Mapa de questões · 2º dia
Questão 111 — ENEM 2016 PPL
Baião é um ritmo popular da Região Nordeste do Brasil, derivado de um tipo de lundu, denominado “baiano”, cujo nome é corruptela. Nasceu sob a influência do cantochão, canto litúrgico da Igreja Católica praticado pelos missionários, e tornou-se expressiva forma modificada pela inconsciente influência de manifestações locais. Um dos grandes sucessos veio com a música homônima, Baião (1946), de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira.
CASCUDO, C. Dicionário do folclore brasileiro . Rio de Janeiro: Ediouro, 1998 (adaptado).
Os elementos regionais que influenciaram culturalmente o baião aparecem em outras formas artísticas e podem ser verificados na obra
Alternativas
Resolução
📋 Ficha da questão
- Matéria: Artes → arte popular brasileira → cultura nordestina e suas manifestações
- Habilidade: H14 — reconhecer o valor da diversidade artística e as inter-relações entre manifestações de diferentes grupos sociais
- Nível: Médio — exige reconhecer as obras e os artistas, mas o texto entrega o filtro que resolve a questão: os elementos têm de ser regionais e nordestinos
- Gabarito: revelado no Passo 4
🔎 Passo 1 — Leitura estratégica do comando
- O comando, em uma linha: em qual das cinco obras aparecem os mesmos elementos regionais que influenciaram o baião.
- Palavras-chave decisivas: elementos regionais, influenciaram culturalmente o baião, outras formas artísticas.
- A armadilha: escolher pela presença de música. Duas das obras mostram gente tocando e cantando — samba e viola —, e o aluno associa música com música. Mas o comando não pede outra obra sobre música: pede outra obra que carregue os mesmos elementos regionais, e esses elementos são nordestinos.
- O que a resposta precisa mostrar: que você identifica a região de origem de uma manifestação artística pelos seus traços, e não pela linguagem em que ela se apresenta.
📚 Passo 2 — Revisão do conteúdo
- Baião: gênero musical nascido no Nordeste, derivado do "baiano", um tipo de lundu. Foi levado ao país inteiro por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira a partir de 1946. Seus elementos são sertanejos: sanfona, zabumba, triângulo e temas do cotidiano do sertão — seca, êxodo, cangaço, festa de São João.
- Lundu: dança e canto de origem africana, trazido pelos povos bantos, que está na raiz de vários gêneros brasileiros. É o componente afro-brasileiro citado pelo texto.
- Cantochão: canto litúrgico monofônico da Igreja Católica, trazido pelos missionários. É o componente europeu e religioso citado pelo texto.
- Mestre Vitalino (1909–1963): ceramista de Caruaru, no agreste de Pernambuco. Criou uma escola de figuras de barro que retratam o sertanejo em cena — o cangaceiro, o vaqueiro, o retirante, a banda de pífanos, o casamento na roça. É a tradução em cerâmica do mesmo universo que o baião traduz em música.
- Cangaço: movimento de bandos armados que percorreu o sertão nordestino entre o fim do século XIX e os anos 1940. Lampião, seu personagem mais conhecido, virou figura recorrente da literatura de cordel, da xilogravura, do cinema e da cerâmica popular.
- Arte popular e arte erudita: o comando fala em "outras formas artísticas". A obra procurada não precisa ser música nem precisa ser erudita — precisa compartilhar a mesma matriz regional.
🧭 Passo 3 — Decodificação do enunciado
- Evidência 1: "Baião é um ritmo popular da Região Nordeste do Brasil" → o filtro geográfico está dado na primeira linha. A obra procurada tem de ser nordestina.
- Evidência 2: "derivado de um tipo de lundu" → matriz afro-brasileira, ligada à cultura popular e não à erudita.
- Evidência 3: "modificada pela inconsciente influência de manifestações locais" → o que interessa não é a origem europeia nem a africana isoladas, mas o que o sertão fez com elas. A obra procurada precisa mostrar o local, o cotidiano da região.
- Evidência 4: as legendas das cinco obras identificam autores e temas: "Samba em terreiro", de Heitor dos Prazeres; "Amolador de facas", de Adalton Lopes; "Folia de Reis", de Rosa Gauditano; "Lampião a cavalo", de Mestre Vitalino; "Violeiro", de José Ferraz de Almeida Júnior → só uma reúne artista nordestino, técnica de arte popular e personagem do sertão.
- Síntese: o item cruza três exigências — região Nordeste, arte popular e tema local. A obra correta é a única em que as três coincidem.
🧠 Passo 4 — Resolução passo a passo
4.1 — Aplicar o filtro regional
Passe as cinco obras pela pergunta "é do Nordeste?":
- Samba em terreiro, Heitor dos Prazeres → samba carioca, morro do Rio de Janeiro.
