Mapa de questões · 2º dia
Questão 114 — ENEM 2016 PPL
Ainda os equívocos no combate aos estrangeirismos
Por que não se reconhece a existência de norma nas variedades populares? Para desqualificá-las? Por que só uma norma é reconhecida como norma e, não por acaso, a da elite?
Por tantos equívocos, só nos resta lamentar que algumas pessoas, imbuídas de crença de que estão defendendo a língua, a identidade e a pátria, na verdade estejam reforçando velhos preconceitos e imposições. O português do Brasil há muito distanciou-se do português de Portugal e das prescrições dos gramáticos, cujo serviço às classes dominantes é definir a língua do poder em face de ameaças - internas e externas
ZILLES, A. M. S. In: FARACO, C. A. (Org.). Estrangeirismos: guerras em torno da língua.
São Paulo: Parábola, 2004 (adaptado).
O texto aborda a linguagem como um campo de disputas e poder. As interrogações da autora são estratégias que conduzem ao convencimento do leitor de que
Alternativas
Resolução
Ficha da Questão
- 📚 Matérias Necessárias: Português → Interpretação de Texto / Sociolinguística (Variação Linguística e Norma-Padrão)
- ⚡ Nível: Médio — a alternativa correta exige diferenciar uma paráfrase literal do texto de uma leitura interpretativa mais profunda do seu argumento
- 🎯 Tema/Habilidade: Preconceito linguístico e motivação social da norma culta; competência de identificar a tese defendida por meio de perguntas retóricas
- 🏆 Gabarito: E — revelado após resolução completa
Passo 1 — Leitura Estratégica do Comando
- Comando reformulado: "Qual ideia as perguntas retóricas do texto defendem sobre a norma linguística e sua relação com a elite?"
- Palavras-chave decisivas: desqualificá-las, não por acaso, a da elite
- Armadilha típica: confundir a constatação factual do texto (apenas a norma da elite é reconhecida) com a explicação causal que o texto propõe (por que isso acontece)
- O que a resposta precisa demonstrar: capacidade de captar o argumento implícito por trás de perguntas retóricas, indo além da simples repetição do conteúdo literal
Passo 2 — Mapa de Conceitos Essenciais
- Norma-padrão (norma culta): variedade linguística de maior prestígio social, ensinada na escola e associada às classes dominantes; sua autoridade é social e política, não uma superioridade linguística intrínseca.
- Variação linguística: fenômeno inerente a qualquer língua viva; toda variedade — regional, social, etária — possui organização gramatical própria e sistemática, isto é, sua própria "norma".
- Preconceito linguístico: discriminação social que se disfarça de julgamento sobre "certo/errado" na fala, usada para hierarquizar pessoas conforme seu modo de falar.
- Pergunta retórica como estratégia argumentativa: recurso que não busca resposta do leitor, mas o conduz a uma conclusão; aqui, sugere que negar "norma" às falas populares é uma escolha de poder, não um fato linguístico neutro.
Passo 3 — Decodificação do Enunciado
- Evidência 1: "Por que não se reconhece a existência de norma nas variedades populares? Para desqualificá-las?" → o texto insinua que negar norma às falas populares é um ato de desqualificação social, uma operação de poder disfarçada de julgamento linguístico.
- Evidência 2: "Por que só uma norma é reconhecida como norma e, não por acaso, a da elite?" → a expressão "não por acaso" é a chave interpretativa: o autor afirma que a associação entre "norma reconhecida" e "elite" tem uma causa, e essa causa é o poder social do grupo que a utiliza.
- Síntese: as três perguntas, articuladas em sequência, constroem a tese de que a hierarquia entre normas linguísticas — uma "vale", as outras "não valem" — reflete uma hierarquia social, e não uma diferença real de qualidade entre as variedades da língua.
Passo 4 — Resolução Completa (Passo a Passo)
Subpasso 4.1 — Identificar a estrutura argumentativa do texto
O trecho é formado por três perguntas retóricas encadeadas, técnica típica de textos de opinião/ensaio para conduzir o leitor a uma conclusão sem enunciá-la de modo direto e categórico. Cada pergunta reforça e aprofunda a anterior, criando um raciocínio em cadeia.
