Pular para o conteúdo
MemorizeMemorize
Mapa de questões · 2º dia
LinguagensPortuguêsMédio

Questão 104ENEM 2016 PPL

Um cachorro cor de carvão dorme no azul etéreo de uma rede de pesca enrolada sobre a grama da Praça Vinte e Um de Abril. O sol bate na frente nos degraus cinzentos da escadaria que sobe a encosta do morro até a Igreja da Matriz. A ladeira de paralelepípedos curta e íngreme ao lado da igreja passa por um galpão de barcos e por uma casa de madeira pré-moldada. Acena para a velhinha marrom que toma sol na varanda sentada numa cadeira de praia colorida. O vento nordeste salgado tumultua as árvores e as ondas. Nuvens esparramadas avançam em formação do mar para o continente como um exército em transe. A ladeira faz uma curva à esquerda passando em frente a um predinho do século dezoito com paredes brancas descascadas e janelas recém-pintadas de azul-cobalto.

GALERA, D. Barba ensopada de sangue . São Paulo: Cia. das Letras, 2012.

A descrição, subjetiva ou objetiva, permite ao leitor visualizar o cenário onde uma ação se desenvolve e os personagens que dela participam. O fragmento do romance caracteriza-se como uma descrição subjetiva porque

Alternativas

Resolução

Ficha da Questão

  • 📚 Matérias Necessárias: Português → Leitura literária, figuras de linguagem e subjetividade discursiva
  • ⚡ Nível: Médio — exige reconhecer marcas linguísticas sutis (metáfora, personificação) que revelam subjetividade, e não apenas identificar "o que" está descrito.
  • 🎯 Tema/Habilidade: Descrição subjetiva x objetiva; funções da linguagem figurada na construção de atmosfera narrativa (reconhecimento de recursos expressivos da linguagem em textos literários).
  • 🏆 Gabarito: D — revelado após resolução completa

Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando

  • Comando reformulado: "Que recurso linguístico específico faz dessa descrição ser subjetiva, e não objetiva?"
  • Palavras-chave decisivas: descrição subjetiva, nomes e verbos metaforizados, ambiência
  • Armadilha típica: confundir "descrição detalhada" com "descrição subjetiva". Um trecho cheio de adjetivos e cores pode até parecer subjetivo, mas a subjetividade está no USO FIGURADO da linguagem — não na quantidade de detalhes.
  • O que a resposta precisa demonstrar: identificar QUAL mecanismo linguístico transforma uma cena real e reconhecível — a Praça Vinte e Um de Abril, a Igreja da Matriz — em uma paisagem filtrada por sensações e comparações do narrador.

Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais

  • Descrição objetiva: reproduz o real de forma direta e verificável, com substantivos concretos, verbos de estado ("é", "está") e organização enumerativa, sem filtro emocional — como um relatório técnico.
  • Descrição subjetiva: filtra o real pela percepção de quem descreve; usa figuras de linguagem — metáfora, personificação, comparação — que atribuem qualidades humanas ou sensoriais inesperadas aos elementos do cenário, criando uma ambiência única e impressionista.
  • Metáfora: transporta o sentido de uma palavra para outro campo semântico sem conectivo comparativo, criando uma imagem inusitada (ex.: "azul etéreo", "cor de carvão").
  • Personificação (prosopopeia): atribuição de ações próprias de seres animados a elementos inanimados (ex.: a ladeira que "acena", as nuvens que avançam "como um exército em transe").

Passo 3 — Decodificação do Enunciado

  • Evidência 1: "Um cachorro cor de carvão dorme no azul etéreo de uma rede de pesca" → o narrador não escreve "um cachorro preto numa rede azul": metaforiza a cor do animal e qualifica o azul da rede com um adjetivo abstrato e poético ("etéreo") — um dado visual comum vira imagem sensorial subjetiva.
  • Evidência 2: "Acena para a velhinha" e "Nuvens... avançam... como um exército em transe" → a ladeira "acena" (verbo humano aplicado a um acidente geográfico) e as nuvens ganham comportamento militar e psicológico — personificação e comparação que humanizam a paisagem com a dramaticidade de quem narra.
  • Síntese: o texto não descreve a cena como uma planta baixa neutra; cada elemento do espaço recebe um verbo ou nome deslocado de seu sentido literal, o que comprova que a subjetividade nasce do emprego metafórico de nomes e verbos.

Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)

Subpasso 4.1 — Isolar as marcas de subjetividade no texto

No fragmento, destacam-se as expressões que fogem do sentido literal: "azul etéreo", "cor de carvão", "ladeira... acena", "vento... tumultua as árvores e as ondas", "nuvens... avançam... como um exército em transe". Ao lado delas há dados mais objetivos ("degraus cinzentos", "paredes brancas descascadas", "madeira pré-moldada"), que funcionam apenas como âncoras concretas da cena real. O que decide a natureza da descrição não é a presença isolada desses dados, mas o predomínio dos verbos e substantivos figurados que costuram o texto.