- Amolador de facas, Adalton Lopes → cerâmica figurativa de ofício urbano, sem marca sertaneja.
- Folia de Reis, Rosa Gauditano → fotografia de festa católica de matriz ibérica, praticada em várias regiões.
- Lampião a cavalo, Mestre Vitalino → cerâmica de Caruaru, agreste pernambucano.
- Violeiro, Almeida Júnior → pintura do caipira do interior paulista.
Uma só passa sem ressalva.
4.2 — Aplicar o filtro do tema local
O baião nasceu do que o sertão fez com o material que recebeu. A obra que traduz esse mesmo sertão é a que representa Lampião a cavalo: o cangaceiro é o personagem que o Nordeste produziu e devolveu à arte, em cordel, em xilogravura e em barro. É o cotidiano regional virado matéria artística, exatamente o que o texto descreve sobre o gênero musical.
4.3 — Descartar a associação por linguagem
Duas obras mostram música — o samba no terreiro e o violeiro com a viola. A tentação é ligar música a música. Mas o comando pede "outras formas artísticas", o que autoriza — e na verdade sugere — sair da linguagem musical. O critério é a origem regional, não o meio.
4.4 — Verificação
A obra correta precisa ser de artista nordestino, pertencer à arte popular e retratar personagem do sertão. Só a cerâmica de Mestre Vitalino reúne as três condições. Gabarito: D.
✅❌ Passo 5 — Análise das alternativas
❌ (A) Samba em terreiro, Heitor dos Prazeres — Obra de arte popular brasileira e de matriz afro-brasileira, o que a torna o distrator mais forte: o lundu citado no texto também é de raiz africana. O que a elimina é a geografia. Heitor dos Prazeres é carioca e o samba de terreiro retratado é do Rio de Janeiro. O baião é nordestino, e o comando pede elementos regionais, não apenas afro-brasileiros.
❌ (B) Amolador de facas, Adalton Lopes — É cerâmica figurativa de arte popular, técnica próxima à da alternativa correta, e por isso confunde. Mas o tema é um ofício ambulante urbano, sem qualquer marca do sertão nordestino. Semelhança de material e de técnica não cria parentesco cultural: o que a questão pede é o conteúdo regional, não o suporte.
❌ (C) Folia de Reis, Rosa Gauditano — A folia de reis é manifestação religiosa popular de origem ibérica e católica, ligada ao ciclo natalino, presente sobretudo no Sudeste e no Centro-Oeste. Ela dialoga apenas com o cantochão, que o texto apresenta como a influência europeia e externa, não como o elemento local. Faltam justamente as "manifestações locais" que o enunciado destaca.
✅ (D) Lampião a cavalo, Mestre Vitalino — Reúne as três exigências ao mesmo tempo. Mestre Vitalino é ceramista de Caruaru, no agreste de Pernambuco, coração da mesma região que gerou o baião. A obra é arte popular feita em barro, produzida por um artista do próprio meio que retrata. E o tema, o cangaceiro Lampião, é o personagem mais característico do imaginário sertanejo — o mesmo universo que Luiz Gonzaga levou para a música.
❌ (E) Violeiro, José Ferraz de Almeida Júnior — Pintura acadêmica do século XIX que retrata o caipira do interior de São Paulo. Erra em duas frentes: a região é o Sudeste rural, não o Nordeste, e a linguagem é erudita, não popular. A presença da viola faz o aluno pensar em música de raiz, mas viola caipira e sanfona de baião pertencem a tradições diferentes.
Gabarito: D — a cerâmica de Mestre Vitalino é a única obra que traduz em outra linguagem os mesmos elementos regionais nordestinos que formaram o baião.
🏁 Passo 6 — Generalização e dica de prova
- Por que só D se sustenta: A e E erram a região, C erra a matriz cultural, B erra o tema. D é a única em que região, tipo de arte e conteúdo coincidem com o que o texto atribui ao baião.
- Como o ENEM cobra isso: a prova gosta de pedir a "tradução" de uma manifestação artística para outra linguagem — música para cerâmica, literatura para pintura, dança para fotografia. O que se avalia é a matriz cultural comum, nunca a semelhança de suporte.
- A regra geral: identifique primeiro a região e o grupo social de origem. Isso resolve a maioria das questões de arte popular antes de qualquer discussão estética.
- Eliminação em 30 segundos: o texto diz "Região Nordeste" na primeira linha. Elimine tudo o que for reconhecidamente carioca, paulista ou de manifestação difundida por todo o país. Sobra o barro de Caruaru.
- Temas que costumam vir junto: literatura de cordel e xilogravura, Luiz Gonzaga e o Movimento Armorial, Mestre Vitalino e a cerâmica do Alto do Moura, e a distinção entre arte popular, arte erudita e arte de massa.
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