Subpasso 4.2 — Isolar o núcleo do argumento
Pergunta 1: "existe norma nas variedades populares?" (resposta implícita: sim, mas ela não é reconhecida como tal). Pergunta 2: "por que não se reconhece essa norma?" — resposta sugerida: para desqualificar essas variedades. Pergunta 3: "por que só a norma da elite é chamada de norma?" — e o autor já adianta que isso "não é por acaso". Encadeadas, as três perguntas revelam que a exclusão das variedades populares da categoria "norma" não decorre de uma suposta inferioridade linguística real, mas de um mecanismo de manutenção de status e poder social pela elite.
Subpasso 4.3 — Verificação
Reler as alternativas à luz da tese reconstruída: a resposta correta precisa expressar a causa social por trás da desvalorização das variedades populares — não apenas repetir o fato de que só uma norma é aceita. A alternativa E ("a desvalorização das variedades linguísticas populares tem motivação social") corresponde exatamente ao sentido de "não por acaso": há uma motivação, e essa motivação é social, ligada ao poder da elite sobre o que é considerado "correto".
Passo 5 — Análise Crítica de Todas as Alternativas
A) o português do Brasil é muito diferente do português de Portugal.
❌ Incorreta: o texto trata de variação interna ao português brasileiro (norma da elite versus variedades populares), não de uma comparação entre o português brasileiro e o europeu. Nenhuma evidência textual sustenta essa leitura; é um tema completamente alheio ao trecho.
B) as prescrições dos gramáticos estão a serviço das classes dominantes.
❌ Incorreta: aproxima-se do tema geral, mas desvia o foco argumentativo. O texto não menciona gramáticos nem "prescrições gramaticais" — fala da norma socialmente reconhecida, um fenômeno mais amplo (envolve escola, mídia, instituições) do que a atuação específica de gramáticos. A alternativa introduz um agente que as perguntas retóricas não mencionam nem sugerem diretamente.
C) a norma linguística da elite brasileira é a única reconhecida como tal.
❌ Incorreta: é uma paráfrase literal de apenas um trecho do texto ("só uma norma é reconhecida como norma... a da elite"), mas ignora o núcleo argumentativo — o "porquê" dessa exclusividade. C descreve o fenômeno (a constatação), enquanto a questão pede a ideia defendida pelo texto (a explicação causal por trás do fenômeno), o que torna essa opção incompleta diante de E.
D) o português do Brasil há muito distanciou-se das prescrições dos gramáticos.
❌ Incorreta: não há qualquer menção a um distanciamento histórico entre a língua falada e a norma gramatical. Essa é uma tese diferente, sobre mudança linguística ao longo do tempo, que não está sustentada pelo excerto apresentado.
E) a desvalorização das variedades linguísticas populares tem motivação social.
✅ Correta: sintetiza com precisão o argumento construído pelas três perguntas retóricas — a marginalização das variedades populares como "sem norma" não é um dado linguístico neutro, mas resultado de uma motivação social, a manutenção do prestígio e do poder da elite. É exatamente o que a expressão "não por acaso" sinaliza no texto.
🏆 Gabarito: E — o texto usa perguntas retóricas para defender que a hierarquia entre normas linguísticas não tem base linguística, mas motivação social, ligada à manutenção do prestígio da elite.
Passo 6 — Conclusão, Generalização e Dica de Prova
- Reafirmação do gabarito: E é a única alternativa que capta a causa (motivação social) por trás do fenômeno descrito — exatamente o que as perguntas retóricas do texto constroem argumentativamente ao usar a expressão "não por acaso".
- Padrão de cobrança: o ENEM cobra recorrentemente textos sobre preconceito linguístico e variação linguística (autores como Marcos Bagno e Stella Maris Bortoni-Ricardo são referências frequentes), pedindo a identificação da tese que relaciona norma-padrão a poder social, e não a "correção" linguística em si.
- Generalização: em questões com perguntas retóricas, busque sempre a "ideia por trás da pergunta" — o argumento implícito — e não apenas uma reformulação literal do que foi perguntado. Alternativas que só parafraseiam o texto costumam ser distratores fortes, mas incompletos.
- Dica de eliminação rápida: elimine A e D de imediato, pois tratam de temas ausentes do texto (comparação Brasil/Portugal e distanciamento histórico da norma gramatical); depois compare B, C e E observando qual delas explica a causa (motivação) do fenômeno, e não apenas descreve o fato.
- Conexões: sociolinguística variacionista (Labov), preconceito linguístico (Bagno), norma-padrão versus norma culta, letramento e cidadania linguística.
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