Mapa de questões · 2º dia
Questão 112 — ENEM 2016 PPL
QUESTÃO 112 o::... o Brasil... no meu ponto de vista... entendeu? o país só cresce através da educação... entendeu? Eu penso assim... então quer dizer... você dando uma prioridade pra... pra educação... a tendência é melhorar mais... entendeu? e as pessoas... como eu posso explicar assim? as pessoas irem... tomando conhecimento mais das coisas... né? porque eu acho que a pior coisa que tem é a pessoa alienada... né? a pessoa que não tem noção de na::da... entendeu?
Trecho da fala de J. L., sexo masculino, 26 anos. In: VOTRE, S.; OLIVEIRA, M. R. (Coord.). A língua falada e escrita na cidade do Rio de Janeiro . Disponível em: www.discursoegramatica.letras.ufrj.br. Acesso em: 4 dez. 2012.
A língua falada caracteriza-se por hesitações, pausas e outras peculiaridades. As ocorrências de “entendeu” e “né” , na fala de J. L., indicam que
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Oralidade, marcadores conversacionais e variação linguística
- ⚡ Nível: Fácil — basta reconhecer a função pragmática (não semântica) de "entendeu" e "né" na fala espontânea
- 🎯 Tema/Habilidade: Modalidade oral da língua e função dos marcadores conversacionais (Competência de Linguagens ligada à variação linguística e às condições de produção do texto oral)
- 🏆 Gabarito: C — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual é a função de 'entendeu' e 'né' na fala transcrita de J. L.?"
- Palavras-chave decisivas: hesitações, entendeu, né, indicam que
- Armadilha típica: encarar os marcadores como "erro", "palavra vazia" ou sinal de despreparo do falante — leitura preconceituosa que o ENEM sistematicamente descarta
- O que a resposta precisa demonstrar: compreensão de que a fala espontânea tem lógica própria, e que certos itens lexicais cumprem função interacional (manter o contato com o ouvinte), não função de conteúdo
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Marcadores conversacionais/discursivos: palavras ou expressões (né, entendeu, tipo assim, sabe) que perdem parte do sentido lexical original e passam a organizar a interação — checar entendimento, pedir concordância, ganhar tempo para planejar a fala, manter o turno.
- Função fática da linguagem (Jakobson): categoria centrada no canal de comunicação; serve para testar, estabelecer ou prolongar o contato entre falante e ouvinte, garantindo que a comunicação continue fluindo.
- Modalidade oral x escrita: a fala espontânea é planejada e executada simultaneamente, por isso apresenta hesitações, alongamentos ("o::"), reticências e repetições. Isso não é "pobreza" de recursos, mas uma característica estrutural da oralidade, com estratégias próprias de coesão.
- Preconceito linguístico: avaliar a fala popular como "errada" ou "deficiente" é um viés que o ENEM tradicionalmente combate, valorizando a adequação da língua ao contexto de uso em vez de uma hierarquia entre variedades.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "o país só cresce através da educação... entendeu? Eu penso assim..." → o falante interrompe o fluxo de sua própria fala para verificar, junto ao ouvinte, se a ideia está sendo acompanhada — um pedido implícito de sinal de recepção.
- Evidência 2: "as pessoas irem... tomando conhecimento mais das coisas... né? porque eu acho que a pior coisa..." → "né" funciona como busca de concordância/validação, reforçando o vínculo com o interlocutor antes de prosseguir com a opinião.
- Síntese: os dois marcadores se repetem ao longo de todo o turno de fala, sempre logo após uma afirmação, cumprindo o mesmo papel: o falante se volta para quem o ouve, testando o canal de comunicação e assegurando que o diálogo continue ativo, mesmo em uma fala relativamente longa e sem interrupções do entrevistador.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Reconhecer o contexto de produção do texto
O texto é a transcrição literal de uma entrevista sociolinguística (projeto "A língua falada e escrita na cidade do Rio de Janeiro"), preservando marcas típicas da oralidade espontânea: alongamento vocálico ("o::"), reticências indicando pausas de planejamento, repetições ("entendeu?", "né?") e frases reformuladas em tempo real ("como eu posso explicar assim?"). Nada disso é erro de transcrição — é o retrato fiel de como a língua realmente funciona quando falada sem preparo prévio.