Subpasso 4.2 — Identificar o mecanismo comum

O traço comum entre "acena", "tumultua" e "como um exército em transe" é a metaforização: verbos próprios de seres animados e uma comparação bélico-psicológica são aplicados à ladeira, ao vento e às nuvens. Isso não descreve objetivamente "o que existe" no espaço, mas "como o narrador sente" esse espaço — a marca definidora da descrição subjetiva.

Subpasso 4.3 — Verificação

Comparando esse mecanismo com as cinco alternativas, só a opção D nomeia com precisão o recurso: "cria uma ambiência própria por meio de nomes e verbos metaforizados". As demais descrevem traços de descrição objetiva (frases enumerativas, substantivos concretos para ambiente estático) ou elementos ausentes no fragmento (sequência temporal, oposição semântica).

Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas

A) constrói sequências temporais pelo emprego de expressões adverbiais.

❌ Incorreta: o texto é organizado por deslocamento ESPACIAL — o olhar percorre a praça, sobe a escadaria, segue a ladeira e chega ao predinho —, não por marcadores de tempo. Não há expressões adverbiais temporais estruturando o parágrafo; o encadeamento é de progressão no espaço.

B) apresenta frases curtas, de ordem direta, com elementos enumerativos.

❌ Incorreta: as frases são, em geral, longas e sintaticamente elaboradas, com orações subordinadas e adjuntos acumulados (ex.: "A ladeira de paralelepípedos curta e íngreme ao lado da igreja passa por um galpão de barcos e por uma casa de madeira pré-moldada"). Frase curta e enumeração são traços típicos de descrição objetiva, não do efeito subjetivo produzido aqui.

C) recorre a substantivos concretos para representar um ambiente estático.

❌ Incorreta: embora existam substantivos concretos (cachorro, rede, escadaria, igreja), o ambiente é dinâmico, não estático — o cachorro dorme, o sol bate, o vento tumultua, as nuvens avançam, a ladeira "acena". O efeito subjetivo não decorre do caráter concreto dos substantivos, mas do uso figurado que se faz deles.

D) cria uma ambiência própria por meio de nomes e verbos metaforizados.

✅ Correta: é exatamente o recurso identificado no Passo 4 — substantivos ("azul etéreo", "cor de carvão") e verbos ("acena", "tumultua") em sentido figurado constroem uma atmosfera única e pessoal, própria do olhar de quem narra, o que caracteriza a descrição como subjetiva.

E) prioriza construções oracionais de valor semântico de oposição.

❌ Incorreta: não há, no fragmento, conjunções ou orações adversativas ("mas", "porém") organizando o sentido; o texto é aditivo e descritivo, encadeando imagens que se somam — praça, escadaria, igreja, ladeira, casa, velhinha, vento, nuvens, predinho — sem relação de oposição entre elas.

🏆 Gabarito: D — a subjetividade da descrição decorre do emprego metafórico de substantivos e verbos (rede "azul etérea", ladeira que "acena", nuvens que avançam "como um exército em transe"), recurso que transforma dados físicos do cenário em uma atmosfera sensorial e emocional própria do narrador.

Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova

  • Reafirmação do gabarito: apenas a alternativa D nomeia o mecanismo linguístico realmente presente no texto — a metaforização de nomes e verbos —, causa direta do efeito de subjetividade pedido pelo enunciado; todas as demais descrevem traços de objetividade ou elementos ausentes do fragmento.
  • Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente, na prova de Linguagens, a distinção entre descrição objetiva e subjetiva a partir de trechos literários, sempre exigindo que o candidato aponte o RECURSO LINGUÍSTICO — figura de linguagem, escolha verbal, adjetivação — e não apenas o "assunto" do texto.
  • Generalização: sempre que um texto atribuir comportamento humano a elementos não humanos (personificação) ou deslocar o sentido literal de uma palavra (metáfora), a descrição é subjetiva; quando se limita a nomear e enumerar dados verificáveis com verbos de estado, é objetiva.
  • Dica de eliminação rápida: elimine primeiro as alternativas que descrevem "objetividade" com outras palavras (frases curtas e diretas, substantivos concretos, ambiente estático). Depois, procure verbos ou substantivos "fora do lugar" (uma ladeira que acena, um azul etéreo): se existirem, a resposta certa é a que menciona metáfora/personificação.
  • Conexões: o tema dialoga com "figuras de linguagem" e com "funções da linguagem" (poética/emotiva x referencial), recorrentes nas questões de interpretação textual do ENEM.

Comunidade Memorize · Grátis

Não perca nenhuma live, aula ou material.

Entre na comunidade do WhatsApp e receba os avisos de tudo que a equipe Memorize lança de graça — direto no seu celular.