Mapa de questões · 2º dia
Questão 102 — ENEM 2016 PPL
Um menino aprende a ler
Minha mãe sentava-se a coser e retinha-me de livro na mão, ao lado dela, ao pé da máquina de costura. O livro tinha numa página a figura de um bicho carcunda ao lado da qual, em letras graúdas, destacava-se esta palavra: ESTÔMAGO. Depois de soletrar “es-to-ma-go”, pronunciei “estomágo”. Eu havia pronunciado bem as duas primeiras palavras que li, camelo e dromedário. Mas estômago, pronunciei estomágo. Minha mãe, bonita como só pode ser mãe jovem para filho pequeno, o rosto alvíssimo, os cabelos enrolados no pescoço, parou a costura e me fitou de fazer medo: “Gilberto!”. Estremeci. “Estomágo? Leia de novo, soletre”. Soletrei, repeti: “Estomágo”. Foi o diabo.
Jamais tinha ouvido, ao que me lembrasse então, a palavra estômago. A cozinheira, o estribeiro, os criados, Bernarda, diziam “estambo”. “Estou com uma dor na boca do estambo...”, “Meu estambo está tinindo...”. Meus pais teriam pronunciado direito na minha presença, mas eu não me lembrava. E criança, como o povo, sempre que pode repele proparoxítono.
AMADO, G. História da minha infância . Rio de Janeiro: José Olympio, 1958.
No trecho, em que o narrador relembra um episódio de sua infância, revela-se a possibilidade de a língua se realizar de formas diferentes. Com base no texto, a passagem em que se constata uma marca de variedade linguística pouco prestigiada é:
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Sociolinguística / Variação Linguística
- ⚡ Nível: Médio — exige diferenciar, dentro de um mesmo texto literário, marcas de fala popular de trechos narrativos ou de fala culta
- 🎯 Tema/Habilidade: Reconhecimento de variedades linguísticas de menor prestígio social em um texto memorialístico (competência de linguagem: analisar a língua como fenômeno social e histórico, variável no tempo e no espaço)
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Entre os cinco trechos citados, qual apresenta uma marca de variedade linguística pouco prestigiada socialmente?"
- Palavras-chave decisivas: variedade linguística, pouco prestigiada, passagem
- Armadilha típica: confundir "erro de pronúncia infantil" (o menino narrador dizendo "estomágo") com "variedade linguística pouco prestigiada" — são fenômenos diferentes: um é hipercorreção/tropeço individual de criança aprendendo a ler; o outro é um traço sistemático de fala de um grupo social.
- O que a resposta precisa demonstrar: identificar o trecho em que a forma de falar reflete o repertório linguístico de um grupo social (aqui, os empregados da casa), e não apenas um erro pontual ou a fala narrativa do autor already-instruído.
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Variação linguística: fenômeno segundo o qual a língua se realiza de formas diferentes conforme fatores geográficos, sociais, históricos e situacionais. Não existe "erro" absoluto: existem variedades mais ou menos prestigiadas socialmente conforme o contexto de uso.
- Variedade de prestígio x variedade estigmatizada: a norma-padrão (ensinada na escola, usada em textos formais) tem prestígio social; variedades associadas a grupos com menor acesso à escolarização formal — como no caso de "estambo" em vez de "estômago" — costumam ser estigmatizadas, mesmo sendo plenamente funcionais e sistemáticas dentro do grupo que as usa.
- Variação diastrática (social): tipo de variação ligada à classe social, ao grau de escolarização e à profissão dos falantes. É exatamente esse o recorte cobrado aqui: a fala da cozinheira, do estribeiro e dos criados reflete o grupo social a que pertencem, marcado por menor escolarização formal na norma culta.
- Diferença entre erro de aquisição e variação social: a criança que lê "estomágo" está cometendo um deslize de decodificação (tropeço na leitura de um proparoxítono, fenômeno de aquisição da leitura), não está reproduzindo o falar de um grupo social; já "estambo" é uma forma consolidada, repetida por vários falantes adultos do mesmo estrato social da casa.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "A cozinheira, o estribeiro, os criados, Bernarda, diziam 'estambo'" → revela um padrão de fala compartilhado por todo o grupo de empregados da casa — não é um erro isolado de uma pessoa, mas um traço linguístico de um grupo social inteiro.
- Evidência 2: "E criança, como o povo, sempre que pode repele proparoxítono" → o próprio narrador, já adulto e escritor, explica o fenômeno: tanto a criança quanto "o povo" tendem a evitar palavras proparoxítonas (como "estômago"), substituindo-as por formas mais simples foneticamente ("estambo"). Essa observação reforça que "estambo" é a marca de variedade popular, associada a "o povo", em contraste com a norma culta que o narrador aprende em casa com a mãe.
- Síntese: o texto opõe dois universos linguísticos: de um lado, a mãe corrige o menino com rigor ("Leia de novo, soletre"), representando a exigência da norma-padrão; de outro, os empregados da casa usam "estambo", uma forma consolidada no falar popular. É essa oposição que sustenta a resposta: a passagem que documenta a fala do grupo de menor prestígio social é a que cita "estambo".