Subpasso 4.2 — Analisar a função pragmática de "entendeu" e "né"
Ambos os itens pertencem à classe dos marcadores conversacionais de checagem: não acrescentam informação nova ao conteúdo (não mudam "o que" está sendo dito), mas administram o "como" da interação. Ao dizer "entendeu?", o falante interpela diretamente o entrevistador, buscando confirmação de que a mensagem está sendo compreendida antes de continuar. Ao dizer "né?", ele busca adesão/concordância, mantendo o entrevistador engajado como parte ativa do diálogo, ainda que este não tome a palavra. Essa alternância funciona como um mecanismo de manutenção do canal comunicativo — típico da fala espontânea, em que o falante organiza o pensamento e, simultaneamente, monitora se o interlocutor o acompanha.
Subpasso 4.3 — Verificação
Comparando essa leitura com as alternativas, apenas uma descreve exatamente esse mecanismo: a que afirma que o enunciador interpela o interlocutor para manter o fluxo comunicativo. Isso corresponde à alternativa C, que sintetiza com precisão a função fática identificada nos dois marcadores.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) a modalidade oral apresenta poucos recursos comunicativos, se comparada à modalidade escrita.
❌ Incorreta: reproduz preconceito linguístico. A oralidade dispõe de recursos próprios — entonação, pausas, marcadores, repetições — tão eficazes para a comunicação quanto os recursos da escrita; não se trata de modalidade "mais pobre", e sim de um sistema com lógica e estratégias diferentes.
B) a língua falada é marcada por palavras dispensáveis e irrelevantes para o estabelecimento da interação.
❌ Incorreta: contradiz o próprio texto. "Entendeu" e "né" não são dispensáveis — pelo contrário, são justamente o recurso que sustenta a interação, cumprindo função pragmática relevante de checagem e busca de concordância.
C) o enunciador procura interpelar o seu interlocutor para manter o fluxo comunicativo.
✅ Correta: é exatamente a função identificada nos Passos 3 e 4 — os marcadores voltam-se ao ouvinte para testar e sustentar o contato comunicativo (função fática), permitindo que o falante prossiga com segurança em seu turno de fala.
D) o tema tratado no texto tem alto grau de complexidade e é desconhecido do entrevistador.
❌ Incorreta: não há nenhuma evidência textual dessa relação. O tema (educação e cidadania) é tratado em linguagem simples e opinativa; os marcadores não indicam desconhecimento do entrevistador, mas checagem de compreensão, algo comum mesmo em temas cotidianos.
E) o falante manifesta insegurança ao abordar o assunto devido ao gênero ser uma entrevista.
❌ Incorreta: o falante expressa opiniões com convicção ("eu penso assim", "eu acho que"), sem sinais de insegurança quanto ao conteúdo. Hesitações e marcadores são traços regulares do planejamento da fala espontânea, não sintomas de insegurança pessoal.
🏆 Gabarito: C — os marcadores "entendeu" e "né" cumprem função fática: voltam-se ao interlocutor para verificar sua atenção e obter sinais de concordância, mantendo ativo o fluxo da comunicação oral.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: C é a única alternativa que descreve com precisão conceitual a função interacional dos marcadores, sem recorrer a julgamentos de valor sobre a fala.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente traz transcrições de fala espontânea (entrevistas, depoimentos) para testar se o estudante reconhece as características legítimas da oralidade, evitando respostas que estigmatizem variedades populares ou informais da língua.
- Generalização: sempre que aparecerem expressões como "né", "entendeu", "tipo assim", "sabe" em um texto transcrito, pense primeiro em função fática/conversacional (checagem, manutenção do contato) — raramente a resposta correta as trata como erro ou vício de linguagem.
- Dica de eliminação rápida: descarte de imediato qualquer alternativa que classifique a fala como "pobre", "dispensável", "insegura" ou fruto de "desconhecimento" — o ENEM não valida leituras preconceituosas da oralidade; restam poucas opções, geralmente já a correta.
- Conexões: este tema dialoga com variação linguística, preconceito linguístico e as funções da linguagem de Jakobson (especialmente a função fática), assuntos recorrentes em questões de Linguagens do ENEM.
Comunidade Memorize · Grátis
Não perca nenhuma live, aula ou material.
Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.