaloriza explicitamente o preparo prévio ("se o dançarino já preparou toda a sensação antes, ele não está no vazio... já está acabado") e a própria coreografia ("não importa tanto a coreografia e todo esse trabalho"). O ápice não está no preparo, mas justamente na ruptura com ele.
D) ausência de comunicação.
❌ Incorreta: o texto afirma o contrário — é justamente no momento do vazio que "chega algo para quem está assistindo". Há comunicação, e uma comunicação mais intensa e autêntica; o que muda é o meio pelo qual ela se dá, não mais o controle racional, mas a presença corporal pura.
E) consciência do movimento.
❌ Incorreta: o texto valoriza exatamente o oposto de uma consciência controlada — "não é você" quem age no vazio, é o corpo. O ápice da atuação está associado ao abandono do controle consciente, não ao seu reforço.
🏆 Gabarito: B — o texto descreve o vazio cênico como o momento em que o dançarino supera o próprio controle racional e consciente, deixando o corpo "falar" por si; esse movimento de ultrapassar os limites do próprio "eu" é, precisamente, uma transcendência de si.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: somente "transcendência de si" nomeia corretamente o movimento descrito no texto — o dançarino vai além do próprio controle consciente e deixa que o corpo, e não o "eu", conduza a cena.
- Padrão de cobrança: o ENEM frequentemente traz textos teóricos sobre linguagens artísticas (dança, teatro, artes visuais) que exigem interpretar conceitos abstratos — presença, vazio, corporeidade — sem exigir conhecimento técnico prévio; a resposta está sempre reconstruível a partir do próprio texto.
- Generalização: em questões de interpretação sobre linguagens artísticas, busque a ideia central reafirmada por diferentes trechos do texto (paráfrase interna) e desconfie de alternativas que contradizem literalmente alguma frase do enunciado.
- Dica de eliminação rápida: elimine primeiro qualquer alternativa que descreva o oposto do que o texto afirma — aqui, "inércia" e "ausência de comunicação" contradizem trechos literais ("é o corpo que está dizendo algo", "chega algo para quem está assistindo"), o que já reduz as opções a três antes de aprofundar a análise.
- Conexões: o tema dialoga com estudos de linguagem corporal e artes cênicas (o "corpo vazio" de Jerzy Grotowski, a Antropologia Teatral de Eugenio Barba) e com questões de interpretação textual que exploram os conceitos filosóficos de presença e alteridade.
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