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Separar o que é variação linguística do que é apenas erro de leitura
O menino pronuncia "estomágo" ao tentar ler a palavra "ESTÔMAGO" escrita no livro. Isso é um deslize de leitura: ele está soletrando e erra o acento tônico de uma palavra proparoxítona que nunca tinha ouvido antes. Não é a fala espontânea de um grupo social — é um tropeço individual de uma criança alfabetizando-se, corrigido de imediato pela mãe. Portanto, os trechos B (a correção da mãe) e C (leitura correta de "camelo" e "dromedário") não trazem marca de variedade linguística: são apenas narração do episódio de leitura.
Subpasso 4.2 — Localizar a fala efetivamente popular no texto
No segundo parágrafo, o narrador explica de onde vinha sua dificuldade: ele nunca tinha ouvido a palavra "estômago" pronunciada corretamente, porque em casa quem convivia mais de perto com ele no dia a dia — "a cozinheira, o estribeiro, os criados, Bernarda" — usava a forma "estambo". Essa é uma forma fonética reduzida e consolidada, repetida por várias pessoas do mesmo grupo social (os empregados domésticos), o que caracteriza uma variedade linguística real, de base popular, associada a menor escolarização formal — logo, pouco prestigiada frente à norma-padrão que a mãe exige do filho.
Subpasso 4.3 — Verificação cruzada com a explicação do próprio narrador
A frase final do texto — "E criança, como o povo, sempre que pode repele proparoxítono" — funciona como uma chave de leitura fornecida pelo próprio autor: ele equipara o comportamento linguístico da criança ao do "povo", isto é, das camadas populares, que tendem a evitar proparoxítonos difíceis como "estômago" e substituí-los por formas mais simples como "estambo". Essa generalização confirma que a passagem-alvo da questão é exatamente aquela em que aparece a forma "estambo", pronunciada pelos empregados da casa — alternativa E.
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) "O livro tinha numa página a figura de um bicho carcunda ao lado da qual, em letras graúdas, destacava-se esta palavra: ESTÔMAGO".
❌ Incorreta: é um trecho puramente descritivo/narrativo, sem qualquer marca de fala de um grupo social; apenas descreve o livro e a palavra impressa em letras grandes.
B) "'Gilberto!'. Estremeci. 'Estomágo? Leia de novo, soletre'. Soletrei, repeti: 'Estomágo'".
❌ Incorreta: registra a fala da mãe (que cobra a pronúncia correta, representando a norma culta) e o erro de leitura do próprio narrador-criança — um deslize individual de decodificação, não uma variedade linguística de um grupo social.
C) "Eu havia pronunciado bem as duas primeiras palavras que li, camelo e dromedário".
❌ Incorreta: trecho narrativo que apenas relata o sucesso do menino ao ler outras palavras; não há nenhuma marca de variação linguística, culta ou popular, nesse ponto.
D) "Jamais tinha ouvido, ao que me lembrasse então, a palavra estômago".
❌ Incorreta: é uma reflexão do narrador adulto sobre sua própria memória, explicando por que não sabia pronunciar a palavra — não reproduz nenhuma fala concreta, logo não constitui, por si, uma marca de variedade linguística.
E) "A cozinheira, o estribeiro, os criados, Bernarda, diziam 'estambo'".
✅ Correta: apresenta, entre aspas, a forma efetivamente usada na fala cotidiana de um grupo social específico — os empregados da casa. "Estambo" é uma redução fonética de "estômago" (perda da proparoxitonia), típica de variedades populares menos prestigiadas socialmente diante da norma-padrão exigida pela mãe do narrador.
🏆 Gabarito: E — é o único trecho que registra, entre aspas, a fala real e reiterada de um grupo social (os empregados da casa), constituindo a marca linguística popular contrastada com a norma culta cobrada pela mãe.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa E cita, entre aspas, uma forma de fala efetivamente usada por um grupo social do texto ("estambo"), o que a torna a única marca genuína de variedade linguística pouco prestigiada; as demais alternativas são trechos narrativos ou registram apenas o erro pontual de leitura da criança, não a fala de um grupo.
- Padrão de cobrança: o ENEM recorrentemente usa textos literários ou memorialísticos que contrastam a norma-padrão (fala escolarizada, geralmente de personagens de maior status social) com falas populares regionais ou sociais, pedindo que o candidato identifique a marca de variação e, principalmente, entenda que "diferente" não é sinônimo de "errado".
- Generalização: em questões de variação linguística, busque sempre o trecho que reproduz literalmente (entre aspas ou em discurso direto) a fala de um personagem ou grupo social identificável — é aí, e não na narração do autor, que a variação se manifesta.
- Dica de eliminação rápida: elimine de cara os trechos puramente narrativos/descritivos (sem fala reproduzida) e os trechos que mostram apenas a fala de quem representa a norma culta (aqui, a mãe); sobra o trecho com a fala do grupo popular, que é a resposta.
- Conexões: compare com outras questões ENEM sobre preconceito linguístico e variação diastrática/diatópica (por exemplo, textos que contrastam fala rural e fala urbana, ou gírias regionais), sempre reforçando que toda variedade é linguisticamente legítima, ainda que socialmente estigmatizada.
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